quarta-feira 17 2013

Copom: decisão desta quarta será crucial para credibilidade do BC


Selic

Falta de clareza sobre próximos movimentos do Copom podem minar investimentos no Brasil e limitar ainda mais o crescimento econômico

Naiara Infante Bertão
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central: inflação alta coloca em xeque a política monetária (Ueslei Marcelino/Reuters)
Se, há uma semana, economistas acreditavam firmemente que a trajetória de alta da taxa de juros básica, a Selic, só começaria na reunião de maio do Comitê de Política Monetária, hoje não há mais tal certeza. Diante de uma inflação acima do teto da meta (no acumulado de 12 meses) e de vagos comentários das autoridades econômicas do país sobre as medidas que serão tomadas para conter a subida dos preços, o mercado financeiro sente uma atmosfera de insegurança e imprevisibilidade que podenter efeitos desagradáveis para uma economia que tem dificuldades em engrenar, como a brasileira.
A subida de juros, em si, é vista como positiva pela escola econômica mais ortodoxa. O problema está justamente nas mudanças constantes de expectativa - que acabam minando a confiança do mercado sobre a coerência da atuação do Banco Central. “Quando um empresário vai investir, ele quer um cenário estável ou pelo menos previsível, claro. O mais importante não é o governo subir os juros, mas sim, ser transparente”, disse ao site de VEJA o economista Samy Dana, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
As mensagens que vêm sendo emitidas pelo governo e pelo BC não indicam que haja tal transparência. Todas as autoridades - inclusive a próprio presidente Dilma Rousseff - já disseram à exaustão que acompanham o caminhar dos índices de preço e que não fecharão os olhos para o problema. Contudo, nenhuma atitude foi tomada para combatê-lo.
O ministro Guido Mantega chegou a admitir a necessidade da subida dos juros na semana passada. Mas voltou atrás, segundo declarações dadas ao jornal O Estado de S. Paulo no domingo. Já a presidente Dilma afirmou, durante sua visita a Belo Horizonte, que os juros jamais voltariam a subir no patamar em que estavam no passado - próximos de 15%. E insistiu que o governo quer combater a inflação por meio das desonerações tributárias - e não pela subida de juros.
As expectativas de que a Selic deve subir já na reunião desta quarta se devem ao fato de o governo não dispor, atualmente, de muitas armas para impedir a subida dos preços, tendo em vista que as próprias desonerações de impostos e os investimentos na ampliação da oferta não têm efeito imediato na economia - demoram cerca de 3 anos. Já a Selic leva de 6 a 9 meses para impactar o mercado.
O problema é que, desde 2011, as expectativas do mercado têm se descolado da atuação do BC - situação que é igualmente preocupante. Há tanta insegurança sobre os próximos passos da autoridade e, inclusive, sobre sua autonomia para decidir qual o melhor rumo da política monetária do país, que qualquer decisão sobre os juros que não esteja alinhada com as expectativas do mercado pode imprimir uma nova rachadura na credibilidade do órgão.
Expectativas - Segundo um texto de autoria do próprio BC, "um dos objetivos centrais do regime de metas é justamente ancorar as expectativas de mercado que, de forma geral, orientam o processo de formação de preços na economia". Isso significa que, à medida que os movimentos do BC passam a ser mais previsíveis, as expectativas de inflação se formam com maior precisão. É possível dizer que a política monetária tem credibilidade quando os reajustes de preços passam a ser próximos da meta - o que não ocorre no Brasil desde 2009.
Quando, em agosto de 2011, enquanto a inflação avançava, o BC decidiu cortar os juros subitamente alegando a crise na Europa, as expectativas ruíram. A deterioração se ampliou em 2012, quando a inflação permanecia muito acima do centro da meta (de 4,5%) e, ainda assim, o Copom continuava cortando juros até chegar à mínima histórica de 7,25%. Hoje, o mercado de juros futuros já precifica a Selic mais alta para o final deste ano - mas os indícios de que essa alta de cerca de 1,25 ponto porcentual ao longo de 2013 realmente ocorra ainda são vagos.
Desde que o regime de metas foi criado, em 1999, a taxa básica de juros é o instrumento primordial usado no controle inflacionário. Quando a Selic sobe, impacta diretamente no custo do dinheiro e os juros bancários sobem - causando um esfriamento da atividade econômica e, consequentemente, do consumo. A demanda por bens e serviços cai porque há menos pessoas e empresas consumindo - com isso, os preços tendem a cair também.
Pressão popular - A situação, este ano, é diferente da vivida nos anos anteriores, em que a inflacão também ficou acima do centro da meta, porque, agora, há pressão popular. “O aumento dos juros agora não vai ser para acalmar os mercados, mas sim a sociedade, que está histérica e com razão porque tem na lembrança o problemas hiperinflacionário que o Brasil viveu antes de 1994”, acredita o analista da M.Safra, Marcelo Fonseca.
O aumento do preço do tomate, que superou 120% em 12 meses, mostra que o poder de compra dos brasileiros vem sendo corroído devido a problemas, sobretudo, na oferta de produtos no país. Ainda que o fruto tenha peso insignificante (de menos de 0,5%) na composição do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação, tal situação abriu os olhos da população para o problema inflacionário. "O tomate é a manifestação de um problema que vinha sendo alardeado pela unanimidade dos economistas e que o consumidor começou a sentir no bolso agora", diz Fonseca.

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