sexta-feira 11 2015

STJ derruba tese de advogados e estraga Natal de figurões da Lava Jato


Expectativa de algumas das principais bancas do país era a de que os empreiteiros seriam liberados em massa porque, segundo as defesas, não havia mais risco de continuarem cometendo crimes. Tribunal discorda e mantém empresários na cadeia

O executivo Marcelo Odebrecht, preso na Operação Lava Jato, durante depoimento à CPI da Petrobras em Curitiba, nesta terça-feira (01)
'Saidão de Natal' é frustrado e executivos como Marcelo Odebrecht vão passar as festas de fim de ano na cadeia(Vagner Rosário/VEJA.com)
Nos últimos dias, os advogados mais importantes do país lotam o plenário das sessões da 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) na expectativa de que o recém-empossado ministro Ribeiro Dantas, que assumiu a relatoria dos processos da Operação Lava Jato, convencesse os demais ministros de que existem argumentos capazes de interromper os quase cinco meses de cadeia de figurões como o presidente do Grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e de permitir que os executivos das maiores empreiteiras do país passem o Natal em casa. Na última semana, ouviram do próprio Dantas, ministro apadrinhado pelo presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), o diagnóstico de que as prisões no maior escândalo de corrupção do país representavam um "julgamento de exceção". Desde então, conforme revelou VEJA, cada ministro que julgaria os casos da Lava Jato passou a estar sob a maior pressão de suas carreiras, com ameaças de dossiês e promessas de boicotes em indicações.
O voto de Ribeiro Dantas, permeado por um rosário de críticas às decisões do juiz Sergio Moro, deu esperanças - ou a quase certeza - de que o STJ iria sucumbir e liberar em massa empreiteiros da Lava Jato presos desde junho. O entendimento do relator, contrário às evidências colhidas pela Força-tarefa da Lava Jato, era o de que personagens do escândalo do petrolão, como o próprio Odebrecht, poderiam ser colocados em liberdade por não haver risco de cometerem crimes e nem de continuarem a atuar no bilionário esquema de fraudes em licitações na Petrobras. Mas o esperado "saidão de Natal" dos empresários não se consolidou. E em boa medida por causa dos votos do ministro Félix Fischer.
Na sessão desta quinta, depois de Ribeiro Dantas ter votado pela liberdade do executivo Rogério Araújo, ligado à construtora Odebrecht, Fischer pediu vista e adiou a conclusão do processo que poderia levar à liberdade do empresário. A concessão do habeas corpus a Araújo era interpretada como a senha para que, na sequência, Marcelo Odebrecht também pudesse ir para casa. Os dois foram presos no mesmo dia, 19 de junho, por razões semelhantes: suspeitas de envolvimento no desembolso de propina a ex-dirigentes da Petrobras e fraude em contratos na estatal. O caso específico do presidente do Grupo Odebrecht não foi pautado hoje porque havia pedidos de vista feitos há mais tempo, como o relativo ao publicitário Ricardo Hoffmann, ligado ao deputado cassado e ex-petista André Vargas.
O destino de Marcelo Odebrecht pelas mãos do STJ deve ser analisado na próxima terça-feira, 15, mas agora com parcas chances de êxito. No caso de Rogério Araújo, apenas o relator Ribeiro Dantas votou por conceder a liberdade. Ainda que Dantas tenha afirmado com todas as letras que "inexiste elemento concreto a indicar a presença de risco de reprodução delitiva", a tendência é que os ministros da 5ª Turma atestem que Odebrecht deve continuar atrás das grades por ainda oferecer risco às investigações sobre o propinoduto que sangrou os cofres da Petrobras e pelo fato de o executivo, em liberdade, poder usar empresas da holding para camuflar indícios e provas do esquema de formação de cartel, fraude em licitações e corrupção de agentes públicos.
Um último argumento, já aventado pelo juiz Sergio Moro, pode reforçar por fim o entendimento de ministros do STJ favoráveis à manutenção da prisão do executivo: o de que o herdeiro do Grupo Odebrecht tem influência política e recursos suficientes para inibir novos flancos de investigação e potenciais delações premiadas.
A se repetir a larga maioria firmada hoje para manter presos o presidente da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo, o executivo Elton Negrão e o publicitário Ricardo Hoffmann, o Superior Tribunal de Justiça confirmará o que o próprio ministro Félix Fischer disse na tarde desta quinta-feira sobre o propinoduto da Operação Lava Jato: "Não são crimes comuns, são casos gravíssimos que deixam sociedade inteira perplexa. E crimes como esses da Lava Jato exigem firme atuação do Judiciário".
(Da Redação)

quarta-feira 09 2015

PMDB derruba líder anti-impeachment na Câmara


Situação do deputado fluminense se agravou quando ele decidiu colocar apenas parlamentares alinhados ao Planalto em comissão que analisará impedimento de Dilma

Deputado Leonrado Picciani PMDB/RJ
O deputado Leonrado Picciani (PMDB-RJ)(Beto Oliveira/Agência Câmara/VEJA)
Deputados dos PMDB protocolaram nesta quarta-feira pedido de destituição do líder do partido na Câmara, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), um dos principais parlamentares que trabalhavam contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
A ofensiva contra Picciani ganhou força depois de o político fluminense ter indicado apenas deputados pró-governo para a chapa oficial da comissão que dará parecer prévio sobre o pedido de afastamento da petista. A chapa oficial acabou derrotada ontem, por 272 votos a 199, abrindo caminho para que oposicionistas possam controlar a comissão do impeachment.
O documento que determina a substituição sumária do líder tem 35 assinaturas de dissidentes do PMDB, que agora vão aclamar o mineiro Leonardo Quintão como o novo responsável pela liderança da legenda. Ao todo, a bancada do partido tem 66 deputados: para derrubar ou aclamar um novo líder, é necessária maioria simples, ou seja, as assinaturas de metade da bancada mais um.
A escolha de Quintão se dá em cumprimento a um acordo selado pelo próprio Picciani no começo do ano. Ele contou com os votos da bancada mineira da sigla para eleger-se e, em troca, ofereceu apoio ao colega na eleição para a liderança no ano que vem - Quintão já era, portanto, o nome na fila para o lugar de Picciani. O deputado fluminense, contudo, planejava reeleger-se em 2016.
Leonardo Picciani se aproximou do Palácio do Planalto nas negociações da última reforma ministerial, quando conseguiu emplacar Marcelo Castro na pasta da Saúde e Celso Pansera na Ciência e Tecnologia. O peemedebista rompeu com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e, diante do enfraquecimento do correligionário, alvejado por denúncias de corrupção, buscava a reeleição para liderança da sigla e almejava ocupar a própria presidência da Casa.
O deputado fluminense foi eleito este ano para a liderança da bancada com apenas um voto de diferença para Lúcio Vieira Lima (BA) e sempre esteve longe de ser unanimidade na sigla. Vieira Lima é hoje um dos principais defensores no PMDB do impeachmente da presidente Dilma. Setores do partido criticavam Picciani por defender os interesses do PMDB do Rio em detrimento aos da banca - o que acentuou as divisões na legenda e contribuiu para isolá-lo. Picciani, contudo, travata a coleta de assinaturas para tirá-lo do cargo como um 'blefe' e imaginava que o movimento não reuniria mais de 20 nomes. O deputado pode ser recolocado no cargo se conseguir o número de assinaturas necessárias. Por isso, tenta articular agora a reversão desse processo.

terça-feira 08 2015

Eleição de comissão que analisará impeachment é adiada


Oposição articulou para que nomes indicados por partidos da base aliada não fossem apenas dos parlamentares contrários ao impedimento da presidente Dilma

Deputado Leonrado Picciani PMDB/RJ
O líder do PMDB, Leonardo Picciani: racha na bancada(Beto Oliveira/Agência Câmara/VEJA)
Uma manobra de parlamentares da oposição, com aval do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), postergou nesta segunda-feira a eleição da comissão especial que analisará o pedido de impeachment contra a presidente da República, Dilma Rousseff. O adiamento ocorreu no mesmo dia em que Dilma anunciou querer que o Congresso decida sobre o impeachment "o mais rápido possível" e propôs a suspensão do recesso parlamentar em janeiro.
A indicação e a escolha da chapa com 65 deputados seria realizada nesta segunda-feira às 18 horas, mas ficou para terça depois de opositores articularem a eleição de uma chapa alternativa. A intenção é evitar que líderes dos partidos da base governista que têm deputados com posições divergentes indiquem apenas integrantes alinhados ao Palácio do Planalto para barrar o processo. O primeiro racha foi na bancada do PMDB, depois de o líder Leonardo Picciani (RJ), defensor declarado de Dilma, sinalizar que não reservaria vagas para deputados pró-impeachment.
"Não temos quórum na Casa e em qualquer circunstância não se conseguiria fazer a eleição. Tínhamos 185 parlamentares. De qualquer maneira seria adiado", disse Cunha. O presidente da Câmara negou que a decisão tenha objetivo de protelar a instalação da comissão e ressaltou que o adiamento tem o intuito de evitar questionamentos no Supremo Tribunal Federal por parte de deputados que queiram disputar vagas na comissão: "Agora tem duas chapas, mas pode haver outras. Não posso impedir o direito de um parlamentar de querer fazer parte e disputar o voto no plenário. Preferiria que isso não tivesse acontecido. Se isso está acontecendo, é porque dentro dos partidos está havendo dissidências. A bancada do meu partido, do PMDB, indicou oito titulares e oito suplentes em avulso".
A indicação dos nomes e a escolha dos integrantes da comissão deverão ocorrer às 14 horas desta terça-feira, o que pode esvaziar também a sessão do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar programada para votar, no mesmo horário, o relatório preliminar do processo contra Cunha. Ele negou uma tentativa de interferir no funcionamento do colegiado e disse que a indicação dos parlamentares só deve ocorrer de fato a partir das 17h30. "Não há qualquer intuito de impedir o Conselho de Ética. Ele [presidente do conselho, José Carlos Araújo] foi quem marcou a reunião no mesmo horário da sessão. Poderia ter marcado de manhã", disse o peemedebista.
Aliados de Cunha, como o deputado Paulinho da Força (SD-SP), retiraram as indicações que já haviam sido feitas e vão apresentar nomes apenas na chapa paralela, nesta terça. Cunha disse que já tinha recebido oficialmente 29 nomes, que poderão ser alterados até as 14h de terça.
Para concorrer, as chapas têm de ter metade mais um dos membros da comissão, ou seja, 33 integrantes. As chapas podem ser inscritas na eleição pelas bancadas divergentes ou pelos líderes partidários. Se uma chapa for eleita incompleta, os partidos que não tiverem indicado membros farão eleições suplementares dentro de cada bancada para ocupar as cadeiras, que continuam reservadas proporcionalmente ao tamanho de cada partido na Câmara.
"Está permitida uma briga interna de cada bancada", disse Sibá Machado (AC), líder do PT. "É inaceitável. Eu abandonei a reunião de líderes. Está tudo contaminado. Nós temos uma única chapa. Essa história de chapa avulsa tem o dedo dos tucanos para criar problema."
"O governo desejava sufocar a oposição e iniciou um movimento de amedrontar as forças que desejam o impeachment. O nosso objetivo é desmontar essa equação construída pelo governo de controlar a comissão", disse o líder do DEM, deputado Mendonça Filho (PE). Ele acrescentou que o Planalto "manobrou ao tentar construir uma chapa branca" no colegiado.
Para o líder do PMDB, a decisão desta tarde indica um começo "ruim" e "grave" na análise do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Picciani alertou que a manobra articulada por Cunha e deputados de oposição pode permitir que a comissão fique indefinidamente sem instalação - medida que atingiria justamente o objetivo de protelar a ação e deixar a presidente enfraquecida por mais tempo. "Deveria se prezar pela estabilidade das decisões do colégio de líderes para que a comissão pudesse legitimamente se instalar e iniciar esse debate", afirmou o peemedebista.
Picciani é o principal alvo da estratégia adotada nesta tarde, já que está reticente em indicar nomes pró-impeachment. Peemedebistas da ala mais rebelde chegaram a articular a destituição do líder, mas, de acordo com Picciani, a medida não vingou. "Eu continuarei líder prezando pela estabilidade e pelo bom senso", afirmou.
O líder do governo, deputado José Guimarães (PT-CE), disse que a decisão de Cunha foi individual e disse que pode recorrer à Justiça: "O presidente [Cunha] decidiu unilateralmente, a maioria dos líderes foi contra. Vamos avaliar que medidas jurídicas tomaremos. O país não pode ficar nesse jogo baixo".
"Essa acusação é absolutamente injusta. Se votasse hoje a chapa indicada pelos líderes corre risco, porque eles não estavam mobilizados para enfrentar uma votação", rebateu Cunha.

segunda-feira 07 2015

"O PT é vítima do seu próprio ódio"

Leandro Karnal

"O PT é vítima do seu próprio ódio"
Um dos mais respeitados intelectuais brasileiros explica por que os casos de intolerância política, religiosa, de gênero e racial se tornaram tão frequentes em nossa sociedade
por Paula Rocha (paularocha@istoe.com.br)
O historiador brasileiro Leandro Karnal, 52 anos, é uma das vozes mais lúcidas e interessantes do meio acadêmico no País. Natural de São Leopoldo (RS), se formou em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em sua cidade natal, antes de mudar para São Paulo, onde concluiu doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). 

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CRÍTICA
'Religião é ao mesmo tempo alvo e fonte de preconceito'

Atual professor de História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele soma mais de 30 anos de docência e coleciona palestras e apresentações pelo mundo, onde discorre sobre temas como o ódio e a história das religiões.

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'A política brasileira hoje vive de agendas dependentes. O deputado Jean Wyllys 
depende do deputado Jair Bolsonaro, e vice-versa, porque o discurso 
de um é determinado pelo discurso do outro'
Nesta conversa com ISTOÉ, Karnal, que é autor de cinco livros, o mais recente deles “Pecar e Perdoar: Deus e Homem na História” (Editora Nova Fronteira), fala de maneira direta sobre a natureza passional do brasileiro, nosso histórico de violência e sobre recentes casos de intolerância religiosa, política e de gênero no País e no mundo. 

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'A Síria é o panorama radical da ausência de diálogo e da vitória da intolerância'
No livro“Raízes do Brasil”, de 1936, Sérgio Buarque de Holanda criou a metáfora do brasileiro como homem cordial. O que ele quis dizer com isso?
LEANDRO KARNAL -
 O homem cordial não é um homem pacífico, mas apaixonado. A intolerância é uma marca histórica do brasileiro. Matamos por identidade e por oposição de identidade. O que Sérgio Buarque desenvolveu foi a ideia do brasileiro cordial não no sentindo de ser bonzinho, mas no sentido de pensar com o coração, ou melhor, de ser passional. Ele estava dizendo que quando nós ajudamos ou matamos alguém, quando trucidamos ou somos caridosos, estamos sendo cordiais e não racionais. A nossa passionalidade nos faz ajudar a um desconhecido, coisa que não acontece com tanta frequência na Europa, por exemplo. Mas também nos leva a linchar bandidos. A passionalidade vale para o bem e para o mal. 
 Como essa passionalidade marca a história do Brasil e nossa identidade como brasileiros?
LEANDRO KARNAL -
 A história do Brasil é uma história violenta, ao contrário do que nos ensinaram na escola. Nós somos um país com um histórico de estupros, linchamentos e ataques variados. Nós vivemos em um país que hoje tem clima social de guerra civil, mas nenhum livro de História trata da história do Brasil como guerra civil. Nós sempre demos outros nomes, como revolta, revolução, etc. Mas nós já vivemos dezenas de guerras civis. Só que nunca usamos essa palavra que argentinos, colombianos e americanos usam. É difícil para o brasileiro admitir isso. Nós construímos a fantasia do brasileiro como povo cordial, no sentido de povo gentil. Nós temos mais horror à nossa imagem de violência do que à violência em si. E a violência acontece todos os dias. É a violência dos evangélicos contra os praticantes de religiões afro, do homem contra a mulher, do motorista contra o ciclista. Todos são alvo de violência sistemática. Os números de morte no trânsito no Brasil são de fazer inveja a muita guerra. E, aparentemente, essa violência não nos choca.
 Durante as eleições presidenciais de 2014, o ódio político se intensificou no Brasil e essa polarização continua sendo demonstrada nas redes sociais. Como explicar essa exacerbação?
LEANDRO KARNAL -
 Houve três momentos de forte polarização política na história do Brasil. Entre 1935, com a Intentona Comunista, e 1938, com a Intentona Integralista; em 1964 com o Golpe Militar e agora. A diferença é que, se antes a política era restrita a partidos ou a alguns movimentos, hoje ela está democratizada no sentido numérico. A polarização política está na internet. E isso possibilita que esse ódio transborde do debate político para o ataque a pessoas identificadas como inimigos políticos. Não há ninguém inocente. No passado, o PT polarizou o ódio, ora contra Sarney, ora contra o PSDB. E, assim como o Dr. Frankenstein sofre o ataque de sua criatura, agora esse sentimento se volta contra o PT. O PT é vítima do seu próprio ódio. Além disso, a política brasileira hoje vive de agendas dependentes. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) depende do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), e vice-versa, porque o discurso de um é determinado pelo discurso do outro. E personalidades que pregam o ódio se destacam mais. 

 A internet também se tornou palco para ataques recentes aos movimentos feministas que ganharam as ruas há cerca de um mês. Por que a luta feminina gera tanta força contrária?
LEANDRO KARNAL -
 O macho está se sentindo cercado. Nós chegamos ao absurdo de fazer uma celeuma nacional por conta de um texto de 1949 de Simone de Beauvoir. A tradição da misoginia é certamente a mais sólida de todas as tradições preconceituosas do planeta. A misoginia é o preconceito mais antigo, estruturado e danoso de todos. E é possível que outros preconceitos históricos, como a homofobia, sejam filhos da misoginia. Gays mais femininos são mais atacados porque no fundo o que se ataca é a mulher, como se a mulher fosse um mal. As religiões reforçam essa ideia, ao dizer que o mal veio da mulher, de Eva. Porém, esse ataque, do ponto de vista psicanalítico, possivelmente é recalque de homens que durante parte da vida foram controlados por mulheres, como quase todos nós fomos criados e controlados por uma mulher na infância. Os homens têm muito medo das mulheres. Violência, estupro e assédio fazem parte de um compromisso do homem para matar esse medo. O ataque a homossexuais e a mulheres, realizado dominantemente por homens, é um sinal de que hoje o grupo mais assustado da sociedade são os homens. Porque o espaço tradicional da identidade do homem está sendo fechado. O preconceito é sempre filho do medo. É sempre fruto da minha covardia, sempre um diálogo com minha fraqueza. Um homem preconceituoso que agride mulheres é alguém com uma profunda e temerosa identidade de pavor, porque ele não sabe quem é nem onde se insere. O seu ataque e a sua ignorância são um grito de medo. A violência contra a mulher é histórica e cultural e deve aumentar à medida que a consciência feminina trouxer essa questão cada vez mais à tona para debate. Ela deve aumentar exatamente porque as mulheres, com toda razão e muita dignidade, estão enterrando um período histórico de aceitação da violência, estão enterrando séculos de tolerância ao assédio, séculos de ocultação da violência doméstica. Nós temos dias muito promissores pela frente. Mas temos também violência. 
 Este ano também foi marcado por episódios de intolerância religiosa no Brasil, com vários relatos de ataques a praticantes de religiões afro principalmente. 
LEANDRO KARNAL -
 Estamos presenciando a ascensão de uma competitividade religiosa, por conta de uma mudança de composição. O bloco católico está perdendo hegemonia, enquanto o evangélico cresce. Por isso, a identidade religiosa e o sentimento de pertencimento religioso estão mais fortes na sociedade brasileira agora. E em lugares que têm essa identidade religiosa muito forte, como por exemplo, Israel e Palestina, a violência é constante. A identidade religiosa do brasileiro era mais fluida. Hoje nós estamos vendo, inclusive, um aumento do controle político por parte de determinadas religiões. A religião seca lágrimas e a ciência não, por isso é muito difícil não apelar para a religião. Mas a religião é ao mesmo tempo alvo e fonte de preconceito. A religião elimina o “eu”. Religiões transformam tudo em virtude, inclusive o ódio. 
 É possível combater a intolerância?
LEANDRO KARNAL -
 O combate à intolerância se dá através da educação e da coerção pela lei. A lei não eliminou o racismo, mas foi um passo importante. Talvez seja a hora de criminalizar a homofobia e os crimes de intolerância religiosa. 
 Os ataques recentes do grupo Estado Islâmico em Paris expuseram o mundo a uma nova ameaça de terrorismo gerado pelo extremismo religioso. Como entender essa tragédia?
LEANDRO KARNAL -
 Os atentados em Paris são um exemplo do preconceito que se transforma em violência. O radicalismo armado com base religiosa é o pior tipo de radicalismo que existe. Ele transforma a violência em virtude, garante o paraíso a assassinos e santifica a imbecilidade como estratégia. Transmutar o mal num bem supremo e desejável é o silogismo mais danoso às sociedades. Hoje a intolerância que está na moda é o fundamentalismo religioso. Ele é um guarda-chuva amplo sob o qual divergências políticas, atritos sociais e disputas pelo poder são santificados em nome de um deus. Quando há mistura de intolerância religiosa com intolerância política, o resultado extremo pode ser verificado na Síria. Dividida entre a ditadura, rebeldes armados e o Estado Islâmico, o país vive um colapso absoluto. Sua população está se jogando ao mar. A Síria é o panorama radical da ausência de diálogo e da vitória da intolerância.  
As ações do Estado Islâmico são caracterizadas por uma violência extrema. Qual é o propósito dessa violência para a consolidação da imagem do grupo terrorista?
LEANDRO KARNAL -
 Para o Estado Islâmico, a morte é uma estética, uma pul­são desejável e atrativa, uma quebra do tédio e da mediocridade do cotidiano. Ela dá ao indivíduo fracassado e pequeno uma dimensão épica. O terrorista, ou o radical, seja ele católico dos antigos ETA e IRA, seja ele o estereotipado fundamentalista muçulmano, sempre verá no diá­logo uma fraqueza. 

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Os números avassaladores da Lava Jato


O Estadão reproduz balanço elaborado pela Justiça Federal em Curitiba sobre o inacreditável alcance das investigações da Lava Jato. Até agora, o juiz Sérgio Moro proferiu 14 sentenças e condenou 57 pessoas com penas que somam 680 anos, 8 meses e 25 dias.
Os crimes denunciados até agora envolveram o pagamento de R$ 6,4 bilhões em propinas. Desse total, R$ 1,8 bilhão já foram recuperados via acordos de delação premiada. Renato Duque e Pedro Corrêa pegaram as maiores condenações: 20 anos, cada um. João Vaccari Neto pegou 15 anos.
Falta o Brahma.
Vejam a lista dos condenados: Adir Assad, Agenor Franklin Magalhães Medeiros, Alberto Elisio Vilaca Gomes, Alberto Youssef, André Catão de Miranda, André Luiz Vargas Ilario, Antônio Carlos Brasil Fioravante Pieruccini, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, Carlos Alberto Pereira da Costa, Carlos Habib Chater, Cleverson Coelho de Oliveira, Dalton dos Santos Avancini, Dario de Queiroz Galvão Filho, Dario Teixeira Alves Júnior, Ediel Viana da Silva, Eduardo Hermelino Leite, Enivaldo Quadrado, Erton Medeiros Fonseca, Esdra de Arantes Ferreira, Faiçal Mohamed Nacirdine, Fernando Antônio Falcão Soares, Fernando Augusto Stremel Andrade, Iara Galdino da Silva, Ivan Veron Gomes Torres Júnior, Jayme Alves de Oliveira Filho, Jean Alberto Luscher Castro, João Luiz Correia Argolo dos Santos, João Procópio Junqueira Pacheco de Almeida Prado, João Ricardo Auler, João Vaccari Neto, José Aldemário Pinheiro Filho, José Ricardo Nogueira Breghirolli, Juliana Cordeiro de Moura, Julio Gerin de Almeida Camargo, Leandro Meirelles, Leon Denis Vargas Ilario, Leonardo Meirelles, Luccas Pace Júnior, Marcio Andrade Bonilho, Maria Dirce Penasso, Mario Frederico Mendonça Goes, Matheus Coutinho de Sá Oliveira, Nelma Mitsue Penasso Kodama, Nestor Cunat Cerveró, Paulo Roberto Costa, Pedro Argese Júnior, Pedro da Silva Correa de Oliveira Andrade Neto, Pedro José Barusco Filho, Rafael Ângulo Lopes, Renato de Souza Duque, Renê Luiz Pereira, Ricardo Hoffmann, Rinaldo Gonçalves de Carvalho, Rogério Cunha de Oliveira, Sérgio Cunha Mendes, Sonia Mariza Branco, Waldomiro Oliveira.

Perdeu, Maduro! Venezuela já mudou! Falta o Brasil!



Oposição conquista 99 assentos do Parlamento contra 46 do PSUV

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A América Latina respira.
Duas semanas após a vitória presidencial do opositor Mauricio Macri na Argentina, a oposição venezuelana venceu de lavada as eleições parlamentares neste domingo.
A Mesa da Unidade Democrática (MUD) conquistou 99 assentos da Assembleia Nacional contra 46 do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).
Apesar da tentativa de seu braço-direito Diosdado Cabello de prorrogar o horário da votação (até que o resultado, quem sabe, fosse favorável ao governo), Nicolás Maduro foi obrigado a reconhecer a derrota do chavismo, afetando o espírito democrático que nunca teve:
— Vendo esses resultados, viemos com a nossa moral, nossa ética, reconhecer estes resultados adversos, aceitá-los e dizer à nossa Venezuela que triunfou a Constituição e a democracia. Venceu uma contrarrevolução, que impôs seu cenário, sua guerra.
A deputada opositora Maria Corina Machado celebrou a vitória cantando Gloria al Bravo Pueblo (Glória ao Bravo Povo), adotado como o hino nacional em 1881.
Lilian Tintori, mulher do preso político Leopoldo López, citou o marido:
— Neste momento, relembro as palavras de Leopoldo, “essas algemas, quem vai me tirar é o povo da Venezuela”. Liberdade!
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O opositor Henrique Capriles também comemorou:
— Os resultados são os esperados! A Venezuela venceu! Irreversível! Com muita humildade, serenidade, maturidade, assumamos o que o povo decidiu!
Motivos, claro, não faltaram para que os venezuelanos tenham decidido pela mudança.
O editor Diogo Schelp, de VEJA, gravou um vídeo bastante ilustrativo, de dentro de um supermercado, para mostrar como é um sábado “normal” no país arrasado pelos comparsas do PT no Foro de São Paulo.
Depois da libertação da Argentina e da Venezuela, melhor o Brasil se libertar de Dilma Rousseff antes que acabe assim.