quarta-feira 24 2012

Aspirina pode diminuir perda de capacidade mental entre idosos


Medicamentos

Cientistas de universidade na Suécia medicaram 129 mulheres, entre 70 e 92 anos, com ácido acetilsalicílico para a prevenção de doenças cardíacas. O medicamento também ajudou a proteger o cérebro

Aspirina medicamento
Estudo com mulheres idosas mostra que dose diária de aspirina pode reduzir a perda de capacidade mental (Dynamic Graphics)
Um estudo sueco publicado no British Medical Journal Open sugere que uma dose diária de um quarto de aspirina pode reduzir o declínio da capacidade mental de pessoas idosas com riscos cardiovasculares. Para chegar ao resultado, pesquisadores da Universidade de Gotemburgo observaram alterações na capacidade intelectual de 681 mulheres idosas com risco elevado de sofrer de ataque cardíaco, espasmos vasculares ou derrame. As pessoas que participaram da avaliação têm entre 70 e 92 anos.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Does low-dose acetylsalicylic acid prevent cognitive decline in women with high cardiovascular risk? A 5-year follow-up of a non-demented population-based cohort of Swedish elderly women

Onde foi divulgada: British Medical Journal Open

Quem fez: Silke Kern, Ingmar Skoog, Svante Östling, Jürgen Kern, Anne Börjesson-Hanson

Instituição: Universidade de Gotemburgo, Suécia

Dados de amostragem: 681 mulheres entre 70 e 92 anos

Resultado: A pesquisa sugere que, além de ser utilizada para a prevenção de doenças cardíacas, uma pequena dose diária de aspirina também pode diminuir a perda de capacidade mental numa população idosa.
Uma dose diária de ácido acetilsalicílico (aspirina) foi dada a 129 das 681 mulheres que participaram da pesquisa para a prevenção de doenças cardíacas. Segundo o estudo, é comum em muitos países tratar pessoas com risco de desenvolver doenças cardíacas com uma pequena dose diária de ácido acetilsalicílico. Só que a medicação também revelou ter amenizado a perda de funções mentais nas pacientes que tomaram aspirina.
"Ao final de cinco anos de exames periódicos, a capacidade mental tinha diminuído entre todas as mulheres e a parcela que sofreu de demência foi igualmente alta em todo o grupo. Só que o declínio da capacidade mental ocorreu de forma mais lenta e amena entre as que receberam ácido acetilsalicílico", diz Silke Kern, pesquisadora da Sahlgrenska Academy, da Universidade de Gotemburgo. Para medir a capacidade mental das mulheres, foram realizados testes de memória e de linguagem, ao longo dos cinco anos de duração da pesquisa.






Apesar dos resultados, Silke Kern ressalta que o estudo é observacional e que mais testes são necessários para confirmar o efeito da aspirina sobre a capacidade mental. "Os resultados indicam que o ácido acetilsalicílico pode proteger o cérebro, pelo menos em mulheres com alto risco de ataque cardíaco ou de derrame", diz Kern. "No entanto, não sabemos os efeitos a longo prazo no caso de um tratamento de rotina e certamente não queremos encorajar a automedicação de idosos com aspirina", conclui. 
Agora, a equipe de Gotemburgo dará início a um acompanhamento de mais cinco anos, com as mesmas mulheres.

Saiba mais

DEMÊNCIA
Demência é a diminuição, lenta e progressiva, da função mental. Ela afeta sobretudo pessoas com mais de 65 anos de idade (entre 6% e 8% desse grupo). Mais de 30% das pessoas com idade superior a 85 anos pode sofrer de demência.

O julgamento do mensalão mal começou. Agora tem início a disputa pela história. Ou: Os petistas não aprendem nada nem esquecem nada!


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Não pensem que o julgamento do mensalão acabou. Sob certo ponto de vista, ele mal começou. Depois do maiúsculo trabalho feito pelo Supremo Tribunal Federal — que deu aos crimes os nomes que, durante um bom tempo, as oposições se negaram a dar —, resta agora o que chamarei de disputa pela narrativa histórica, que não coincide necessariamente com os fatos, sobejamente relatados e provados pela Procuradoria-Geral da República, com o endosso da maioria dos ministros. Depois de examinar severamente as provas, o resultado é o que se viu: gestão fraudulenta, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, formação de quadrilha… A soma de horrores tinha um propósito, como também restou cristalino: executar um projeto de poder que buscava — busca ainda — tornar inermes as instâncias da República. O que o Supremo fez foi punir a extrema ousadia. Depois disso, aquela gente se tornou um pouco mais prudente, mas não quer dizer que tenha mudado de propósitos. Para os petistas, gosto de lembrar a frase de Talleyrand ao definir os Bourbons: “Não aprenderam; não esqueceram nada!”. Quem vai se apossar dessa narrativa?
Na academia, alguns poucos aos quais restou, intocada, a honestidade intelectual buscarão relatar a história. Uma grande maioria certamente se calará porque os fatos, afinal, não obedeceram aos desígnios do “Partido”, o ente de Razão que escolheram como senhor da história, numa evidência de sua mediocridade intelectual, de sua fraqueza moral e de sua baixeza ética. É preciso, é evidente, que os políticos de oposição se encarreguem de transformar a evidência dos fatos numa herança histórica a ser lembrada pelas gerações futuras. Até porque estamos falando de um mal de muitas cabeças. Não pensem que o petismo vai se conformar com o veredicto do Supremo. Muito pelo contrário: tentará usar a condenação para partir para o ataque.
Não me refiro às muitas notas disparadas pela Executiva do PT, por José Dirceu ou por José Genoino. Não me refiro às tolices do stalinismo bolorento de Marilena Chaui, que segue a trajetória inversa à dos bons vinhos. Refiro-me aqui a outra coisa. Os petistas tentarão se vingar institucionalmente. E já emitem sinais nesse sentido, com o que terão de tomar cuidado também os partidos da base aliada.
No domingo, em entrevista ao Estadão, quando posou uma vez mais de herói, José Genoino defendeu, do nada, o financiamento público de campanha, no bojo de uma “reforma política profunda”… Por que um partido que exerce o terceiro mandato consecutivo segundo as regras que aí estão, que se constituiu, na sua vigência, como uma das maiores legendas do país, quer mudar “profundamente” as regras do jogo? A resposta é uma só: para se eternizar no poder. Ora, o financiamento público, se fosse instituído, teria de obedecer a algum critério, como a distribuição dos recursos segundo a atual bancada dos partidos, por exemplo, o que daria ao PT uma enorme vantagem. Imaginem vocês: os petistas querem fazer uma “reforma política profunda”, que terá como fundamento o atual tamanho das bancadas, quando os partidos de oposição vivem o seu pior momento. E não está de olho só nisso, não! Também vê com desconfiança o crescimento de alguns aliados. Antes que o mal cresça, pretende lhe cortar a cabeça.
Tentará ainda mecanismos para controlar a imprensa e, como já anunciaram alguns representantes do partido, o próprio Poder Judiciário. É pouco provável que consiga realizar esses intentos. Todas as iniciativas, no entanto, constituem esse esforço de ser o senhor da narrativa.
O mensalão por outros meiosCumpre ter muito claro uma coisa: essa gente não tem limites e não reconhece os valores que orientam uma democracia e uma República. Nem a própria imprensa, com raras exceções, vocês já sabem disso, se dá conta das barbaridades que são cotidianamente ditas e cometidas. No fim de semana, em Santo André e Mauá, Lula disse, com todas as letras, na presença de ministros de estado, que vai atuar junto à presidente Dilma para que não faltem recursos a cidades cujos prefeitos sejam petistas. E isso passa como coisa normal. A própria presidente sugeriu, em Salvador, que a eleição de um candidato do PT facilita o trabalho com o governo federal.
Isso tudo é um acinte. Essa é, provavelmente, a forma mais escancarada de uso da máquina pública de que se tem notícia. Não deixa de ser uma espécie de mensalão, executado por outros meios. Trata-se de deixar claro aos eleitores que o estado foi capturado e que fazem dele o que lhes der na telha: havendo um prefeito aliado, chegará dinheiro; não havendo, então não!
Por que se constituiu a quadrilha do mensalão? Porque os petistas não reconhecem os fundamentos de uma República democrática, que prevê a alternância de poder se for essa a vontade do povo. Não para eles. Poder conquistado é poder acumulado, e não se concebe que outro lhes tome o lugar. Por isso buscaram fraudar as regras do jogo com aquela cadeia de crimes; por isso voltam a falar em reforma política e financiamento público de campanha; por isso ficam a fazer chantagem sobre os palanques.
Os partidos de oposição têm de denunciar toda essa gente ao Tribunal Superior Eleitoral, sempre tão célere em censurar meras mensagens de propaganda. Quero ver é um TSE que coíba o uso da máquina pública e o abuso do poder econômico nas eleições. O PT recebeu um baita golpe moral. Por isso mesmo, está mais perigoso do que nunca!
Texto publicado originalmente às 5h19
Por Reinaldo Azevedo
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-julgamento-do-mensalao-mal-comecou-agora-comeca-a-disputa-pela-historia-ou-os-petistas-nao-aprendem-nada-nem-esquecem-nada/

Ministros que absolveram não decidirão penas dos culpados


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Embora tenha proferido 61 sentenças de absolvição no julgamento do mensalão, o ministro José Antonio Dias Toffoli defendeu nesta terça-feira seu direito de participar da fixação das penas de todos os condenados no maior escândalo político do governo Lula. Segundo o ministro que mais absolveu réus do mensalão – só fica atrás do revisor, Ricardo Lewandowski -, Toffoli quis participar até da definição das sanções a serem impostas ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e à dupla petista José Genoino e Delúbio Soares.
Ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), o juiz disse que o julgamento do mensalão está sendo feito por um órgão colegiado, razão que, por si só, garantiria que todos participassem de todas as etapas da discussão, inclusive na dosimetria das penas. Seus argumentos sobre a possibilidade de o ministro que absolveu réus já condenados definir a pena desses mesmos réus foram seguidos pelos ministros Gilmar Mendes e Carlos Ayres Britto.
Para o presidente do STF, a participação de quem absolveu na definição das penas seria favorável ao condenado, porque permitiria um “viés de baixa” ou a sugestão de uma pena menor por parte daquele ministro que havia absolvido o denunciado. “Seria o equilíbrio e a equidistância (na definição das penas)”, disse. A posição dos três ministros, no entanto, foi derrotada com o voto de outros sete magistrados.
O ministro revisor, Ricardo Lewandowski, por exemplo, questionou a lógica de alguém que não considere o réu culpado impor a esse réu uma sanção pelo crime. “Se o juiz acha que não houve crime, como vai se pronunciar sobre antecedentes, personalidade do agente, comportamento da vítima e depois estabelecer penas que confirmem a reprovação e prevenção do crime?”, indagou.
(Laryssa Borges, de Brasília)

terça-feira 23 2012

Quatro passos do tratamento de usuários de crack


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Internação

A fase inicial é de desintoxicação, e se estende pelos primeiros 15 dias. Como o paciente não tem controle nem noção dos prejuízos causados pela droga, o tratamento resume-se a medicamentos para reduzir as crises de abstinência e a ansiedade. O dependente volta a ter horário para dormir e vontade de comer.
E aí surge outra explicação para os efeitos pífios das políticas públicas contra o crack até o momento: na rede pública de saúde do estado do Rio o atendimento é apenas ambulatorial. Ou seja, o paciente chega, recebe os cuidados médicos e sai quando quer, sem receber o acompanhamento psiquiátrico necessário para reduzir as chances de, novamente, buscar a droga.
Para todo o estado do Rio, havia, antes do fim do contrato com as duas clínicas de dependência química para adultos, 180 vagas para internação disponíveis para todo tipo substância. O total de usuários de crack só na capital é um chute: seriam 3.000 os viciados, entre adultos e crianças. Apesar de o total de vagas no estado ser ínfimo, não chega a haver superlotação. Afinal, o dependente de crack raramente busca tratamento.
A chegada do crack à classe média, no entanto, já cria uma fila para tratamento na rede particular. Pela primeira vez em 20 anos, a Clínica Jorge Jaber, que tem capacidade para receber 70 pacientes, tem fila de espera. “O crack não é mais droga de pobre. Recebo com frequência pacientes de classe média que já foram retirados por suas famílias das ruas, de cracolândias. É muito triste. Essa turma do crack se vende por qualquer coisa, é um negócio deprimente", afirma.
“Geralmente o usuário da classe média que se vicia em crack já usou maconha, álcool ou cocaína sem ficar dependente de imediato. Então acredita que tem um domínio e experimenta. Mas um fim de semana já é suficiente para se viciar”, diz, acrescentando que 30% dos que concluem o tratamento internado pela primeira vez não têm recaídas nos seis meses posteriores. Na cocaína, o índice é de 66% a 72% em 1 ano e 8 meses após a alta da clínica. 
O médico alerta que o tratamento é para sempre. "O perigo é para sempre. É como nascer. Depois que caímos no mundo estamos condenados a viver nele. A única hipótese que nos tira do mundo é a que não queremos, a morte".

Acompanhamento psicológico

Após as duas semanas iniciais, o paciente começa a achar que pode parar de usar a droga sozinho. Mas ele ainda não tem defesas mentais para dizer 'não' ao crack.  Por isso, a continuidade do tratamento é voltada para o acompanhamento psicológico. A medicação é reduzida e o dependente começa a praticar atividades físicas. É como se a pessoa estivesse cursando um intensivo para passar no vestibular da abstinência.

Terapia

O paciente alta da clínica ao fim de 105 dias (três meses e meio), o que não significa que o paciente esteja curado. Para evitar recaídas, ele deve fazer terapia - tanto individual quanto em grupo, dividindo assim suas angústias com outras pessoas que também lutam contra a dependência.

Vigilância eterna e apoio
Todo o modo de vida do paciente precisa mudar após a parte mais intensiva do tratamento, e ele precisa entender que a vigilância para evitar recaídas nunca cessará. Mas não depende apenas dele - a família e as pessoas mais próximas têm papel fundamental neste apoio. É primordial também mudar as companhias e cortar relações com antigos parceiros da droga.



Tratar dependente de crack sem internação é impossível


Drogas

Clínicas particulares consideram 105 dias de internação o mínimo necessário para o primeiro ciclo contra a dependência química. Na rede pública estadual do Rio, atendimento é apenas ambulatorial

Pâmela Oliveira e Cecília Ritto
Jovem é conduzido para abrigo após mais uma operação de combate ao crack, no Rio
Jovem é conduzido para abrigo após mais uma operação de combate ao crack, no Rio (Divulgação / SMAS)
“É difícil manter o paciente em tratamento ambulatorial. O paciente simplesmente não vai ao tratamento. A única forma de tratar o vício do crack é com a internação”, diz Jaber
Entre os muitos caminhos possíveis para combater o crescimento devastador do crack nas cidades brasileiras, pelo menos dois são inescapáveis: é preciso combater o tráfico e os pontos de venda; e é preciso tratar urgentemente os dependentes químicos, grande parte desse grupo formada por menores de idade oriundos de famílias pobres. Em relação ao crack, nada é simples ou barato. E no momento, no Rio de Janeiro, o descompasso entre essas duas ações torna os esforços quase nulos. Como o site de VEJA mostrou ao longo da última semana, o governo do estado empenhou recursos na ocupação da área onde se formou a maior cracolândia do estado, próxima das favelas de Manguinhos e do Jacarezinho. Já no dia seguinte à ocupação, os usuários, mesmo aqueles recolhidos pelas equipes de assistência social, reapareceram nos arredores de outros pontos de venda da droga. Não há como ser diferente: as duas únicas clínicas do estado estavam fechadas, e não há, por enquanto, onde tratar os adultos em situação de dependência.
Sem possibilidade de manter a internação, pacientes interromperam o tratamento. Como os contratos com o estado estavam vencidos, dependentes em recuperação simplesmente receberam alta e voltaram para a rua. A promessa do governo estadual era de, nesta segunda-feira, estabelecer novos contratos com  três clínicas, que juntas ofereceriam 150 vagas.
Como toda medida anunciada sem que se tenha de fato a solução para o problema, a retomada do funcionamento das clínicas não aconteceu. O governo do estado informou que “começará a capacitar” esta semana a equipe que atenderá os dependentes nas clínicas de Santa Cruz e de Campo Grande, bairros da zona oeste do Rio, e da cidade de Casemiro de Abreu. Para quem não conhece o eufemismo das versões oficiais, a mensagem é a seguinte: atualmente não existe tratamento adequado. O governo do estado explica que está em curso uma "reestruturação" do estado para o combate aos usuários de drogas, para iniciar o novo tratamento já na próxima semana. Ou seja: em uma semana o governo do estado considera ser capaz de preparar gente para lidar com dependentes da mais mortal das drogas.
O plano do governo do estado para os dependentes químicos é o seguinte: os usuários que por ventura buscarem tratamento devem procurar um dos Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, os Caps AD. Nesses locais é possível retirar medicamentos e receber tratamento apenas ambulatorial – o dependente químico pode passar o dia em um Caps, mas não há internação ou pernoite. O trabalho dos psicólogos é criar um vínculo com o paciente para estimular o retorno dele. “Não é punição ou recolhimento”, reforça Fernanda San Martin, coordenadora do Observatório Estadual de Gestão e Informação Sobre Drogas do governo do Rio. A equipe desses centros poderá encaminhar os pacientes para outro estágio do tratamento, no Centro de Atendimento Regionalizado para Situação de Álcool e Outras Drogas, estrutura ainda a ser criada, atrelada às secretarias de Assistência Social e Saúde.

Nos centros regionais, quando inaugurados, os dependentes passarão por avaliação médica e entrevistas com equipe multidisciplinar. As portas continuarão abertas para que os usuários saiam quando quiserem. “Todas as clínicas do estado estão abertas. Os lugares devem garantir a liberdade”, diz Fernanda, na contramão do que as clínicas particulares têm feito para conseguir tratar esse tipo de paciente.
Mesmo em condições ideais o tratamento do crack é um caminho tortuoso e dificílimo para paciente, famílias e profissionais envolvidos. Responsável por uma clínica na zona oeste do Rio onde há permanentemente cerca de 50 dependentes em tratamento para se livrar da droga, o médico Jorge Jaber compara o comportamento do usuário de crack ao de um animal em busca de alimento. “O dependente do crack ouve, mas não escuta. Vê, mas não enxerga. O mecanismo de atenção está totalmente voltado para obter a substância. Da mesma forma que um animal faminto, que só enxerga a comida, a única coisa que o usuário enxerga é o crack”, afirma Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas. 
A clínica coordenada por Jaber recebe majoritariamente clientes de planos de saúde. Em clínicas particulares, o custo para o ciclo de tratamento de 105 dias chega a 25 mil reais. Este período inicial, ressalta Jaber, é o mínimo para assegurar o início da recuperação. E ainda assim as chances de sucesso na primeira internação são pequenas: só 30% dos dependentes que recebem tratamento apenas uma vez conseguem não voltar. A maioria precisa de sucessivas internações. Ainda assim, a vigilância deve ser permanente para o resto da vida, alerta Jaber.
“O crack é uma substância com alto poder de causar dependência. Uma pessoa que experimenta e fuma quatro ou cinco vezes em um dia já se torna praticamente dependente. E o tratamento é mais difícil. É mais longo do que o de um dependente em cocaína, por exemplo. Em média, depois de 15 dias de desintoxicação, o usuário de crack precisa de mais 90 dias internado para conseguir desenvolver mecanismos psicológicos para evitar voltar à droga. É o tempo básico. Já o usuário de cocaína precisa de 45, em média”, afirma.
Dado o poder de criar dependência, é improvável que apenas o tratamento ambulatorial seja capaz de reverter o quadro do paciente. E a interrupção do tratamento, como ocorreu nas clínicas do estado do Rio, joga fora qualquer avanço. “É difícil manter o paciente em tratamento ambulatorial. O paciente simplesmente não vai ao tratamento. A única forma de tratar o vício do crack é com a internação”, diz Jaber.

Cartola - Alvorada

Bom demais!!!

Baleia aprendeu a imitar voz humana espontaneamente


Biologia

A beluga, chamada NOC, teria adquirido a habilidade depois de conviver por sete anos com pesquisadores. Foi a primeira vez que um animal aprendeu a imitar a voz humana de forma espontânea

baleia
As baleias brancas também são conhecidas como belugas. Elas costumam viver nos mares gelados do ártico(Thinkstock)
Uma nova pesquisa publicada na revista Current Biology mostrou que alguns mamíferos marinhos são capazes de imitar a voz humana sem passar por nenhum tipo de treinamento. O estudo detalha o caso de uma baleia branca conhecida como NOC que, nos anos 80, aprendeu a imitar conversas entre duas pessoas, provavelmente por meio da convivência com seres humanos. "A vocalização da baleia normalmente soava como se duas pessoas estivessem conversando a certa distância", diz Sam Ridgway, presidente da Fundação Nacional de Mamíferos Marítimos, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo. 
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Spontaneous human speech mimicry by a cetacean
Onde foi divulgada: revista Current Biology

Quem fez: Sam Ridgway, Donald Carder, Michelle Jeffries e Mark Todd

Instituição: Fundação Nacional de Mamíferos Marítimos, nos Estados Unidos

Dados de amostragem: Uma baleia branca de nove anos chamada NOC

Resultado: Gravações dos barulhos emitidos pela baleia mostraram que eles se parecem com a conversa de seres humanos. Análises técnicas revelaram semelhanças com alguns padrões da fala humana, como amplitude e ritmo. Outros animais já demonstraram capacidade semelhante, se treinados, mas NOC foi o primeiro a exibir a habilidade espontaneamente.
Os pesquisadores descobriram a habilidade por acaso, em maio de 1984, quando a baleia tinha por volta de nove anos de idade. "Nós ouvimos essas conversas muitas vezes antes de identificarmos que a fonte era a baleia. Só fomos descobrir a verdade quando uma mergulhadora de nossa equipe confundiu os sons do animal com a voz de um humano que lhe dava ordens debaixo da água", diz Ridgeway. A baleia teria "dito" para a mergulhadora sair da água.

Assim que a baleia foi identificada como a fonte dos sons, os pesquisadores passaram a gravar o barulho, tanto no ar quanto debaixo da água. Embora não seja possível escutar nada que se pareça claramente com palavras, análises das gravações revelaram vários padrões semelhantes aos da fala humana, como o ritmo e a amplitude.

Segundo os pesquisadores, essa não é a primeira vez que um mamífero marinho imita a voz humana – golfinhos já haviam sido treinados a copiar algumas características da fala dos homens.






Essa, no entanto, é a primeira vez que essa habilidade aparece espontaneamente, como se o animal tivesse realizado um aprendizado vocal sem nenhum tipo de intervenção. Os cientistas acreditam que isso se deve à relação próxima da baleia com os homens, com quem conviveu por sete anos antes passar a vocalizar.

Depois de quatro anos da descoberta, o comportamento diminuiu. "Quando a baleia envelheceu, deixamos de ouvir os sons parecidos com a fala, mas ela permaneceu bem barulhenta", afirma o pesquisador.

NOC morreu há cinco anos, ainda sob cuidados da Fundação Nacional de Mamíferos Marítimos. A gravação de sua voz, no entanto, ainda pode trazer grandes descobertas para a ciência. "Esperamos que a publicação de nossas observações leve a novas descobertas sobre o aprendizado e a vocalização de mamíferos marinhos. Entender o modo como essas mentes únicas interagem com os outros animais, os humanos e o ambiente marinhos é um dos grandes desafios de nosso tempo", diz Ridgeway.