sábado 25 2012

Fernanda Montenegro sobre mulheres de sua família: "São danadas"



Atriz volta aos palcos com texto baseado em cartas de Simone de Beauvoir e mostra que força não é característica só do personagem

Marília Neves e Marco Tomazzoni, iG Gente 
Fernanda Montenegro estava afastada dos palcos havia oito anos quando, em 2009, iniciou uma turnê com o espetáculo “Viver Sem Tempos Mortos”, onde resumiu a história e as cartas de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre e colocou, sobre o tablado, a consciência da filósofa e feminista francesa. “Foi mais uma revisão da minha vida do que um passeio na obra de Simone”, definiu a atriz.

André Giorgi
Fernanda Montenegro se prepara para reestrear peça em São Paulo
O monólogo traz Fernanda envolvida em seu absoluto talento. Como se fosse Simone narrando a própria vida, ela passa uma hora sentada em uma cadeira e tem como apoio de cenário apenas a luz de um holofote. “Suo muito. Não ando em nenhum momento, mas tem que ter uma concentração enorme”, afirma.
Referência para jovens atores, Fernanda surpreende e mostra modéstia ao afirmar que sente a reestreia do espetáculo diferente das primeiras apresentações da peça. “Senti que algo se fortaleceu. E acho que eu melhorei”, afirma a atriz, que conversou com o iG Gente sobre seu retorno aos palcos.
No bate-papo, ela mostrou que a força feminina não é marca apenas de sua personagem e, sim, de todas as mulheres de sua família: "temos mulheres muito fortes. Mulheres danadas, são umas guerreiras".
iG: Que fala da peça a senhora mais se identifica ou que mais gosta de pronunciar?Fernanda Montenegro: Ah, tem muitas! “É o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é referência que me projeta e que eu devo sempre ultrapassar”. São coisas assim...
iG: Você comentou que leu o primeiro livro de Simone de Beauvoir aos 19 anos (“O Segundo Sexo”) e que demorou quatro anos na preparação da peça. Como foi o processo de criação?Fernanda Montenegro: Para ler toda a obra dela, acho que levaria 60 anos. Então, li a autobiografia e as correspondências dela para o Sartre. Porque eles se escreviam barbaramente. Já tinha telefone, mas tudo era escrito. Não reli os romances, porque o que me interessava era, justamente, o depoimento direto da vida deles.
André Giorgi
Fernanda Montenegro sobre a morte de Fernando Torres: "Você fica maneta, tem que aprender a viver de novo"
iG: Sartre e Simone tiveram uma relação de cumplicidade muito grande. E a senhora também teve uma relação na vida bastante próxima disso, com seu marido, Fernando Torres. A senhora consegue fazer esse paralelo entre os dois casais?Fernanda Montenegro: Acho que todo casal que permanece depois de atravessar todos os pontos mortos cria uma necessidade mútua inarredável. Na medida que um aprende o caminho do outro, tem uma simbiose aí, seja em que escala for, em que nível social for, que nível cultural for, que se assemelha. Sou de uma família de casamentos de longos anos. Todos têm problemas. Durante a vida, vão se acotovelando, mas tem momento que formam uma unidade inseparável. E quando acontece a perda da pessoa, você fica maneta. Tem que aprender a viver de novo. Porque são anos, ou na glória do encontro ou na tragédia do desencontro, mas vão permanecendo naquele vício um do outro. Fica difícil.
iG: Isso te ajudou a retratar Simone no palco, mergulhar no personagem?Fernanda Montenegro: Você sabe que a morte é um sentimento de perda parecido para todas as pessoas, né?, quando a morte chega perto da sua vida. Outro dia eu li um pensamento muito interessante, que a morte é como um véu. Então, durante a vida você vai vendo a morte através de um véu. Aí, um dia, o véu se levanta e alguém muito perto de você morre. É a hora que o véu se levanta e você vê. Depois, com o tempo, o véu vai baixando de novo e você vai vendo a entidade morte através desse véu. Até a hora que o véu se levanta de novo e você entra no contato direto com a morte. Acho que esse é um pensamento bonito.
André Giorgi
Fernanda Montenegro
iG: Em que nível a senhora concorda que “por trás de uma grande mulher, há sempre um grande homem”? 
Fernanda Montenegro: Bom, eu acho que sem Fernando eu não teria feito a vida que fiz. E não digo isso porque ele já não está mais aqui. Ele sabia disso e eu sempre soube disso. Nós nos juntamos a propósito de uma vocação de nós dois, e viemos juntos pela vida, batalhando. Às vezes, os embates eram violentos, mas sobrevivemos a isso. E em nossa dedicação a esse tipo de arte, de artesanato, de trabalho, ofício, esse ponto de vista comum, nos amparamos muito e não teríamos feito a vida que fizemos se não tivéssemos nos encontrado.
iG: Na entrevista coletiva a senhora falou sobre o feminismo e comentou que o Brasil é um país matriarcal...Fernanda Montenegro: Eu não falei isso, são as estatísticas (risos).
iG: A sua família também tem essas características?Fernanda Montenegro: Sim, temos mulheres muito fortes. Mulheres danadas, são umas guerreiras. Cada uma a seu modo. Basta dizer que são mulheres que sobreviveram à imigração. Então, só sobreviver, mudar de país... Se mudaram, é porque lá não estava bom, então já tinham sobrevivido lá. Sobreviveram a travessia do atlântico em navios negreiros, praticamente. Depois vieram para uma nova terra, uma cultura completamente diferente, uma nova língua, uma nova maneira de viver, de comer. As que sobreviveram, aprenderam a guerrear uma boa batalha.
iG: A senhora está no palco vivendo Simone de Beauvoir, a consciência dela no palco. Se um dia fossem colocar no palco a sua consciência ou fazer uma releitura de uma autobiografia, quem gostaria de ver fazendo seu papel?Fernanda Montenegro: Não tenho a menor ideia. Essa é uma pergunta tão interessante porque ela é absolutamente nova e eu não tive tempo ainda e nem me sinto capaz, com essa dimensão, de alguém, um dia, querer fazer essa triste figura (risos). 
André Giorgi
Fernanda Montenegro

Fernanda Montenegro reestreia "Viver Sem Tempos Mortos" em São Paulo


Marco Tomazzoni, iG São Paulo 

Divulgação
Fernanda Montenegro em "Viver Sem Tempos Mortos": monólogo minimalista
Aos 82 anos, Fernanda Montenegro dá provas de uma disposição de fazer cair o queijo. Se não bastasse a ideia de encabeçar um monólogo, escrito, é bom dizer, por ela mesma, a atriz ainda escolheu como tema a vida da francesa Simone de Beauvoir, filósofa e ensaísta, mulher de Jean-Paul Sartre, defensora do feminismo e aríete do senso comum no século passado. Embuída desse espírito revolucionário, ainda batizou a peça de "Viver Sem Tempos Mortos", palavra de ordem repetida em maio de 68. Inquietação, portanto, é o que move Fernanda na nova temporada do espetáculo, que reestreia em São Paulo neste sábado (08).
O dicionário autoriza o uso da palavra, mas a atriz defende que não é um "espetáculo", não no sentido comumente usado. "De espetáculo não tem nada. Não tem penduricalhos, parangolés. Ele é essencial, muito dentro do que eu esperava", disse, em entrevista na capital paulista, onde se apresentou com a peça por um curto período em 2009.
A ideia surgiu numa conversa com o amigo Sérgio Britto, quando os dos ficaram interessados em adaptar "Tête-à-Tête", história da relação de Sartre e Beauvoir. A parceria não evoluiu e Montenegro decidiu levar o projeto adiante por conta própria. A partir das correspondêncidas e da autobiografia de Simone, escreveu um resumo de 200 páginas, depois diminuído para 30. "É apenas um cheiro, um nada em relação à vida dessa mulher – só de autobiografia são seis volumes."
A atriz tinha, então, um texto estritamente literário, mas não sabia se "dava samba" em cena. Depois de uma conversa com o diretor Felipe Hirsch, não só ficou tranquila como encontrou uma "simbiose maravilhosa". "Hirsch é um minimalista, um dos poucos diretores brasileiros que fogem do barroquismo. Muito criativo, mas sem ser histriônico."
Isso levou a um teatro sem dramaturgia, trilha sonora ou atores coadjuvantes. No palco, apenas Fernanda com um figurino sóbrio, uma cadeira e um facho de luz. "Entro, sento na cadeira e falo como se fosse a memória de Simone sendo contada."
Para a atriz, um monólogo é sempre um desafio do tipo "viver ou morrer", mas que, na sua opinião, acabou se tornando o retrato de um período de recursos parcos para a produção teatral, mais do que um opção meramente estética.

André Giorgi
A atriz durante entrevista em São Paulo: inquietação, feminismo e coragem no palco
"Estamos vivendo a era do monólogo. Teatro é caro. Não é algo que se compra na prateleira ou na calçada. Hoje está acontecendo uma pulverização do orçamento, se distribuindo mais para aqueles que nunca tiveram. Não dá mais para fazer espetáculos como fazíamos antigamente. Hoje em dia ter dois ou três atores em cena já é muita gente."
Liberdade e verdade
Fernanda Montenegro tomou contato com a obra de Simone de Beauvoir pela primeira vez aos 19 anos, ao ler "O Segundo Sexo", divisor de águas do pensamento feminista. "Mudou o mundo. Antes disso, o homem era considerado o centro, o absoluto, e a mulher, o outro. Um ser superior e outro que está ao lado para pegar o que resta da mesa."
"Sem Sartre e Simone, não haveria 68 em Paris. Eram provocadores, contribuíram para a mudança libertária que hoje vemos no mundo. Tinham dois princípios: liberdade e verdade", acrescentou.
Mais do que colocar a plateia para refletir sobre suas certezas, a ideia da atriz de mergulhar na obra de Beauvoir também estava relacionada a um desejo de refletir sobre sua própria vida. "Já estou com a idade que estou, há 65 anos vivendo publicamente. Passei por muitos textos, mudança de vida, cidade, filhos, netos, perdi pai, irmã, família. Experiências duras. Simone tem sempre algo que faz você refletir. E pessoas de idade gostam de contar sobre sua vida, para relembrá-la."
Idade que não parece pesar. Ao ser perguntada sobre a reestreia de "Viver Sem Tempos Mortos", Montenegro tem humildade para assumir e dizer: "sinto que melhorei".
Serviço – "Viver Sem Tempos Mortos" em São Paulo
De 08 de outubro a 27 de novembro de 2011
Teatro Raul Cortez, Fecomércio
Sextas, às 21h30; sábados, às 21h; domingos, às 18h
Ingressos de R$ 80 (sexta e domingo) a R$ 100 (sábado)
Informações: (11) 3254-1700

Candidata em Porto Seguro debocha sobre desvio de verba



Vídeo mostra Cláudia Oliveira discursando ao lado do marido, Robério Oliveira
http://oglobo.globo.com/pais/candidata-em-porto-seguro-debocha-sobre-desvio-de-verba-5871868
 
BRASÍLIA - Conversas descontraídas durante um passeio podem custar a eleição da candidata do PSD à prefeitura de Porto Seguro (BA), Cláudia Oliveira. Um vídeo obtido pelo GLOBO mostra Cláudia e o marido, Robério Oliveira, que é prefeito da vizinha Eunápolis, caminhando em uma região de praia com amigos. Em dado momento, ao passar por uma pequena ponte de madeira, ela, que é deputada estadual, ri e começa a simular um discurso. Ainda que em tom de brincadeira, Cláudia fala em desviar verbas de emendas de parlamentares ao Orçamento.
— Estou visitando aqui meu povo, povo da periferia. Eu colocarei emendas, farei projeto para uma ponte que vai beneficiar aqui toda a comunidade. Uma ponte onde serão investidos dois bilhões. Um bilhão eu fico — diz, em meio a risadas.
Robério, que está filmando, avisa:
— Ó rapaz, tá gravado, viu? Tá gravado tudo aqui. Tá tudo gravado e eu vou botar na Globo. Nessas coisas que sai...
O prefeito de Eunápolis ainda chama uma suposta assessora que acompanha o grupo e pergunta se ela concorda. Ela, também em meio a gargalhadas, complementa:
— Eu tô de acordo. Eu concordo. Dois bilhões para investir, um bilhão para ficar.
A íntegra do vídeo está no site do GLOBO na internet. Cláudia é apontada por pesquisas locais como a favorita na disputa pela prefeitura de Porto Seguro. A conversa, uma zombaria com as emendas parlamentares e com o dinheiro público, poderia não ter maiores consequências. A questão é a biografia do casal. Cláudia foi acusada de compra de votos nas eleições de 2010 em Buerarema, no sul da Bahia.
Já Robério é acusado por diversas irregularidades na prefeitura de Eunápolis. Ele responde a 19 ações de improbidade administrativa na Vara de Fazenda Pública da cidade, oito ações no Tribunal de Justiça e três ações na Justiça Federal.
As ações contra Robério são nas mais diversas áreas. Há acusações de superfaturamento, de obras pagas que nunca saíram do papel, de dispensa irregular de licitações e de contratação irregular de servidores. Em janeiro, ele foi condenado pela Justiça Federal à perda dos direitos políticos por cinco anos por usar a verba do Ministério da Saúde para abastecer veículos da empresa de trios elétricos Axé & Cia, que era administrada pela mulher, agora candidata. O prefeito recorreu da sentença, que está suspensa.
Robério se mantém no cargo
Robério responde ainda a outras duas ações por possível desvio de verba federal. O Ministério Público o acusa de superfaturamento na construção de um pequeno hospital e por utilização irregular de verba do Fundeb.
Em 2010, o Tribunal de Justiça da Bahia chegou a determinar a saída do prefeito e de um secretário municipal dos cargos por outra acusação, a partir de denúncia do Ministério Público de que a prefeitura pagou por obras de infraestrutura que nunca saíram do papel. Para que possa ressarcir os prejuízos, a Justiça também determinou a indisponibilidade de bens de Robério no valor de R$ 1,9 milhão. O prefeito conseguiu se manter no comando do município com um recurso.
Procurada para comentar a gravação, a candidata Cláudia Oliveira afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o vídeo seria montagem. Segundo a assessoria, a candidata estaria se referindo a peixes e diria que iria ficar com o “agulhão”. O GLOBO pediu que enviassem a suposta versão original do vídeo, que eles diziam ter em mãos, mas até o fechamento desta edição as imagens não foram enviadas.