quinta-feira 19 2015

Suíça bloqueia US$ 400 mi desviados da Petrobras


Governo suíço identificou cerca de 60 informações sobre transações suspeitas envolvendo a petroleira do Brasil; nove investigações foram abertas

Por: Laryssa Borges, de Brasília - Atualizado em 
Petrobras - O procurador federal Deltan Dallagnol, em entrevista coletiva
Petrolão – O procurador federal Deltan Dallagnol, que integra a força-tarefa da Operação Lava Jato(Heuler Andrey/AFP)
O Ministério Público da Suíça informou nesta quarta-feira que bloqueou 400 milhões de dólares (cerca de 1,3 bilhão de reais) em recursos desviados da Petrobras. Desse montante, 120 milhões de dólares já foram devolvidos ao Brasil. Segundo a procuradoria suíça, nove investigações foram abertas para mapear todas as transações utilizadas por agentes que atuaram no escândalo do petrolão - ex-dirigentes da Petrobras, operadores do propinoduto e empresários que detinham contratos com a estatal.
Os processos de apuração foram instaurados na Suíça em 2014 depois que o Ofício de Comunicação em Matéria de Lavagem de Dinheiro - o equivalente ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) brasileiro - identificou cerca de sessenta informações sobre transações suspeitas relacionadas à petroleira do Brasil.
De acordo com o Ministério Público suíço, as suspeitas são que ex-dirigentes da Petrobras, empreiteiros, operadores do esquema criminoso, intermediários financeiros e empresas brasileiras e estrangeiras atuavam em um esquema de lavagem de dinheiro por meio de 300 contas bancárias em mais de trinta bancos do país europeu.
"Na Suíça temos nove procedimentos de investigação sobre o complexo da Petrobras e, neste caso, bloqueamos de 400 milhões de francos suíços [398 milhões de dólares ou 1,3 bilhão de reais]", informou o procurador Geral da Confederação, Michael Lauber, após reunião em Brasília com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. "Estamos apoiando no melhor da nossa possibilidade as investigações. O principal objetivo é obter decisões claras de tribunais condenando atividades de lavagem e devolvendo o dinheiro bloqueado na Suíça para o Brasil."
O montante de dinheiro congelado atualmente na Suíça é ainda maior se contabilizados os recursos de correntistas de outras nacionalidades: 5,5 bilhões de francos suíços (16,2 bilhões de reais).
Segundo os investigadores suíços, cerca de 1.000 transações bancárias ligadas ao escândalo do petrolão estão sendo analisadas - um terço ligadas a bancos suíços, um terço em bancos fora da Suíça e o restante ainda não identificado. "O caso da Petrobras é muito especial. Estou em visita de trabalho para intercambiar com meu contraparte [informações]. Estamos convencidos de que um caso tão complexo para ambos os países necessitam esforços comuns. Não toleramos uso indevido do sistema financeiro suíço para corrupção e lavagem", disse procurador Michael Lauber.
Ele se recusou a comentar casos específicos de autoridades investigadas no escândalo do petrolão, como o ex-diretor da Petrobras, Renato Duque, preso após as autoridades detectarem que ele esvaziou contas bancárias na Suíça e transferiu recursos para o principado de Mônaco. "Não posso citar nomes específicos, mas quando temos nove investigações internas na Suíça, isso contempla mais do que nove indivíduos. Há empresas bancárias, investigações contra bancos suíços", disse. "Se eu citar algum nome vou fazer a pior coisa que um procurador pode fazer, vou dizer exatamente as pessoas investigadas."

quarta-feira 18 2015

Dilma lança pacto contra corrupção que o PT institucionalizou


Presidente resgata medidas há anos engavetadas, e discursa como se seu partido não fosse um dos maiores beneficiários do esquema do petrolão

Por: Gabriel Castro, de Brasília - Atualizado em 
A presidente Dilma Rousseff apresenta pacote anticorrupção em Brasília (DF)
A presidente Dilma Rousseff apresenta pacote anticorrupção em Brasília (DF)(Ed Ferreira/Folhapress)
Pressionada pelos protestos de 15 de março, a presidente Dilma Rousseff apresentou nesta quarta-feira o pacote anticorrupção prometido ainda durante a campanha eleitoral - um compilado de propostas antigas e jamais levadas a sério nos quatro anos de seu primeiro mandato. Imersa em uma crise política cada vez mais grave e com um índice de reprovação popular alarmante, a presidente discorreu sobre a necessidade de construir "pacto anticorrupção" - para combater justamente as práticas que o PT adotou desde que chegou ao poder, e que colocaram o partido no centro do maior esquema de corrupção da história do país.
Durante a cerimônia, a presidente deixou claro que o discurso mais moderado, de quem reconhece erros e agora prega a humildade, durou pouco: ela usou o tom beligerante das eleições, atacou governos anteriores e retomou a ladainha de que a corrupção só parece ter aumentado porque seu governo aumentou a transparência. "As notícias sobre casos de corrupção aumentam, mas justamente elas aumentam porque eles não são mais varridos para baixo do tapete", disse.
A presidente também ignorou o fato de que as investigações da Operação Lava Jato detectaram sinais contundentes de que o PT e partidos da base aliada, como PP e PMDB, receberam doações disfarçadas de empreiteiras como forma de lavagem de dinheiro - e que a corrupção na Petrobras foi institucionalizada durante o governo petista. "Nós estamos purgando hoje males que nós carregamos há séculos", prosseguiu.
O documento apresentado nesta quarta foi concluído às pressas para permitir que o governo apresentasse uma resposta aos atos que reuniram centenas de milhares de pessoas. Como mostrou o site de VEJA, o pacote marqueteiro inclui medidas que tramitam no Congresso há anos e que, sem apoio do governo ou do PT, permaneceram estagnadas. O evento para apresentação do texto só foi, portanto, uma tentativa de amenizar a pressão provocada pelas investigações da Lava Jato, que envolvem diretamente o PT e a própria campanha que levou Dilma à Presidência.
Entre as propostas apresentadas nesta quarta-feira, está a regulamentação da lei anticorrupção, em vigor há mais de um ano, incluindo uma regra sobre os acordos de leniência. A regulamentação estabelece que, no âmbito do Executivo federal, somente a Controladoria-Geral da União poderá firmar esses acordos. As empresas que colaborarem terão de fornecer todos os dados sobre os crimes cometidos em contratos com a administração pública e, ao fim, além de devolver o valor desviado, terão de pagar uma multa de até 20% do faturamento bruto.
Na lista das propostas apresentadas, estão também a criminalização do caixa dois de campanha, o endurecimento das punições em casos de enriquecimento ilícito e a exigência de ficha limpa para todos os ocupantes de cargos comissionados. Confira abaixo as medidas:
1 - Criminalização do caixa dois eleitoral e da lavagem de dinheiro para fins eleitorais.
2 - Apreensão de bens em caso evidentes de incompatibilidade com a renda, mesmo que não haja condenação. Isso exigirá uma mudança na Constituição (no trecho que trata do direito à propriedade) e um projeto de lei para detalhar as novas regras.
3 - Possibilidade de leilão de bens apreendidos mesmo antes de uma sentença definitiva da Justiça. Se o réu for absolvido, poderá recuperar os valores obtidos com a venda.
4 - Extensão dos critérios da Lei da Ficha Limpa para todos os ocupantes de cargos comissionados em todas as esferas.
5 - Punição de agentes públicos que não comprovarem a origem de seus bens e recursos.
6 - Regulamentação da lei anticorrupção, que foi aprovada na última legislatura e que pune os corruptores.
7 - Criação de um grupo de trabalho para debater formas de acelerar a tramitação de processos judiciais que tratem de corrupção.

Datafolha: 68% dos brasileiros responsabilizam Dilma por 'petrolão'


Contudo, pesquisa aponta que escândalo da Lava Jato não afetou a imagem da presidente

A presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT), durante a coletiva de imprensa, após o debate do segundo turno promovido pela Rede Globo no Projac, no Rio de Janeiro


Dilma Rousseff: popularidade não foi afetada por 'petrolão'(Ivan Pacheco/VEJA.com)
Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha nos dias 2 e 3 de dezembro mostra que 68% dos brasileiros acreditam que a presidente Dilma Rousseff tem alguma responsabilidade sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, investigado no âmbito da Operação Lava Jato - o chamado 'petrolão'. A pesquisa foi feita com 2.896 brasileiros e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo neste domingo. Contudo, o levantamento mostra que isso ainda não atingiu seu nível de popularidade.
A gestão de Dilma continua sendo boa ou ótima para 42% dos entrevistados, mesmo patamar registrado em 21 de outubro, quando o governo da presidente teve seu melhor desempenho de aprovação desde junho de 2013. Consideram a gestão de Dilma ruim ou péssima 24% da população. Em 21 de junho, esse patamar era de 20%. A margem de erro é de dois pontos porcentuais.
A pesquisa Datafolha também mostra que diminuiu a preocupação do brasileiro com a corrupção. Em junho, ela era o principal problema do Brasil para 14% dos entrevistados. No último levantamento, esse número caiu para 9%.
A saúde pública continua sendo o maior alvo de críticas, com 43%, enquanto a violência aparece em segundo lugar, com 18%. A pesquisa apurou ainda que 40% das pessoas ouvidas acreditam que nunca houve tantas punições aos corruptos como atualmente.
O Datafolha apurou ainda que 50% dos eleitores acreditam que Dilma fará um bom governo em seu segundo mandato - patamar 23 pontos abaixo do registrado antes da posse, em 2011.

Popularidade de Dilma despenca para 13%, diz Datafolha


Primeira pesquisa depois dos protestos de 15 de março indica que 68% dos brasileiros consideram o governo ruim ou péssimo – a mais alta taxa de reprovação desde Collor

 - Atualizado em 

Taxa de aprovação de Dilma chega ao seu ponto mais baixo, segundo o Datafolha(Evaristo Sá/AFP)
A popularidade de Dilma Rousseff despencou dez pontos na primeira pesquisa sobre o governo depois dos protestos de 15 de março. Segundo levantamento do instituto Datafolha, publicado nesta quarta-feira pela Folha de S. Paulo, apenas 13% dos brasileiros consideram a gestão da presidente boa ou ótima. É a pior taxa de aprovação de Dilma desde o primeiro mandato. No início de fevereiro, esse número era de 23%.
Por outro lado, 62% dos entrevistados classificam o governo Dilma como ruim ou péssimo. Com os indicadores econômicos batendo recordes negativos e a insatisfação popular com a corrupção tomando as ruas, a reprovação à presidente subiu 18 pontos em pouco mais de um mês. O número também representa a mais alta taxa de desaprovação a um governante desde setembro de 1992, quando Fernando Collor era reprovado por 68% dos brasileiros nas vésperas do impeachment. O levantamento também apontou que 24% dos eleitores consideram a gestão de Dilma regular.
Segundo o Datafolha, a popularidade da presidente caiu até em tradicionais redutos petistas. No Nordeste, onde Dilma conseguiu uma grande votação em 2014, apenas 16% aprovam o seu governo. Pela primeira vez, a maioria dos eleitores com menor renda e menor escolaridade ouvidos pelo instituto avaliou a gestão da governante como ruim ou péssima.
A pesquisa ouviu 2.842 eleitores nos dias 16 e 17 de março, logo depois das manifestações que levaram quase 2 milhões de brasileiros às ruas contra o governo Dilma e o PT. A margem de erro do levantamento é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.
Congresso - Atingido em cheio pela Lava Jato, o Congresso Nacional também amarga uma péssima avaliação no Datafolha. Apenas 9% dos entrevistados consideram o desempenho dos parlamentares bom ou ótimo. Para metade dos brasileiros (50%), a atuação dos congressistas é ruim ou péssima.
(Da redação)

terça-feira 17 2015

Imprensa internacional destaca o 'maior protesto da democracia' brasileira


Principais jornais do mundo repercutiram a grande participação nas manifestações de 15 de março e a insatisfação com o governo de Dilma Rousseff e com a corrupção

 - Atualizado em 
As manifestações que reuniram quase 2 milhões de pessoas contra o governo em diversas cidades do Brasil neste domingo ganharam destaque na imprensa internacional. Sites dos principais jornais do mundo repercutiram os protestos com imagens das multidões nas ruas do país e análises da insatisfação dos brasileiros com Dilma Rousseff. Com a manchete "Out, Dilma" ("Fora, Dilma"), a versão internacional do site da rede americana CNN colocou os protestos no Brasil em seu destaque principal. A reportagem cita o "clima festivo" nos atos e diz que os manifestantes protestam contra a corrupção e pedem o impeachment de Dilma. O governo, contextualiza a CNN, "está lutando em meio a uma economia fraca e a um enorme escândalo de corrupção envolvendo a estatal de petróleo do país". A publicação lembra ainda que Dilma foi reeleita em uma disputa apertada em outubro, mas que "desde então sua taxa de aprovação despencou junto com a economia".
Um dos principais jornais do mundo, o New York Times ilustrou sua reportagem sobre os protestos com uma foto da massa de manifestantes no Rio, com a praia de Copacabana ao fundo. A matéria destaca que as "centenas de milhares" de pessoas que foram às ruas pedindo a saída de Dilma aumentam ainda mais a pressão sobre a presidente, enquanto ela enfrenta crises em várias frentes: "A economia atolada em estagnação, um escândalo de propinas arrebatador e a revolta de algumas das figuras mais poderosas de sua coalizão governista", enumera o jornal. O New York Times lembra também que os protestos coincidem com os 30 anos da redemocratização do Brasil.
O espanhol El País sintetizou o 15 de março no Brasil em seu título: "O país pede mudanças no maior protesto de sua democracia. Manifestantes marcham contra a corrupção e a crise". Além da reportagem principal, o jornal também trouxe uma análise do correspondente Juan Arias. No texto, ele diz que, ao contrário do que alguns afirmavam, os protestos não atraíram apenas os brasileiros das classes mais altas. "O Brasil os desmentiu categoricamente. Diziam que era o país do 'caviar', o dos ricos, o que sairia à rua para exigir a cabeça de Dilma. Não foi. Foi o Brasil plural, foi o Brasil mestiço, o que saiu às ruas sem ideologias nem classes".
Com o título "Grandes protestos no Brasil exigem o impeachment da presidente Rousseff", a matéria da britânica BBC relata que os manifestantes acreditam que Dilma sabia do escândalo de corrupção na Petrobras. A publicação deu bastante destaque às imagens das multidões pelo país, exibindo fotos dos protestos em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. "Muitos manifestantes balançavam bandeiras do Brasil e vestiam a camisa da seleção de futebol. Eles gritavam slogans contra a corrupção e o Partido dos Trabalhadores", descreve a reportagem. A BBC diz ainda que a oposição apoiou os protestos, mas não pediu abertamente pelo impeachment de Dilma.
No Le Monde, principal jornal francês, a reportagem sobre as manifestações traz um vídeo com imagens da Avenida Paulista, em São Paulo, da praia de Copacabana, no Rio, e da Esplanada, em Brasília. O texto menciona a Operação Lava Jato e os 49 políticos, "em sua maioria membros dos partidos da coligação no poder", que foram indiciados pela Justiça. A insatisfação com a presidente Dilma é apontada com dados ilustrando sua baixa popularidade, pressionada por escândalos de corrupção e uma "economia à beira da recessão".
Os jornais argentinos também acompanharam com atenção os protestos no país vizinho. O Claríndestacou o assunto na chamada principal de seu site. "Massivas marchas de protesto no Brasil contra o governo Dilma", diz a manchete. O periódico registrou que as manifestações aconteceram nas principais cidades do país, mas que em São Paulo a mobilização foi "enorme". Para o La Nación, mais de 2 milhões de brasileiros gritaram "Fora Dilma!" nas ruas do país. O jornal colheu declarações de manifestantes em São Paulo e descreveu o ambiente amistoso dos atos. "Famílias com crianças pequenas, grupos de jovens e casais aposentados, vestidos com a camisa da seleção nacional, cobertos com bandeiras do país e com o rosto pintado com as cores do Brasil, foram em massa para a Avenida Paulista".

segunda-feira 16 2015

Dilma reaparece e pede trégua: 'Vamos brigar depois'


Após megaprotesto de domingo, presidente defendeu o ajuste fiscal e voltou a prometer a entrega de um pacote de medidas anticorrupção

Por: Gabriel Castro, de Brasília - Atualizado em 
A presidente Dilma Rousseff durante pronunciamento

DAY AFTER – A presidente Dilma Rousseff durante pronunciamento em Brasília: flagrante mudança de tom(Eraldo Peres/AP)
Acuada pelo maior protesto da história democrática do país contra um governo, a presidente Dilma Rousseff decidiu reaparecer, discursar e tentar disfarçar o abatimento em uma entrevista em Brasília. Tanto no pronunciamento, destinado à cerimônia de sanção do novo Código de Processo Civil, quanto nas respostas às perguntas de jornalistas, a única novidade foi a mudança no tom: a exemplo da fala de ministros mais cedo, palavras como "humildade" e "diálogo" foram incorporadas no vocabulário da petista nesta segunda-feira. Dilma voltou a defender a aprovação do ajuste fiscal, prometeu entregar seu pacote atrasado anticorrupção e fez um apelo: "Vamos brigar depois".
Durante suas falas, a presidente visivelmente se esforçou para transmitir uma imagem mais leve: sorriu, brincou com jornalistas e até ensaiou admitir erros. Mas não tardou para algumas contradições surgirem: Dilma não resistiu, cutucou a oposição e tentou equiparar a passeata promovida pelos seus aliados - muitos pagos para comparecer ao ato - na sexta-feira aos milhares de brasileiros que foram às ruas no domingo.
A confissão parcial de que seu governo errou foi feita em entrevista coletiva, quando a petista analisava o cenário de instabilidade econômica. Dilma lembrou que o governo aplicou todos os recursos, no primeiro mandato, para enfrentar a crise financeira internacional, e disse que agora é preciso fazer um ajuste para corrigir os rumos. Quando questionada sobre a responsabilidade do governo sobre o desequilíbrio, ela chegou afirmou: "É possível que a gente possa ter até cometido algum [erro]. Agora, qual foi o erro de dosagem que nós cometemos? Nós gostaríamos muito que houvesse uma melhoria econômica de emprego e de renda. Tem gente que acha que a gente devia ter deixado algumas empresas quebrarem e muitos trabalhadores se desempregarem. Eu tendo a achar que isso era um custo muito grande para o país. Agora que é possível discutir se podia ser um pouco mais, um pouco menos, é possível discutir", disse ela. Mas em seguida fez um contraponto: "Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo para a economia reagir".
Crise política - Em sua entrevista, como havia feito minutos antes no discurso que fez ao sancionar o novo Código de Processo Civil, a presidente afirmou que o governo está disposto a fazer um diálogo amplo e com "humildade".
Embora tenha dito que as manifestações são um direito do regime democrático, Dilma também fez uma espécie de apelo pela união nacional: "Vamos brigar depois. Agora vamos fazer pelo bem do Brasil tudo aquilo que tem que ser feito pelo bem do Brasil", declarou. No mesmo tom, ela disse que é preciso evitar a desestabilização das instituições: "Tem regras do jogo e elas têm que ser seguidas. Se você instabiliza um país sempre que lhe interessa, uma hora essa instabilidade passa a ser algo que ameaça a todos. A escalada é a pior situação que tem", afirmou.
A presidente também fez elogios ao PMDB e ao vice-presidente, Michel Temer. O partido de Temer tem se distanciado do PT e reclama da falta de espaço no governo: "Longe de nós querer isolar o PMDB", afirmou a petista.
Dilma Rousseff comentou ainda a afirmação, dada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segundo quem a corrupção está no Executivo, e não no Legislativo. A presidente discordou: "Eu acho que essa discussão não leva a nada. A corrupção não nasceu hoje. Ela não só é uma senhora bastante idosa nesse país como ela não poupa ninguém. Pode estar em tudo quanto é área, inclusive no setor privado", declarou.
Economia - Diante da crise econômica, Dilma adotou um discurso otimista. Ela afirmou que não é possível manter as políticas anticíclicas no formato que foram adotadas no primeiro mandato, mas disse que o ajuste fiscal vai fazer efeito. "Esse esforço vai ser ao longo deste ano, mas o Brasil tem todas as condições de sair em menos tempo do que em qualquer outra circunstância", afirmou.
Duque e Vaccari - A presidente da República disse não acreditar que a prisão do ex-diretor da Petrobras Renato Duque e o indiciamento dele e do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, tenham reflexos sobre o governo. "Eu não acredito. Esses acontecimentos mostram que todas as teorias a respeito de como é que o governo interferiu sobre o Ministério Público ou quem quer que seja para investigar ou fazer qualquer coisa com quem quer que seja são absolutamente infundadas", afirmou.
Fies - Além de reconhecer a possibilidade de erros na economia, Dilma admitiu que o governo errou na condução do Fies, o programa de financiamento estudantil. Segundo ela, foi inadequado ceder às universidades o controle sobre a contabilização das matrículas. "O governo cometeu um erro. Passou para o setor privado o controle dos cursos. Nós não fizemos isso com o Prouni, não fazemos isso com o Enem, não fazemos isso com ninguém", declarou. A presidente disse que o governo já começou a resolver a falha.
Ao comentar a postura de "humidade" prometida pelo governo, Dilma não quis fazer um mea culpa. "Tem uma certa volúpia da imprensa em querer uma situação confessional. Não tem na minha postura nenhuma situação confessional (...) Isso aqui não é um auto de confissões, vocês vã concordar, é uma entrevista". Depois, completou: "Se alguém achar que eu não fui humilde em algum diálogo, me diga qual e aí eu tomo providências. Caso contrário, seria um absoluto fingimento da minha parte".
A coletiva desta segunda foi a mais longa registrada nos últimos meses: durou quase meia hora.

Dilma enfrenta o maior protesto popular da história democrática


Ao menos 1,8 milhão de pessoas foram às ruas em todo o Brasil para se manifestar contra o governo e o PT. Ministros Rossetto e Cardozo falaram em defesa do governo — reciclando velhas propostas petistas, e sem sombra de autocrítica

 - Atualizado em 
O governo de Dilma Rousseff foi alvo neste domingo da maior manifestação espontânea já feita no Brasil contra um presidente da República. Vestidos de verde e amarelo, os brasileiros foram às ruas em todos os estados e no Distrito Federal para protestar contra a presidente e o Partido dos Trabalhadores. Ao menos 1,8 milhão de pessoas tomaram praças e percorreram avenidas, segundo estimativas das Polícias Militares nos Estados. O número, contudo, não leva em conta manifestações 
Ao contrário do que ocorreu na manifestação pró-governo de sexta-feira, quando o braço sindical do petismo, a CUT, e os grupos de sem-teto e sem-terra cooptados pelo governo organizaram marchas com militantes uniformizados - e pagos em grande número de casos -, nenhum partido político ou grupo organizado controlou os movimentos ou pôde reivindicar a sua paternidade. Com exceção de raros políticos em suas bases, nenhum expoente da oposição foi às ruas numa decisão calculada: de um lado, a ausência deles deixa claro que a manifestação é apartidária e espontânea; do outro, também não tinham certeza de como seriam recebidos em algumas praças. O candidato derrotado por Dilma, o tucano Aécio Neves, divulgou um vídeo usando a camisa da seleção brasileira no qual justificou porque não saiu de casa: "Depois de refletir muito, optei por não estar nas ruas neste domingo para deixar muito claro quem é o grande protagonista dessas manifestações: o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção".
A multidão que tomou as ruas foi muito maior do que a previsão mais pessimista do Planalto. Na véspera das passeatas, o governo articulava o discurso de que seriam atos sem foco definido, protagonizados pela "elite" e cujo pico de concentração seriam 100.000 pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo. De fato, a maior adesão ocorreu em São Paulo, mas com dez vezes mais pessoas do que jamais esperava o Planalto: recorrendo a imagens aéreas e programas de computador, a PM estimou a presença de 1 milhão de manifestantes na Paulista. A jornada também mostrou que pessoas de todos os estratos sociais participaram das marchas nas cinco regiões do Brasil, e que elas tinham, sim um foco claro: o governo Dilma e os anos de mando petista . A indignação provocada por ambos deu o tom das passeatas - sem que faltassem cartazes e palavras de ordem em favor do impeachment da presidente.
Dilma Rousseff passou o dia trancada no Palácio da Alvorada. Convocou um gabinete de crise para monitorar as passeatas e escalou os ministros Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, e José Eduardo Cardozo, da Justiça, para se pronunciar em nome do governo.
A fala teve início por volta das 18h45. Na contramão de uma postagem feita durante a tarde nas contas de redes sociais de seu ministério, que afirmava que o "discurso de ódio fere a democracia e não gera mudanças", Cardozo disse que as passeatas foram "legítimas, democráticas e com respeito às autoridades". Questionado sobre a postagem na entrevista coletiva, o ministro disse que deu ordem para que ela fosse retirada do ar. Como remédio contra a indignação, contudo, ele apresentou tão somente velhas promessas e ambições petistas: o envio de um pacote anticorrupção ao Congresso e a realização de uma reforma política que, ele explicitou, deve proibir as doações de empresas.
Se não houve sombra de autocrítica na fala de Cardozo, Miguel Rossetto, integrante de uma ala mais radical do PT, adotou um tom agressivo, para afirmar que a discussão de um processo de impeachment "não deve ser tolerada". Rossetto procurou também qualificar os manifestantes como sendo todos pertencentes ao contingente de eleitores que não votaram na presidente em 2014 - afirmativa categórica que as pesquisas mais recentes de aprovação do governo não autorizam, por mostrar que Dilma Rousseff perdeu rapidamente o cacife com que contava no início de seu segundo mandato. Rossetto também procurou defender o pacote de ajuste econômico que o governo procura implementar, e que desperta a insatisfação de setores de apoio ao petismo - ou do próprio partido.
Enquanto os ministros falavam, o Brasil continuava a expressar sua indignação, com panelaços semelhantes ao que recebeu o pronunciamento em rede nacional de Dilma Rousseff há uma semana, no Dia da Mulher.