terça-feira 17 2013

A ERA SARTRE


vestígios da imagem e da escrita


em artes e ideias por  em 24 de mar de 2013 às 22:49
Em que momento histórico surgiu a figura do filósofo francês Jean-Paul Sartre como um dos intelectuais mais magnéticos de sua era? Desde o casamento nada convencional com a teórica feminista Simone de Beauvoir até a famosa escaramuça com o escritor argelino Albert Camus e o seu apoio declarado aos regimes cubanos e soviéticos, em um mundo submetido a uma tensão bipolar entre capitalismo e bolchevismo, Sartre é um pensador enigmático e muitas das suas ideias continuam sendo debatidas no século XXI.


No começo da década de 40, em face da II Guerra Mundial e quando o polêmico André Gide - fundador da Editora Gallimard, da revista Nouvelle Revue Française e Nobel da Literatura em 1947 - já não era uma figura tão presente nos debates públicos – tanto por estar indeciso em relação as suas escolhas políticas, bem como por ser rejeitado pelas novas vanguardas – Sartre conseguiu magnetizar os anseios políticos e culturais dos seus contemporâneos.
Tendo recebido o Prêmio Nobel de Literatura já no final da vida, em 1947, Gide é procurado então pelo jovem Sartre e os dois estabelecem uma relação cordial, com aparições conjuntas até em documentários. Após a morte de Gide, Sartre se preocupa em defender a memória do companheiro de letras dos ataques feitos pela Imprensa francesa. Ao se posicionar dessa forma ética e chamar a atenção para o legado de Gide: que foi a lição de que a adesão incondicional a um ideal é algo perigoso, Sartre ocupa um lugar de destaque na intelligentsia francesa nos quadros da Libertação do país da ocupação nazista.
A pessoa de Sartre era enigmática. Era reconhecido pela sua simplicidade e por distribuir gentilezas, o que contrastava com a predominante arrogância ostentada pela maioria dos homens de letras da França. Fumante inveterado, Sartre parece que além de feio, era desprovido de beleza. Porém, de miúdo e vesgo, logo se transformava em um sedutor orador quando falava com desenvoltura sobre literatura, teatro e filosofia. Enfim, na excelente frase de Michael Winock, em O século dos intelectuais, o filósofo “queria ser Vitor Hugo; tornou-se Jean-Paul Sartre” (p. 513). Até os desfechos da II Guerra, Sartre ostentava uma postura política apática e individualista, porém já marcada por um temperamento anarquista no qual a moral e a hipocrisia burguesa são sempre denunciadas em seus textos.
Ao entrar no Partido Comunista, juntamente com intelectuais importantes como Merleau-Ponty, sua companheira Simone de Beauvoir e Raymond Aron e fundar a revista Tempos modernos, Sartre irá publicar desde sua obra prima de filosofia existencialista chamada O ser e o nada até distribuir panfletos nas portas de fábricas. A noção de engajamento e responsabilidade intelectual é a todo momento evocada pelo escritor, pois para Sartre toda arte é utilitária. Mesmo os defensores da noção aristocrática da arte pela arte, sem orientações sociais e políticas, também estão engajados com um determinado ponto de vista. Assim, Sartre também constrói uma auto imagem polêmica diante do padrões morais de seu tempo, quando desfila em clubes de jazz ao lado de Simone e de vários amigos que são sustentados por eles. Enfim, Sartre passa a ser o guru de um existencialismo não apenas filosófico, mas também social. Toda uma geração de jovens universitários pelo ocidente irá querer fumar, se vestir, falar, beber à parisiense e se engajar como Sartre.
Um dos capítulos da história dos intelectuais mais célebres do século 20 é a amizade, que acabou em diatribe, entre Albert Camus e Sartre. Camus conheceu Sartre em um momento brilhante de sua carreira de escritor, pois já estava colhendo os frutos do reconhecimento pelos romances O Estrangeiro, traduzido para mais de 40 idiomas e adaptado para o cinema em 1967 e pelo belo ensaio Mito de Sísifo. Em O estrangeiro, temos uma narrativa preenchida por um realismo absurdo e grotesco, na Argélia ocupada pela França, no qual o personagem Meursault comparece ao funeral da mãe, mas não demonstra emoções. Em seguida, em meio a um delírio psicótico, mata um árabe a tiros. Meursault é preso e, em meio ao seu julgamento, o fato mais decisivo para sua condenação é o fato de não ter chorado no enterro da mãe, mas do que ter cometido um homicídio. Esse romance de Camus abre uma discussão sobre a irrelevância da existência humana diante da imensidão do universo.
Em o Mito de Sísifo, Camus recorre ao mito grego no qual Sísifo é obrigado há todos os dias carregar uma enorme pedra até o cume de uma montanha para no final, vê-la despencar e, assim, ter de recomeçar seu trabalho. Camus remete ao trabalho executado pelos operários nas fábricas modernas e a literatura russa para explanar sobre o absurdo da existência humana. Será que a única forma de se atingir a plenitude seria o suicídio? Embora houvesse leitores que chegaram a essa conclusão ao ler o ensaio de Camus, minha opinião é que o texto de Camus é repleto de esperança na humanidade na medida em que a firmeza humana com a qual Sísifo executa todos os dias seu trabalho interminável o torna mais forte que a pedra que tem de carregar. A plenitude não estaria na morte, mas na revolta. Revoltar-se é também um trabalho de Sísifo, algo interminável e que tem produzido grandes manifestações redentoras.
Sartre também tinha produzido a obra-prima da filosofia existencialista nominada O ser e o nada. Trata-se de um volumoso e denso livro no qual Sartre questiona o principal dogma cristão de que o homem é imagem e semelhança de Deus. Se nada éramos antes de nascer, quando morremos voltamos a ser nada. Para Sartre, somente diante da angústia e do desespero, é que a existência pode atingir sua plenitude. Daí o filósofo recorrer a sua erudição para demonstrar como uma série de grandes estudos e obras artísticas só foram produzidos por seus autores em condições psicológicas e materiais precárias. Por ter elaborado um verdadeiro elogio da misantropia, o livro de Sartre foi apelidado de “a bíblia dos suicidas”.
Vale destacar o comportamento simples de Camus. De fato, o escritor, apesar de ter um estilo literário denso, gostava de conversas irreverentes e licenciosas. Os amigos de Camus se referiam a fisionomia do escritor como a de um caminhoneiro refinado, pois o mesmo também detestava grosserias. Assim, o escritor de origem proletária Camus, rejeitado pela academia por ser tuberculoso e o filósofo pequeno-burguês Sartre, aclamado por toda uma geração de acadêmicos, parecem ser completar a partir das suas diferenças.

O problema é que Camus desenvolveu uma corrente que embasou os ideais da esquerda liberal e democrática e Sartre aderiu com todas as suas energias ao Partido Comunista, que era de matriz stalinista. Nessa época, somente os russos da União Soviética foram capazes de causar a primeira derrota significativa do exército alemão na cidade de Stalingrado. Diante do bilateralismo dos Estados Unidos e da impotência francesa, a Rússia emergia como a grande referência militar na Europa que estava enfrentando os nazis.
A partir de então, Sartre considerará que as teses sobre a revolta do homem embasam apenas o egoísmo pequeno-burguês e Camus irá questionar o filósofo na medida em que refutou a ideia de que somente a revolta política e engajada é válida. A revolta existencial também se fazia necessária, para Camus. O escritor argelino morreu em um trágico acidente de carro, anos mais tarde, sem ter reatado a amizade com Sartre.
Sobre o enlace entre Sartre e Simone de Beauvoir, apesar da escritora ter uma vida acadêmica intensa possuía uma postura bastante indiferente em relação ao engajamento político. O fato é que Simone transitava em meio aos jovens intelectuais da Sorbonne e acabou se apaixonando por Sartre. O romance entre Sartre e Simone é marcado por uma amizade radiante e por uma distinção entre o amor cúmplice e suas necessidades contingentes. Dito da forma mais clara possível: Sartre e Simone possuíam uma relação aberta, mas não sem conflitos ou angústias.
Nutrida por uma ânsia de ser autêntica, Simone passa a estudar por horas a fio e a teorizar sobre suas escolhas emancipatórias, enquanto mulher. Quando publica a obraO segundo sexo, causa escândalo mesmo entre intelectuais de vanguarda, como Camus, por exemplo, que considerou o livro uma afronta para o status do macho francês. Simone tanto explora as relações históricas que culminaram com a exclusão da mulher da esfera pública pelo conservadorismo da sociedade burguesa, bem como fala abertamente sobre os desejos, fetiches e intimidades femininas de forma crua. Mas Simone, que era mais marxista do que feminista, não abominava os homens. Pelo contrário. É tanto que em uma carta a seu amante Nelson Algren, acaba confessando que adoraria se comportar como uma mulher tradicional ao seu lado, do tipo que compra bolos e faz a faxina da casa. Na verdade, se Simone escolheu não ser “nem um animal de luxo ou um animal de carga”, quem poderá condená-la por ser humana, demasiadamente humana?
A revista Tempos modernos, em 1950, reconhece o horror perpetrado pelos campos de concentração soviéticos, mas ainda luta contra o anticomunismo. Assim, Sartre vivencia uma grande crise pessoal ao ser um sujeito que despreza o individualismo burguês, mas que cresceu em meio a uma família que cultivava esse valor e tenta conciliar sua face de militante com a de filósofo. Por suas origens abastadas, Sartre é duramente criticado por Raymond Aron quando este pronunciou que a fé do filósofo em uma ideal humanitário irrealizável o conduziu ao ódio e ao desprezo pelos homens vivos e concretos. Ainda rompido com Camus, só em 1960, após a morte deste, é que Sartre busca reconciliar-se com a memória do escritor argelino. Em face da divulgação dos crimes de Stalin, Sartre acaba preferindo torna-se acrítico a anticomunista.
A imprensa da época divulgou o quanto o enterro de Sartre, em 1980, foi comovente. O principal adversário do filósofo, Raymond Aron, irá se referir de forma elogiosa a Sartre quando o considera um moralista que acabou se perdendo na selva da política. Aron morreu pouco tempo depois, em 1983, de ataque cardíaco. Então, Aron e Sartre, que protagonizaram duelos ásperos, são, na verdade, duas faces de uma mesma moeda: a do intelectual que personaliza uma época.
Nesse mesmo contexto turbulento, a figura polêmica de Foucault emerge. Transitando entre a França e a Califórnia, onde milita no movimento gay, o filósofo francês encarna uma postura antifascista e antistalinista e, como, definiu em uma entrevista publicada recentemente em português, nos Ditos e escritos, a função de um intelectual não é dizer aos outros o que é certo ou errado para suas vidas, mas organizar disciplinas para a partir das leituras e debates, as próprias pessoas fazerem suas escolhas políticas. É o fim do intelectual engajado e o nascimento do intelectual transdiscursivo e do educador anônimo. Bem, mas essa já é outra história.
Artigo da autoria de Joachin Azevedo.
Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
Saiba como fazer parte da obvious.

Os interesses em jogo no projeto sobre novos partidos

veja.com

Dilma Rousseff: quanto menos adversários, melhor


Lançada candidata à reeleição pelo ex-presidente Lula, Dilma Rousseff determinou que sua base na Câmara dos Deputados aprovasse com urgência o projeto de lei que sufoca a criação de novos partidos políticos. A presidente quer aniquilar as chances de criação de novas siglas para evitar que as legendas deem apoio ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pré-candidato à presidência da República pelo PSB. As articulações também afetam diretamente a ex-senadora Marina Silva, que trabalha na coleta de assinaturas para a criação da Rede Sustentabilidade de olho na sucessão de Dilma.

Eduardo Campos: em busca de novos aliados

Provável candidato à Presidência da República em 2014, o presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, atuou como um dos principais incentivadores da fusão entre PPS e PMN e chegou a oferecer assessoria jurídica para a criação do novo Mobilização Democrática. A ideia de Campos, que é também governador de Pernambuco, é atrair o máximo de legendas e, com isso, conseguir tempo suficiente na propaganda eleitoral para tentar fazer impedir o favoritismo de Dilma Rousseff. Com mais partidos e candidatos, o socialista trabalha também para que a corrida presidencial possa chegar ao segundo turno.

Gilberto Kassab: feitiço contra o feiticeiro

O ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab se beneficiou diretamente da falta de restrição à criação de novos partidos políticos e conseguiu viabilizar há dois anos a criação do PSD. Presidente nacional da legenda, o político conseguiu esvaziar os quadros do DEM, de quem ele próprio é egresso, e montar a expressiva bancada de 48 deputados federais. Para que a sigla não ficasse à míngua, com apenas a parcela mínima dos recursos do fundo partidário, Kassab teve de recorrer à Justiça para conseguir que os deputados que migraram para a legenda tivessem peso na partilha do fundo partidário e do tempo de TV. Agora, temendo ser vítima da mesma estratégia que aplicou no passado, articulou pela aprovação do projeto de lei que restringe a criação de novas agremiações. Mais: ameaça recorrer à Justiça caso algum dos filiados do PSD deixe a legenda para se engajar nos quadros do novo Mobilização Democrática (MD).

Roberto Freire: pressa para criar nova sigla

Presidente do recém-lançado partido Mobilização Democrática (MD), resultado da fusão entre PPS e PMN, Roberto Freire se aproximou do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), para tentar revitalizar na nova sigla duas legendas que beiravam a inexpressividade no Congresso. Com uma bancada de 13 deputados federais, o MD espera dobrar seu tamanho na Câmara.

Marina Silva: projeto sufocado

Com 20 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais, Marina Silva se movimenta para tentar criar o Rede Sustentabilidade. A ex-senadora já amealhou quase 130 000 assinaturas das 500 000 necessárias para criar a legenda. Com a aprovação do projeto de lei na Câmara – o texto ainda precisa ser analisado pelo Senado – o Rede, quando obtiver o registro oficial, ficaria com apenas a fração mínima destinada a todos partidos políticos e onze segundos de propaganda eleitoral na televisão. Marina e seus aliados estudam recorrer à Justiça para que as restrições aos novos partidos não entrem em vigor.

Paulinho: partido dos governistas insatisfeitos

Presidente da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) está na reta final de coleta de assinaturas para a criação do Partido Solidariedade, mais uma legenda que entraria nas negociações por alianças nas eleições presidenciais de 2014. O Solidariedade nasceria para abrigar uma leva de insatisfeitos com os atuais partidos políticos e com o governo Dilma Rousseff. Embora ainda não tenha o partido formado, Paulinho pretende assinar conjuntamente os recursos contra a restrição a novas agremiações políticas quando o caso for levado ao STF e fazer coro contra o projeto de lei.
 

Partido de Marina agora depende de cartada jurídica

Política

A Rede vai entrar com recurso no Tribunal Superior Eleitoral para validar as 90 mil assinaturas que foram recusadas e, assim, cumprir os requisitos a tempo de registrar a legenda

Senadora Marina Silva durante entrevista em 2009
Senadora Marina Silva durante entrevista em 2009 ( Sérgio Lima/Folha Imagem)
Faltando apenas vinte dias para o prazo final para obter registro no Tribunal Superior Eleitoral, a Rede Sustentabilidade, partido ligado à ex-senadora Marina Silva, já admite que não conseguirá cumprir o requisito de 492 000 assinaturas validadas de eleitores. Para formalizar a criação do partido, o grupo prepara uma última cartada jurídica.
Na quarta-feira, quando apresentar um lote de 150 000 assinaturas, o partido irá alcançar pouco mais de 450 000 fichas de apoio certificadas -- vão faltar, portanto, cerca de 40 000 adesões para o mínimo necessário estabelecido pelo TSE. Por isso, a Rede irá entrar com um recurso na instância máxima da Justiça Eleitoral pedindo para que sejam validadas cerca de 90 000 assinaturas que foram recusadas pelos cartórios eleitorais sem justificativa.
Nesta semana, a ministra relatora do caso, Laurita Vaz, encaminhará o processo para o Ministério Público Eleitoral. O órgão tem dez dias para analisar o pedido e deve recomendar que o registro seja concedido somente se todos os requisitos legais tiverem sido cumpridos.
O discurso adotado pela Rede desde que deu entrada com o pedido no TSE, em 26 de agosto, é de que a sigla foi vítima da lentidão e da burocracia da Justiça Eleitoral. Alegam que os cartórios descumpriram o prazo de quinze dias para analisar as assinaturas e que a quantidade de fichas rejeitadas ultrapassou os níveis aceitáveis em estados estratégicos, como São Paulo.
Nos bastidores, porém, articuladores da Rede começam a admitir que, se a decisão de criar a legenda tivesse sido tomada antes, os obstáculos na reta final seriam menores.
Um dos integrantes da executiva provisória da Rede, que não revelou sua identidade, afirmou que foi Marina Silva quem convenceu o grupo a não criar antes o partido. Segundo o organizador da legenda, o "timing" foi considerado o mais democrático pela ex-senadora e ex-candidata à presidência.
Meditação – Os parlamentares que pretendem migrar para a Rede, nova legenda que aguarda confirmação, recorrem até a meditação para tentar controlar a ansiedade. 
"É correto a Rede não ser criada por um problema que é da própria Justiça?", pondera o deputado Walter Feldman (PSDB-SP), um dos articuladores da criação da Rede. "Temos provas de que fomos prejudicados. Centenas de fichas foram recusadas de forma equivocada", diz Feldman.
A nova legenda tem como principal expoente a ex-senadora Marina Silva, possível candidata à presidência da República em 2014. Para que Marina entre na briga eleitoral do ano que vem pela Rede, o partido deve ter registro confirmado pelo TSE até o próximo dia 5 de outubro, prazo final estabelecido pela Justiça Eleitoral. "O tempo está curto. Agora é fazer meditação e não deixar se consumir pela ansiedade", disse o deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ), que também deve migrar para o Rede.
Segundo os parlamentares, Marina não sinalizou, até o momento, um possível plano B caso a Rede não tenha o registro confirmado. O prazo para a ex-senadora se filiar em um outro partido também expira no mesmo dia 5 de outubro. Nesta segunda-feira, integrantes da legenda fazem uma reunião em Brasília para discutir o andamento do processo no TSE. 
(Com Estadão Conteúdo)

segunda-feira 16 2013

Investigação liga mulher de ministro do Trabalho a convênios irregulares

 Por Andreza Matais e Fábio Fabrini, estadao.com.br
veja.com
Como secretária estadual em Santa Catarina, Dalva Dias repassou recursos a 3 entidades, uma delas ligadas ao PDT



Investigação liga mulher de ministro do Trabalho a convênios irregulares
"'Tudo foi feito com a maior lisura', disse mulher do ministro do Trabalho"
BRASÍLIA - No mesmo dia em que a Polícia Federal prendeu três funcionários do Ministério do Trabalho acusados de desviar recursos da pasta, o Tribunal de Contas de Santa Catarina decidiu pedir ao Tribunal de Contas da União investigação de denúncias que ligam a mulher e o chefe de gabinete do ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias (PDT-SC), a irregularidades em convênios abastecidos por dinheiro do ministério em Santa Catarina. O Estado é a base eleitoral de Dias.

Relatórios do órgão apontam suposto dano ao erário e favorecimento de três entidades, uma delas ligada ao PDT, em parcerias de R$ 2,1 milhões, firmadas nas gestões de Dalva Maria de Luca Dias, como secretária estadual de Assistência Social, Trabalho e Habitação do Estado, e Rodrigo Minotto, então coordenador do Sistema Nacional do Emprego (Sine) no Estado.
Dalva Dias, atual presidente do PDT em Florianópolis (SC), foi secretária estadual de maio de 2007 a julho de 2010. Rodrigo Minotto, o chefe de gabinete do ministro, ocupou vários cargos públicos indicado por Manoel Dias, entre eles o de superintendente regional do Trabalho em Santa Catarina.
Na última segunda-feira, o TCE-SC determinou o envio das auditorias e da documentação dos convênios ao TCU, que fiscaliza e pune irregularidades no uso de verbas federais. Dos R$ 2,1 milhões previstos, 83% vinham do Ministério do Trabalho, na época comandado por Carlos Lupi (PDT-RJ), padrinho político de Dias, que liderava o partido em Santa Catarina.
O TCU já havia deliberado apenas sobre formalidades da contratação das três entidades por dispensa de licitação, o que considerou legal. Mas diante de novas constatações, como eventual dano aos cofres públicos, informou ao Estado que voltará a avaliar o caso e, se necessário, aprofundará as investigações.
Até o início das investigações pelo Tribunal de Contas de Santa Catarina, em 2008, ao menos R$ 1,5 milhão havia sido repassado às entidades. Cabia a elas dar cursos profissionalizantes variados a trabalhadores, de vigia a costureiro, por meio do Programa Estadual de Qualificação Profissional, mantido pela secretaria e executado pelo Sine.
Segundo o TCE-SC, houve aprovação de despesas sem "caráter público", "ilegítimas e genéricas". Os auditores constataram que nem sequer houve menção aos tipos de aula que as contratadas dariam no edital de convocação das entidades. "Quais critérios foram adotados para a escolha? Se não havia nos autos esses elementos mínimos, pergunta-se: como a secretaria distribuiu entre os institutos os cursos que pretendia contratar?", questiona um dos relatórios. As disciplinas e os materiais necessários foram apresentados pelos institutos contratados, e não pela secretaria, que demandava os serviços.
Destino de R$ 393 mil em pagamentos, o Instituto Wilson Picler é do ex-deputado federal pelo PDT Wilson Picler. A entidade chegou a gastar R$ 16 mil com a compra de 82 bicicletas para distribuir como brindes. Para os auditores, "despesa que não possui caráter público". A defesa da ex-secretária alegou, porém, que as bicicletas foram compradas pelo instituto sem consentimento da pasta.
DETALHES
As auditorias mostram que as despesas eram genericamente descritas. Na proposta de preços da Associação de Desenvolvimento Econômico, Social e Cultural de Santa Catarina (Adesc), gastos de R$ 196,8 mil, aprovados por Dalva, aparecem como "outros materiais necessários". A entidade recebeu R$ 836 mil. Na Amea, contemplada com 362 mil, ao menos R$ 82,4 mil foram apresentados como "kit material", "diversos" ou "matérias-primas".
Ao todo, a secretaria autorizou ou fez gastos de quase R$ 400 mil indevidamente, segundo o TCE-SC. O órgão, porém, focou sua análise só nos recursos estaduais dos convênios.
As irregularidades foram apuradas em 2008 e confirmadas em mais dois relatórios, mesmo após esclarecimentos de Dalva e Minotto. "As alegações de defesa e documentos apresentados são insuficientes para elidir todas as irregularidades", concluíram os auditores.
O tribunal catarinense diz que só aguarda a assinatura de suas autoridades para remeter o processo ao TCU. Na decisão tomada na última segunda-feira, entendeu que a responsabilidade pela apuração de danos e aplicação de punições é do órgão federal, pois a maior parte dos recursos dos convênios é proveniente da pasta do Trabalho.

Megaoperação é realizada para desvirar Costa Concordia

Navio naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália


Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

Começou nesta segunda-feira (16) a operação de engenharia, sem precedentes na história, para endireitar o Costa Concordia, o gigantesco navio de cruzeiro que naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas no litoral da ilha de Giglio, no centro da Itália

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

O navio está encalhado perto da ilha de Giglio, no centro da Itália, desde o dia do acidente, em 13 de janeiro de 2012

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

A operação de 'parbuckling', que fará a rotação de 65 graus para que o navio volte a ficar em posição vertical, começou com algumas horas de atraso devido a um forte temporal que aconteceu durante a noite na região

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

A operação será realizada pela sociedade americana Titan Salvage e pela italiana Micoperi e custou 600 milhões de euros à empresa Costa Cruzeiros, dona da embarcação

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

Cerca de 500 pessoas trabalharão para devolver o navio à posição vertical em cerca de 12 horas, conforme o previsto

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

O comissário extraordinário para a emergência do Costa Concordia e chefe da Defesa Civil italiana, Franco Gabrielli, afirmou que a prioridade após endireitar o cruzeiro será a busca de dois corpos que ainda não foram recuperados: o da passageira Maria Grazia Trecarichi e o do integrante da tripulação Russel Rebelli

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

O cruzeiro será retirado do local somente no ano que vem, quando começará sua viagem final até um porto próximo, no qual será feito seu desmantelamento

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

A operação de 'parbuckling' é considerada uma fase muito delicada, na qual as forças têm de ser compensadas para evitar a deformação ou rompimento do casco

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

Quando o cruzeiro estiver na posição vertical se passará para a fase seguinte, com a instalação de 15 boias estabilizadoras, iguais as já instaladas na parte esquerda do casco

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

Mais de 4.000 pessoas estavam a bordo quando o navio naufragou em janeiro de 2012

Navio Costa Concordia naufragou há quase dois anos, causando a morte de 32 pessoas na Itália (© AP)

Mais de 500 jornalistas de todo o mundo foram até o local para acompanhar ao vivo a operação que vai desvirar a embarcação de 44.600 toneladas, 290 metros de comprimento e cerca de 70 metros de altura

Gustavo Ioschpe: devo educar meus filhos para serem éticos?

Educação

Gustavo Ioschpe
HANNAH ARENDT -  “Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”
HANNAH ARENDT -  “Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”      (Getty Images)
Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.
Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.
Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.
Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.
Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.
Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.
Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...
Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá. 

Mensalão no STF vira 'jogo de xadrez'

Por Felipe Recondo e Ricardo Brito, estadao.com.br
Com eventual prorrogação do julgamento, tribunal pode anular condenações, reduzir penas e mudar interpretação sobre cassações



A retomada do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, na próxima quarta-feira, abrirá uma nova etapa do processo que há 8 anos tramita na Corte se o ministro Celso de Mello votar favoravelmente - como sinalizou - à possibilidade da reanálise de crimes de 12 dos 25 condenados. Aceitos os embargos infringentes, o caso deve se transformar numa espécie de "jogo de xadrez".
Pelas manifestações recentes dos ministros, as condenações por quadrilha podem ser revertidas, penas impostas a determinados réus podem ser reduzidas e a decisão sobre a cassação imediata dos mandatos dos deputados envolvidos, alterada.
Ministros contrários ao novo julgamento não necessariamente votarão pela manutenção de todas as condenações e penas. A ministra Cármen Lúcia, por exemplo, foi contrária à admissibilidade dos chamados embargos infringentes, mas julgou, no ano passado, não haver provas para condenar os réus por formação de quadrilha e considerou que o STF não tem poder para cassar mandatos de deputados condenados.
Por essa posição, ela se perfilará aos ministros que agora votaram a favor dos embargos - Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Rosa Weber, Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso. Os dois últimos, apesar de não terem participado do julgamento no ano passado, já encamparam as mesmas teses sobre quadrilha e perda de mandato.
Na soma dos votos, o tribunal poderá reverter a condenação de oito réus acusados de formação de quadrilha, dentre eles o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.
Da mesma forma, a decisão do tribunal no julgamento do mensalão de ordenar ao Congresso a cassação imediata dos parlamentares condenados seria revertida. Cármen Lúcia também se alinha, nesse tema, aos ministros que votaram a favor dos embargos infringentes e que entendem que compete à Câmara cassar os mandatos.
Além de Cármen Lúcia, o ministro Marco Aurélio votou contra a possibilidade de nova chance para os réus do mensalão, mas admitiu reduzir as penas nas últimas semanas, quando o tribunal julgou os primeiros recursos. Marco Aurélio poderia, na nova fase do processo, votar novamente pela redução das penas. Dependendo da mudança, penas dos condenados podem prescrever. A queda de punições levaria réus como Dirceu e Delúbio a um regime de cumprimento de pena mais favorável: de inicialmente fechado, em que têm de passar o dia inteiro na cadeia, para o semiaberto, no qual são obrigados apenas a dormir na penitenciária.
Barroso já criticou o cálculo das penas para parte dos réus, mas não quis, nos primeiros recursos, alterá-las. Na nova fase do julgamento, pode abandonar a contenção e propor também a diminuição das penas. A mesma postura deve ter o ministro Teori Zavascki.
Em 2012, Celso de Mello foi dos mais enfáticos ao defender a condenação dos réus. Mesmo aceitando os embargos, como indicou, poderá manter o peso das condenações.