domingo 18 2013

“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe” (Nutrição)

As dificuldades econômicas  sentidas um pouco por toda a sociedade, vieram redefinir o conceito do “essencial” na alimentação. Até que ponto será possível optimizar o aporte nutricional com pouco dinheiro?

[IMAGEM DE CAPA] FoodRevolution-31_600
O contexto de crise econômica global em que vivemos veio condicionar, em grande medida, a qualidade e o modo como a população portuguesa se alimenta. E não precisamos de estudos (embora existam) que atestem a verosimilhança do fenômeno  pois de algum modo já testemunhamos ou experimentemos algum tipo de restrição, em maior ou menor escala. As enfermarias hospitalares, por exemplo, oferecem uma amostra preocupante quer do estado nutricional, quer das consequências do seu depauperamento para a saúde e para a convalescença de outras condições patológicas. No internamento, e sobretudo entre os idosos, não é raro encontrar valores séricos de proteínas reduzidos, o que constitui risco aumentado de desenvolvimento das tão frequentes úlceras de pressão, bem como vêm comprometer os processos de cicatrização; por outro lado, sobre certos tipos de anemias se pode aferir um aporte nutricional deficiente (Ferro, Ácido Fólico, Vitamina B12). O leque é vasto, mas discreto. E poderíamos continuar.
Contudo, será a crise econômica o primo moves dos desequilíbrios nutricionais que hoje testemunhamos, ou estaremos perante o final do paradigma das últimas décadas, sustentado no binômio marketing/oferta-procura? Segundo a Professora Doutora Isabel do Carmo, médica endocrinologista do Hospital de Santa Maria, que trabalha no âmbito da obesidade e comportamento alimentar, “Portugal come mal. E comer mal não é só não ter o que comer, mas também fazer más escolhas alimentares”.

Back to the basics: a responsabilidade do marketing

A acompanhar as transformações nos hábitos da população, também a indústria começa a adaptar, se não os seus moldes de produção, seguramente os moldes de campanha. Um pouco por todo o lado se vai redefinindo o conceito de “essencial”, sugestionando assim uma hierarquia de prioridades no consumo alimentar, que nem sempre vai de encontro às reais necessidades das famílias: ficam de fora nutrientes cuja ausência crônica se prevê que tenha impactes na saúde; e incluem-se outros, excedentários, deixando a ilusão de suprimento e repleção. Analisemos alguns exemplos: uma conhecida cadeia de supermercados organiza uma campanha promocional com os produtos que, segundo a mesma, “não podem faltar à sua mesa”. Nesse catálogo encontramos, entre outras poucas coisas, arroz branco, massa e batata (a representar o núcleo energético de hidratos de carbono), pão branco, frango, peixe congelado, enlatado e ovos (secção mais proteica), legumes congelados e couve (a representar os hortícolas), óleo alimentar e azeite refinado (gorduras), salsichas e refrigerante.
O ciclo oferta-procura-oferta é complexo, mas se no lado da procura analisarmos os factores com maior influência na escolha alimentar, teremos um vislumbre de parte do problema. Foi o que fez o estudo “Alimentação e Estilos de Vida da População Portuguesa”, planeado e promovido pela Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação (SPCNA), com o apoio da Nestle, “no âmbito de um protocolo de mecenato científico entre as duas instituições”, que avaliou 3529 portugueses com mais de 18 anos. Quando inquiridos sobre os factores determinantes na dieta, surge à cabeça o “sabor dos alimentos” (53%), seguido a alguma distância por “preço” e “tentar fazer uma alimentação saudável” (este último de forma marcada no sexo feminino). Daqui se pode inferir a importância do prazer nas refeições, moderadamente espartilhada pela consciência do peso da alimentação no estado de saúde.
[imagem 1] Factores determinantes na escolha alimentar

Campanhas de recolha de alimentos: o que doar?

Promovidas por vários movimentos mais ou menos organizados a nível local ou nacional, as campanhas de recolha de alimentos têm conhecido um reflorescimento, cumprindo o propósito de redistribuir os recursos e evitar o desperdício (re-food.org), ao fazer chegar os alimentos a quem deles precisa, e ao estimular a participação colectiva nas doações.
Um dos principais motores na área, o Banco Alimentar Contra a Fome, para além das grandes campanhas de recolha em supermercados realizadas duas vezes por ano, regista da sua última campanha online (alimentestaideia.net) a recolha de 113 toneladas de alimentos. Entre os donativos estão azeite, óleo, atum enlatado, leite, salsichas e açúcar branco. Sugerem-se também as farinhas lácteas para crianças e adultos, pela suplementação em vitaminas e minerais, e as leguminosas secas ou entaladas como feijão ou grão (pelo teor proteico e em fibras). As escolhas incidem, naturalmente, em produtos não perecíveis, de baixo custo, fácil acondicionamento e prazo de validade alargado, num complicado balanço entre o necessário e o possível. Poderá o possível ser melhor, gastando pouco?
[IMAGEM 2] banco alimentar contra a fome

“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”

É mais difícil controlar o balanço de nutrientes que se ingere quando a oferta se resume, maioritariamente, a matérias sobre processadas  Razão pela qual pensamos nas coloridas prateleiras de cereais de pequeno-almoço quando nos perguntam “que cereais come?”, em leite e iogurtes quando se fala em cálcio, em carne para “não cair em anemia”, ou limitamos o potencial energético do nosso prato a uma de três escolhas: “arroz, massa ou batatinha?”.
Pensando nos cereais, sabe-se que foram desde muito cedo a base da alimentação. Quando deles se começaram a produzir farinhas, faziam-se as chamadas “papas” de milho, trigo, mandioca, arroz, entre muitos outros. Acontece que esses cereais eram consumidos na sua forma integral, isto é, sem a refinação que hoje industrialmente se faz para remoção das camadas mais externas, farelo e gérmen, onde se encontram as vitaminas (complexo B), minerais, fibra e ácidos gordos (ômegas 3-6), consumindo-se apenas o endosperma, meramente rico em hidratos de carbono. Quanto aos tais “cereais de pequeno-almoço”, como seria de esperar, sobre o risco-benefício as posições são controversas (afloc.eu) .
Também as leguminosas parecem ter um consumo aquém do recomendado (observatorioagricola.pt). Feijão, grão, lentilhas, favas ou ervilhas podem oferecer o complemento perfeito numa refeição, uma vez que constituem fonte não só de fibra como de proteína (aminoácido essencial lisina, que com o aminoácido essencial metionina, presente preferencialmente no arroz integral, constitui uma refeição mais completa de proteína).
Frutos e hortícolas  que deveriam ser consumidos preferencialmente frescos, além de apresentarem uma redução no consumo, quando utilizados aparecem “mascarados” nos pratos, excessivamente cozinhados, com perdas vitamínicas importantes no processo de cozedura.
[IMAGEM 4] rodas dos alimentos portuguesas
Não nos querendo isolar na perspectiva nutricional, importa pensar nos custos que alterações como estas comportam. A oferta em alimentos integrais está à sombra dos refinados em quantidade e com algum agravamento no preço. Contudo, se pensarmos no preço ao quilo e no facto de um alimento mais completo dispensar outros acessórios, talvez faça sentido repensar a escolha. Quanto às leguminosas e aos vegetais, a tônica não parece ser tão justificada pelo preço como por uma certa ideia de os vegetais serem “figurantes” no prato.
No fim de contas, sempre podemos comer feijão com arroz como se fôssemos príncipes. E afinal nem estaremos assim tão mal servidos.

Relatório que compromete PT e Lewandowski será analisado por Cármen Lúcia

Política

Ministra vai decidir se investiga ou não a ação do ministro Ricardo Lewandowski no caso do sumiço de documentos que comprometiam o PT e Dilma Rousseff

Rodrigo Rangel
DILEMA - Uma sindicância colheu depoimentos de servidores que denunciaram a intervenção indevida do ministro Lewandowski
DILEMA - Uma sindicância colheu depoimentos de servidores que denunciaram a intervenção indevida do ministro Lewandowski      (Nelson JR/STF)
A ministra Cármen Lúcia, há sete anos no Supremo Tribunal Federal (STF), é conhecida por não se envolver nas ruidosas contendas que com frequência fazem pesar o ambiente na mais alta corte do país. Mineira, ela corre de confusão. Na quinta-feira da semana passada, por exemplo, enquanto seus colegas Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski discutiam com dedo em riste ao final de mais uma sessão destinada a julgar os recursos dos mensaleiros, a ministra apressou-se em sair da sala contígua ao plenário onde o bate-boca se desenrolava. Agora, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia está diante de um dilema que porá à prova seu hábito de evitar divididas. Na semana passada, VEJA revelou que o TSE sumiu com pareceres técnicos que sugeriam a reprovação das contas do PT no período do mensalão e da campanha da presidente Dilma Rousseff - e que o desaparecimento de tais documentos ocorreu por interferência direta de Lewandowski, então presidente do tribunal. A pressão exercida pelo ministro consta do relatório final de uma sindicância realizada pelo próprio TSE cujo resultado está nas mãos de Cármen Lúcia. Caberá a ela decidir o que fazer diante da revelação: adotar providências para passar o episódio a limpo ou deixar que o caso fique como um estranho mal-entendido.

Nas 10 'piores' capitais,gasto bate 78,5% do limite

 Por BRASÍLIA, estadao.com.br
Um recorte sobre gastos com pessoal nas dez principais capitais do País, cujos dados estão disponíveis no sistema...



Um recorte sobre gastos com pessoal nas dez principais capitais do País, cujos dados estão disponíveis no sistema do Tesouro Nacional, mostra uma situação menos comprometida das contas com essas despesas permanentes. Na média, esse "G-10", que também vive às voltas com pressões para ampliar investimentos em mobilidade urbana e para oferecer serviços públicos de melhor qualidade, já atingiu 78,5% do limite prudencial permitido pela lei fiscal, que impede que os gastos nessa área ultrapassem os 51,3% das receitas.
Porto Alegre vive a situação mais dramática desse grupo. A cidade tem hoje 47,64% das receitas engessadas com a folha de pagamento. Em 2012, os servidores do Executivo portoalegrense custaram R$ 1,8 bilhão aos cofres públicos. A capital gaúcha chegou, assim, aos 93% do limite permitido em lei.
O secretário da Fazenda da capital gaúcha, Roberto Bertoncini, explica que a despesa com pessoal tem aumentado em função do crescimento vegetativo da folha. "Tem adicional, gratificações, quinquênios, aposentadorias e reposição de pessoal", explica.
A média das despesas de pessoal em relação às receitas, nesse "G-10", está em 40,25%, segundo os relatórios de gestão fiscal. "A receita não cresce porque a economia está andando de lado. Nós, que dependemos da arrecadação própria, ainda temos espaço. Mas quem depende só de FPM está complicado", avalia Bertoncini.
A prefeitura gaúcha diz que prepara medidas de contenção de gastos e espera um salto nas receitas com a adoção da nota fiscal eletrônica e do recadastramento de 100 mil imóveis./ M. Z.

Tocantins faz corte radical para conter inchaço da folha

 Por estadao.com.br
Com a folha de pagamento dos servidores chegando a quase 50% da receita líquida corrente, acima do permitido pela...



Com a folha de pagamento dos servidores chegando a quase 50% da receita líquida corrente, acima do permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o Tocantins extinguiu no início deste mês os 4.751 cargos comissionados, dando nomenclatura diferente a 3.485 deles para poder reduzir em 10% os respectivos salários. Na prática, a proposta acabou com 1.266 cargos.
Como parte das medidas, o governador Siqueira Campos (PSDB) também enviou à Assembleia projeto de lei para diminuir em 25% seu próprio salário; 20%, o do vice, e 10% os dos secretários. Outra medida em estudo é a fusão de secretarias e autarquias. / CÉLIA BRETAS TAHAN, ESPECIAL PARA O ESTADO

Com Haddad, Operação Delegada da PM cai à metade e camelôs invadem SP

Por Artur Rodrigues, estadao.com.br
Efetivo de projeto da Prefeitura passou de 3.439 para 1.853 PMs no primeiro semestre e lojistas da região central já reclamam de falhas na fiscalização do comércio de rua; Segurança Pública diz que faltam 'condições mínimas' para ampliar parceria



O número de policiais militares contratados pela Operação Delegada da Prefeitura de São Paulo caiu pela metade desde o início da gestão Fernando Haddad (PT). Vitrine do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) e promessa de continuidade na campanha do petista, o projeto foi desidratado no primeiro semestre e seu contingente teve redução de 3.439 para 1.853 PMs. Com menos policiais na fiscalização, ambulantes tomam as ruas e comerciantes cobram a volta do efetivo.
Criada em 2009, a operação virou uma franquia que já chegou a 17 cidades do Estado e está em processo de implementação em outras 40. Na capital, porém, a relação entre Haddad e o comandante-geral da PM, Benedito Roberto Meira, sempre foi tensa. O petista não queria o foco no combate aos camelôs e tentou fazer com que os PMs trabalhassem à noite na periferia, sem sucesso.
"A (Operação) Delegada caminha para acabar", diz o vereador coronel Alvaro Camilo (PSD), que instalou o programa quando era comandante-geral da PM. Segundo ele, com a redução do efetivo, os policiais não dão conta de fiscalizar o comércio de rua na cidade.
O Estado percorreu vias do centro e constatou grande número de ambulantes mesmo onde ainda há policiais da operação, como nas Ruas 25 de Março, José Paulino e Santa Ifigênia. "Cuidava de um quarteirão. Agora, tenho de cuidar de três. Vira um jogo de gato e rato", diz um PM na Santa Ifigênia.
Na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul, a retirada de 50 dos 67 PMs da operação causou mobilização da associação de moradores Ame Jardins. "Aumentaram as ocorrências de furto e roubo e teve um caso de saidinha de banco", diz João Moradei Junior, diretor da entidade. O grupo cobrou da Prefeitura e os PMs voltaram às ruas da região.
A situação causou polêmica também em outras áreas da cidade. "A gente percebeu que o efetivo vem diminuindo e os camelôs estão voltando", diz Kelly Cristina Lopes, da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Bom Retiro. "Prejudica porque, muitas vezes, os ambulantes estão vendendo o mesmo produto que o comerciante na porta dele e sem pagar imposto."
Os camelôs usam esteiras e caixas de papelão para fugir da fiscalização com velocidade. "Agora, a gente só espanta. Antes, apreendia a mercadoria", diz um soldado da PM. O presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade, Edson Luiz Vismona, diz que a fiscalização foi abandonada. "Em oito meses de governo, a Prefeitura ainda está pensando no que vai fazer", afirma.
A Prefeitura também retirou a Guarda Civil Metropolitana da fiscalização. A gestão Haddad planejava que as duas corporações fizessem um trabalho de patrulhamento comunitário.
Noite. A administração municipal anunciou na última sexta-feira, 16, que abortou a tentativa de colocar a Polícia Militar à noite na periferia na Operação Delegada. Segundo a Prefeitura, os policiais não se interessaram. O principal temor seria a dificuldade de deixar esses bairros no período noturno.
"A população reclamou muito da violência dos policiais. A Operação Delegada não era uma meta nossa de campanha e não é prioridade do governo. Segurança é uma questão de Estado e que o Município contribui na medida do possível", disse a secretária municipal de Planejamento, Leda Paulani.
O número de PMs deve diminuir ainda mais. Nos bastidores, fala-se que a diminuição acontece porque a polícia não apresenta corretamente o nome dos contratados, que passou a ser pedida pela atual administração. Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública afirmou que "a Prefeitura não ofereceu as condições necessárias para o sucesso da Operação Delegada noturna".

sábado 17 2013

Manifestantes acampam em frente à residência de Eduardo Paes

Protesto em 17/8

Manifestantes acampam em frente à residência de Eduardo Paes - 1 (© Marcos de Paula AE)


Ativistas de movimentos de sem-teto e moradores de comunidades ameaçadas de remoção começaram na tarde deste sábado, 17, um ato que promete tornar-se uma ocupação em frente da mansão da Gávea Pequena, residência oficial do prefeito do Rio, Eduardo Paes, no Alto da Boa Vista

Manifestantes acampam em frente à residência de Eduardo Paes - 1 (© Marcos de Paula AE)

'A Secretaria Municipal de Habitação diz que 19,2 mil famílias foram removidas desde 2009', disse Renato Cosentino, membro do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas. O comitê divulgou o ato contra Paes por meio das redes sociais

Manifestantes acampam em frente à residência de Eduardo Paes - 1 (© Marcos de Paula AE)

Faixas de protesto foram fixadas na grade da mansão oficial

Manifestantes acampam em frente à residência de Eduardo Paes - 1 (© Marcos de Paula AE)

Também participam do ato organizações como o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e representantes de associações de moradores de comunidades atingidas, como a Vila Autódromo, em Jacarepaguá, o Morro da Providência, atingido pelas obras de revitalização da região portuária, e Tubiacanga, na Ilha do Governador, perto do Aeroporto do Galeão

Universidade gratuita para aluno rico é aberração brasileira

Gustavo Ioschpe

Em artigo publicado em VEJA desta semana, o economista defende que instituições públicas cobrem mensalidade dos alunos que podem pagar — e concedam bolsas aos que não podem

Gustavo Ioschpe
Alunos do curso de química da USP (Universidade de São Paulo) realizam trote em calouros no primeiro dia de matrícula
Alunos do curso de química da USP (Universidade de São Paulo) realizam trote em calouros no primeiro dia de matrícula ( Alessandro Shinoda/Folhapress)
"Seu Gustavo”, interfonou o porteiro do meu prédio, “o senhor não vai escrever nada sobre esse Mais Médicos?” Perguntei-lhe o que achava de mais essa iniciativa natimorta do governo como resposta às manifestações de junho. “Acho até que os médicos precisam devolver algo à sociedade, mas não sendo forçados a ficar dois anos em hospital público”, respondeu. É uma lógica elementar: em um estado de direito, ninguém pode exercer uma profissão contra a sua vontade. A frase me fez lembrar de uma declaração do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. Quando um cliente recém-absolvido diz não saber como expressar sua gratidão pelos serviços do advogado, a orientação de Thomaz Bastos é simples: “Depois que os fenícios inventaram a moeda, esse problema ficou simples de resolver”. É isso. Existe um modo fácil de garantir que futuros médicos, engenheiros, advogados e estudantes de outras carreiras ressarçam os cofres públicos: cobrar mensalidades de quem pode pagar. Por que criar planos tão mirabolantes, e circunscritos a médicos, se há um modelo mais simples e aplicável a todos?
Há um argumento apontado por quem vai contra essa ideia: as universidades públicas não podem cobrar mensalidades porque tudo que é público precisa ser gratuito. Nenhuma dessas pessoas vai aos Correios e espera mandar um Sedex de graça nem passa em postos da Petrobras imaginando pagar a gasolina com espírito cívico. O fato de algo ser público não tem relação com gratuidade. Se as universidades públicas cobrassem mensalidades, continuariam defendendo interesses públicos. Na maioria dos países desenvolvidos, as universidades públicas cobram mensalidades. Na OCDE, associação dos países desenvolvidos, dezoito membros cobram em suas universidades, incluindo os “neoliberais” Canadá, França, Itália e Japão.
Algumas pessoas tentam desqualificar a cobrança alegando dificuldades práticas. Esse sistema seria muito difícil de implementar, dizem elas. Criaria um grande risco de deixar gente pobre de fora e ainda renderia pouco aos cofres públicos. Ora, se isso fosse verdade, os países com os melhores sistemas educacionais do mundo não o teriam adotado. Em realidade, o modelo é simples: institui-se a cobrança de uma mensalidade, e quem não tem condições de pagá-la procura a sua universidade em busca de abatimento. O desconto pode, inclusive, ser superior a 100%, dando não apenas gratuidade como auxílio de custo a estudantes pobres. Basta levar a sua declaração de renda e a dos pais/responsáveis para comprovar a ausência de renda. A Receita Federal institui recomendações de valor-limite a ser cobrado de acordo com a renda familiar. Com uma simples regra adicional, para não facilitar ainda mais a vida dos sonegadores: quem cursou o ensino médio em escola privada deve pagar pelo menos a mensalidade que pagava na escola. O esquema não renderia pouco, não. Nas últimas semanas fiz o seguinte exercício: com dados cedidos pela Hoper Educação, descobri as mensalidades das universidades privadas top de linha em oito grandes capitais brasileiras para os quinze cursos com mais alunos na graduação. Tomando como base o perfil socioeconômico dos alunos da USP, estimei a porcentagem de alunos que cursaram o ensino médio em colégios particulares para cada um desses cursos.
Presumi que essas pessoas poderiam continuar pagando mensalidades pelo menos iguais às das melhores universidades privadas (explicações mais detalhadas dos cálculos estão em twitter.com/gioschpe). Provavelmente é até um valor subestimado, já que muitas das universidades públicas têm melhor qualidade que as privadas e, portanto, poderiam cobrar mensalidades mais altas. Mas apenas com esse esquema simples de cobrança seria possível arrecadar mais de 7,4 bilhões de reais por ano. Mesmo em um país de cifras e desperdícios colossais, não é pouca coisa.
Mais decisiva que o valor diretamente arrecadado ou o fim de uma injustiça social em um país tão desigual, a cobrança de mensalidades nas universidades públicas permitiria sanar sérias distorções do nosso modelo de ensino superior. O Ministério da Educação (MEC) poderia cortar o financiamento ao orçamento geral das universidades federais (a mesma coisa para as secretarias estaduais de educação e as universidades estaduais). As universidades seriam responsáveis por obter seu financiamento diretamente dos alunos. Os alunos que não pudessem pagar a mensalidade seriam subsidiados diretamente pelo MEC. Isso forçaria as universidades públicas a cobrar mensalidades de valores compatíveis com os de mercado. Com sua atual estrutura de custos, seria impossível. Nossas universidades públicas viraram cabides de emprego. Há só dez alunos por professor em nossas universidades federais, ante 15,5 nas da OCDE e dezoito nas nossas universidades privadas. Há apenas oito alunos por funcionário, contra 21 nas privadas. Pior: a maioria dos professores é remunerada como se fosse pesquisador de tempo integral, condição real restrita, de fato, a uma pequena minoria. Para fecharem as contas, as universidades teriam de demitir professores e funcionários improdutivos. E talvez baixar o salário fixo dos professores. O MEC e as agências de fomento complementariam sua renda por meio de pagamento por projeto de pesquisa. Estimulariam a produtividade de nossos melhores pesquisadores (e há excelentes pesquisadores em nossas universidades, na maioria dos casos irritados por ter de aturar colegas descompromissados). Outro caminho para as universidades seria o incremento na área de extensão, aquela que lida com empresas e outros públicos externos, fazendo com que suas atividades beneficiassem o setor produtivo brasileiro. Hoje o Brasil produz um número razoável de doutores e papers, mas muito poucas patentes. E é muito difícil para as empresas contarem com pesquisadores de ponta em seus projetos, já que a academia lhes oferece salário bom e estabilidade no emprego.
O que fazer com todo o recurso que seria poupado pelo MEC e pelas secretarias, substituído pelo pagamento de alunos e de projetos em parceria com o setor produtivo? Quando comecei a defender essa ideia, há mais de dez anos, sugeria que o dinheiro fosse reinvestido em educação básica, à época ainda carente. Hoje já gastamos em educação básica o mesmo que países desenvolvidos, e está claro que o gigantismo paquidérmico do estado impede o país de crescer. Nada melhor, portanto, que devolver esse dinheiro à sociedade, via redução de impostos.
Essa seria uma boa defesa para convencer aqueles que esgrimem um argumento canhestro para defender a manutenção da gratuidade até para alunos abastados: “Mas eu pago tanto de impostos e nunca recebo nada de volta do estado, a única coisa que exijo é universidade gratuita pros meus filhos”. Bem, mesmo quem não usa hospitais ou escolas públicas recebe bastante do estado, sob forma de policiamento, estradas, defesa nacional, sistema judiciário etc. E o objetivo de um sistema de tributação justo não é ser um toma lá dá cá, em que você paga de um lado e recebe do outro, mas sim fazer a redistribuição de renda, em que os mais ricos ajudam os mais pobres. Sim, eu concordo: a qualidade do serviço público brasileiro é péssima e deveria melhorar. É uma injustiça. Mas é só em matemática que dois negativos fazem um positivo. Não é com a injustiça de uma universidade gratuita até para gente rica que vamos consertar a injustiça maior de um estado incompetente. Precisamos mudar as duas pontas.