terça-feira 10 2015

Frank Sinatra - Something Stupid



O DOM DE SER MULHER DEPOIS DOS 40 – POR JOSÉ SARAMAGO


Nos encontramos em um momento no qual nos permitimos crescer e curar aquelas feridas e questões que haviam ficado sem resolver na primeira metade da nossa vida.
***
Quantos anos tenho?
Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada.
E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.
Quantos anos tenho?
Não preciso de um número para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver minhas ilusões despedaçadas…
Valem muito mais que isso
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!
O que importa é a idade que sinto.
Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos.
Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa?
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto.
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José Saramago

segunda-feira 09 2015

Empreendedor não pode temer ser chamado de louco, diz criadora da Endeavor


A americana Linda Rottenberg, umas das fundadoras da instituição internacional de apoio a pequenos empresários, defende a ambição de fundar grandes negócios e incentiva os brasileiros a ter projetos de alcance global

Escritora e empreendedora Linda Rottenberg, CEO da empresa Endeavor
Escritora e empreendedora Linda Rottenberg, fundadora da Endeavor(Gilberto Tadday/VEJA)
Se você não está sendo chamado de louco, provavelmente não está pensando grande o suficiente. Essa foi a lição aprendida na prática pela americana Linda Rottenberg, a idealizadora e uma das fundadoras da Endeavor, instituição internacional de incentivo ao empreendedorismo. Fundada em 1997, a Endeavor abriu as portas no Brasil três anos depois. Contou desde o início com o respaldo dos empresários Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira, dois dos criadores da Ambev. A instituição seleciona criteriosamente os empreendedores a serem apoiados, levando em conta o potencial de crescimento. O estímulo, mais que financeiro, vem na forma de aconselhamento. A Endeavor está em 25 países e ajudou a erguer 600 empresas, com a criação de 400 000 empregos e faturamento anual de 7 bilhões de dólares. De cada 100 empresas escolhidas, 95 vingam e prosperam. Linda, de 47 anos, é autora do livro Crazy is a Compliment, que sairá no Brasil nas próximas semanas, com o título De Empreendedor e Louco, Todo Mundo Tem um Pouco (Editora HSM). Ela virá ao Brasil na próxima semana, para uma série de palestras e encontros com empreendedores locais. A seguir, a entrevista com a executiva.
Cresci em uma clássica família americana, perto de Boston. Fui estudar em Harvard e depois me especializei em direito, em Yale. Entretanto, percebi que queria fazer algo mais empreendedor, que tivesse impacto social. Estava na Argentina, em um estágio. Via que os argentinos queriam ou trabalhar para o governo ou trabalhar para grandes empresas. Não conseguia entender o motivo daquilo. Meu "dia um" foi no meio da década de 90, quando estava em um táxi em Buenos Aires e o taxista disse que era formado em engenharia. Então perguntei: "O que você está fazendo dirigindo um táxi?". Ele respondeu que nenhuma empresa estava contratando. Eu respondi: "Por que você não se torna um entrepreneur (empreendedor)?". Ele desdenhou: "Ah, um empresário?". Eu falei: "Não! É outra palavra". Só então percebi que não havia uma expressão que significasse empreendedor em espanhol. Então eu pensei: "Isso é ridículo, precisamos de uma organização para ajudar as pessoas a empreender aqui".
Então a palavra "empreendedor" realmente não existia nem em português e nem em espanhol?
Um dos meus momentos preferidos na Endeavor aconteceu sete anos depois daquela conversa no táxi, quando recebi uma ligação do Paulo Veras (ex-diretor da Endeavor no Brasil) dizendo que, por causa também do nosso trabalho, as palavras "empreendedor" e "empreendedorismo" seriam adicionadas ao dicionário. Ajudamos a incluir a palavra empreendedorismo nas línguas árabe, turca e indonésia. Mas o importante não é a palavra, são as histórias. Sempre conto às minhas filhas a história de Leila Velez e Zica Assis, duas mulheres que moravam no subúrbio do Rio de Janeiro e que abriram uma marca de cosméticos para cabelos cacheados, chamada Beleza Natural. Elas não imaginavam que o negócio empregaria 3 500 pessoas, que teria uma filial em Nova York ou que faturaria 100 milhões de dólares. Elas só queriam que as pessoas pobres também se sentissem bonitas.
A Endeavor nasceu na América Latina. Como foi o início da organização?
Ninguém acreditou que oferecer apoio a empreendedores em mercados emergentes fosse uma boa ideia. Recebi respostas negativas de todos investidores que procurei nos Estados Unidos. Busquei então apoio nos próprios países da América Latina. A primeira reunião foi em Buenos Aires, com um empresário do ramo imobiliário. Consegui dez minutos na agenda dele e, logo no início da conversa, eu disse: "Preciso do seu tempo, da sua paixão e de 200 000 dólares". Ele exclamou, em espanhol: "Essa mulher está louca!". Eu respondi: "Você tem sorte que eu só te pedi 200 000". Ele, ao fim, tirou o cheque do bolso e fez a primeira colaboração para a Endeavor Argentina. A lição que eu tirei de toda essa história foi: ser chamada de louca é um elogio. Se você não está sendo chamado de louco, provavelmente não está pensando grande o suficiente.
Por que você recomenda que os empreendedores sejam loucos?
Os empreendedores não são verdadeiramente loucos, no sentido de desequilibrados. Mas precisam se preparar para que as pessoas pensem que eles são. Faz parte do pioneirismo. Beto Sicupira me disse, uma vez: "Se sua ideia fosse simples e fácil, então alguém teria feito antes de você". Henry Ford foi chamado de "Henry maluco". É preciso ser realista e saber lidar com o criticismo e com as inúmeras possibilidades de falhar.
Isso não pode resultar em pessoas que empreendem sem planejamento?
Assumir riscos não quer dizer ignorá-los. Phil Knight, fundador da Nike, manteve seu emprego de contador por quase dez anos, enquanto percorria a vizinhança para vender tênis em seu carro. Ele só deixou de ser contador um ano antes de a Nike vender 3,2 milhões de dólares em sapatos. Vivo dizendo aos empreendedores: parem de planejar e comecem a fazer. Se sua ideia não funcionar, se for algo maluco demais, o mercado dirá rapidamente. O problema não é o mau planejamento, é o contrário. As pessoas estão com medo demais, planejando demais. Muitas vezes só passam a fazer o que realmente querem quando perdem seus empregos tradicionais. O que me preocupa são as ideias que ficam somente nas anotações e nos pensamentos. Os especialistas sempre dizem que as maiores barreiras para o empreendedorismo são estruturais e financeiras. Para mim, o principal obstáculo é o emocional. As pessoas têm medo de persistir em uma ideia por medo de decepcionar a família e perder apoio. Outro erro é associar o empreendedor a alguém que assume grandes riscos. Os melhores empreendedores são os minimizadores de problemas, os organizadores do caos. Eles aprendem a tornar o caos uma ferramenta, porque a estabilidade pode te fazer criar raízes e ficar somente no conhecido.
Você diz ser importante passar por momentos de derrota e de vulnerabilidade. Por quê?
Certo dia, meu marido trouxe para casa uma lata de WD-40 (um óleo lubrificante). Perguntei às milhas filhas se elas sabiam por que aquele era o nome do produto e elas disseram não. Expliquei que era porque as 39 primeiras tentativas falharam. E a 40ª tentativa acabou sendo uma descoberta, porque o produto que era para ser usado na indústria aeroespacial acabou tornando-se útil para consertar portas enferrujadas. Você precisa aprender com as tentativas, a tratar os resultados de forma inteligente e entender que falhar faz parte do processo de inventar e empreender.
Qual é o critério da Endeavor para selecionar os empreendedores?
Procuramos empreendedores com ideias grandes, que já começaram algo e que, com um pouco de ajuda, tenham potencial para crescer. Você não pode ser somente um sonhador, você precisa ser um criador. Não é uma competição de planos de negócio, é preciso provar a prática. Isso significa ajudar a construir uma empresa que cresça em média 20% nos três primeiros anos. Sete das nossas 81 empresas brasileiras atingiram o faturamento de 100 milhões de dólares. O empreendedorismo pode acontecer em qualquer setor. Pode ser uma indústria, um restaurante, um aplicativo para celular. Procuramos empreendedores que estejam prontos, mas ao mesmo tempo estejam dispostos a ouvir, aprender e entender os conselhos dos mentores.
Por que você afirma que o próximo Steve Jobs virá de um país emergente?
Na década de 90, todo jovem americano que queria ganhar dinheiro procurava emprego em Wall Street. Os jovens de hoje em dia vão para o Vale do Silício. No entanto, o plano de negócios deles é apenas ser o próximo bilionário. Empreendedores de países emergentes olham para os problemas reais, do dia-a-dia. Nesses países, muitas pessoas não têm computadores, nem notebooks, nem mesmo contas em banco, então usam seus celulares para resolver essas questões. Existe um contingente enorme de pessoas assim. Com certeza veremos nos próximos dez anos muitas inovações no setor da internet para celulares nos países emergentes.
Mas esses países emergentes não são muito mais desafiadores, por causa de seus problemas conjunturais?
Empreender nesses países, certamente, é mais desafiador. No entanto há muitos empreendedores pensando: "Qual é a dificuldade que as pessoas estão enfrentando e como eu posso solucioná-la?".
Você também diz que ambientes desafiadores e crises podem incentivar o surgimento de negócios. Por quê?
Quando a economia vai mal, os empreendedores levantam a cabeça. Metade das 500 maiores empresas dos Estados Unidos foi fundada durante períodos de recessão. Faz todo sentido. Se a economia vai bem, as pessoas vão pelo caminho seguro, pelos empregos fáceis e as grandes empresas predominam.
Essa é uma lição para o Brasil atual?
Com certeza. Acredito que os brasileiros estejam preparados, por natureza, para lidar com o caos. Se eu pudesse mudar algo nos inovadores brasileiros seria a forma com que eles veem o horizonte de negócios. Como o Brasil é grande e diverso, as pessoas não pensam no que está além dele. É impossível criar uma grande companhia pensando somente em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Adoraria ver mais brasileiros pensando globalmente. Isso não significa que você tenha que pular etapas. É preciso começar pequeno, mas é importante perceber que os outros países têm muito a oferecer. Espero que essa crise seja um momento para que os brasileiros tenham muito orgulho do que eles construíram, mas, acima de tudo, um momento para que eles se conectem com o resto do mundo.
As micro empresas são responsáveis por gerar a maior parte dos empregos, mas aqui elas contribuem pouco no PIB. Qual o motivo?
Por mais importantes que as microempresas sejam, eu nunca entendi dar incentivos para manter esses negócios pequenos. Por que no Brasil, na África do Sul ou na Turquia há muitas microempresas surgindo, em vez de uma Microsoft? Há muita controvérsia no debate sobre políticas públicas, mas o governo parece se esquecer de que as empresas pequenas querem ser grandes. No Brasil, as empresas chegam a determinado valor de faturamento e não conseguem mais avançar. Ficam presas, estagnadas. Se você não avança, tem mais chances de falir.
Como você se aproximou dos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira?
A Endeavor estava começando. Operávamos no Chile e na Argentina. Então recebi uma ligação de um mentor de Harvard. Ele me contou da frustração de Beto e Jorge Paulo, porque haviam oferecido bolsas para brasileiros estudar nas melhores escolas de negócios americanas, na esperança que eles voltassem com o desejo de empreender, mas todos voltaram querendo trabalhar em bancos de investimento. Meu mentor disse a eles: "Falem com a Linda". Beto pediu que eu fosse ao Brasil encontrá-lo. Após conversarmos, ele procurou seus contatos no mundo de empresários e investidores e ajudou a levantar 2 milhões de dólares para abrirmos as portas da Endeavor no Brasil. Foi ótimo, porque essas pessoas não só ajudaram financeiramente, como vieram colaborar com nossos empreendedores. Ajudar a Endeavor, para eles, nunca foi somente assinar cheques e aparecer uma vez por ano.
Qual é o tipo de lição que a cultura de Lemann e Sicupira transmite para os empreendedores?
O que eles mais levam a sério e o que nós mais admiramos é a meritocracia. Eles cultivam essa percepção de que todos os funcionários fazem parte de algo grandioso e que todos têm sua importância. É como transformar cada funcionário em dono da empresa.

domingo 08 2015

POEMA EM LINHA RETA - Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.




E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa 

Dorian Gray e as redes sociais - Leandro Karnal (Unicamp)

Artigo: saiu no Estadão de hoje um artigo meu. este é o original, inclusive sem revisão final. Trata do caso da adolescente australiana que passou a denunciar suas próprias fotos.

Oscar Wilde descreveu um jovem de beleza sedutora. Dorian Gray impressionava todos, mas guardava um segredo terrível no sótão. O rosto verdadeiro de Dorian estava numa pintura que envelhecia e mostrava os efeitos da vida dissoluta . O jovem que circulava pelo mundo londrino , era falso. O encanto de Dorian era obtido às custas do envelhecimento da imagem. Talvez, sem querer, o texto de 1890 analisou o primeiro grande perfil em rede social do mundo contemporâneo.

Se a metáfora do embelezamento artificial do photoshop for válida, o processo é mais universal e antigo. Quando o livro de Wilde foi escrito, o império britânico era governado pela Rainha Vitória (1819-1901). Ao assumir o trono, ela foi retratada a óleo diversas vezes, no brilho radioso dos seus 18 anos. Porém, a Vitória real era baixa e pouco graciosa. A natureza fora avara em distribuir atributos físicos à sobrinha do rei. Mas, nas pinturas, ela parecia muito melhor. Como sabemos? Muito cedo, ela conviveu com a invenção da fotografia e foi a primeira soberana inglesa a ser amplamente registrada. As fotos mostram o quanto a técnica dos pintores criava, melhorava, embelezava. Basta pesquisar e comparar Vitória a óleo e Vitória em foto. São seres diferentes. Talvez isto valha até hoje: fotos em preto e branco costumam melhorar quem é um pouco mais, digamos, experiente. Fotos em close, com máquinas de alta resolução, são um desafio para pessoas que vivem em patamares estéticos mais modestos. 

Sabemos da importância da cenografia: sorrimos, encolhemos a barriga, mostramos o melhor ângulo, arrumamos a roupa: todos estes gestos são herdeiros do belo Dorian Gray. Apagamos fotos que mostram resultados ruins. Divulgamos as que consagrariam o ideal de quem eu suponho ser e do que eu suponho que os outros gostarão que eu seja. Quem eu sou de verdade é sempre um desafio.
Por que estamos pensando nisto? Essena O’Neil é uma adolescente australiana comum. Passou grade parte da sua vida registrando e postando os melhores resultados da sua imagem. Teve sucesso: chegou a meio milhão de seguidores. Bonita, melhorou tudo com boas roupas, luz adequada, ângulos corretos. O que ela fez com muito método , é feito por quase todo mundo. Sentiu prazer com muitas curtidas e considerou-se popular. Dormia sorrindo com o êxito fugaz da rede e deve ter angariado muitas relações com a fama. Aprendeu cedo como o mundo é generoso com a beleza. 

Um dia ela teve uma crise. O vazio das aparências a pegou, talvez. Entrou em contradição entre o que postava e o que sentia, entre quem era de fato e o que supunham que ela fosse. Essena real tornou-se inimiga da Essena virtual. Como a personagem de Oscar Wilde, ela atacou sua própria imagem. A adolescente passou a publicar legendas demolidoras, falando como tudo aquilo tinha sido falso e ensaiado. Denunciou as muitas tentativas até acertar, as poses artificiais, o absurdo da cena zen meditando na praia ou da magreza conseguida com inclinações calculadas do tronco. Resultado? Virou uma celebridade ainda maior. Ela teve mais acessos e chamou a atenção do mundo. Por quê?
Temos uma raiz platônica e cristã na condenação da aparência. Usamos expressões ambíguas como “aquilo que somos por fora e por dentro”, como se meu sorriso fosse menos eu do que meu intestino ou como se minha humildade me pertencesse mais do que minha vaidade... Pessoas ponderadas e mais velhas recomendam a jovens bonitas: cuide mais do seu interior. Recriminamos quem se mira por horas em espelhos. Nossa crítica à vaidade aumenta à medida que os motivos para sermos vaidosos diminuem. Nosso envelhecimento é a fonte da nossa virtude. “Não tire tanta foto de si” , pois, é óbvio, eu já não quero mais tirar de mim. 

Essena foi uma jovem submetida à pressão das redes sociais. Acreditou na personagem que ela elaborava. Foi uma boa atriz no papel de si mesma. Teria sido influência de alguma leitura ou aconselhamento a crise que ela demonstrou ao se atacar publicamente como produto midiático? Ou seria um golpe publicitário? Ela teria visto como chance de expansão de curtidas, um reviravolta na sua trajetória? Este “sincericídio” que ela praticou seria fruto de medo, sabedoria, cansaço ou desejo de expansão da influência com outra personagem? Talvez nunca saibamos porque, provavelmente, ela também não sabe.
A resposta é pouco relevante. O mais importante é a atenção que o mundo deu ao fato, sinal de que, autêntica ou não, Essena dialogou com pontos delicados das redes sociais.
O choque é antigo: entre o real e o ideal, damos braçadas sem muito rumo. Há cenografia intencional nas fotos que estão sobre nosso aparador na sala. Retratam a família que desejaríamos ter nos seus momentos de estetização, harmonia ou sofisticação turística. Não há fotos das discussões, da dor, de como engordamos ou de como foram tediosas nossas cenas em casa. Lá somos todos sorrisos, belos, felizes e com uma vida interessante. Fotos familiares são desejos embalsamados. 

A estátua da Vênus de Milo agrada mais gente do que o quadro “a origem do mundo”, de Courbet. O mármore mostra uma mulher idealizada, sem pelos e perfeita. O quadro é uma genitália cruamente exposta, real e desafiadora. Achamos mais palatável o que mente mais, idealiza mais, ou cria uma alternativa ao peso imperioso da natureza e da realidade. Sei que a mulher exposta na revista masculina é fruto de um esforço técnico para reduzir imperfeições e aplainar caprichos da mãe natureza. Mas, não é exatamente por isto que eu compro a revista? Se eu quisesse realidade, olharia para o lado. A imagem virtual funciona como o álcool: eu não bebo apesar do álcool produzir relaxamento, aumento de confiança e até desnorteio. Bebo, exatamente, por isto. Os corantes tornaram-se tão indispensáveis à indústria da alimentação como o photoshop para as imagens públicas das redes sociais. O fundo da caverna de Platão é confortável, tem gente por perto com valores similares, a luz não cega e o que vemos é agradável. 

O poeta Rilke (1875-1926) definiu o Belo como o grau do terrível que toleramos e que desdenha destruir-nos (Primeira elegia) . É uma definição linda e enigmática. As redes sociais jorram o belo por todos os poros. Flores, sorrisos, o pôr do sol, praia, corpos, festas , animais de estimação maravilhosos e muita alegria...Ah e as comidas que impressionam... As imagens são nosso álcool estético, nosso ópio em fótons.. Não as vemos apesar delas não serem tão sinceras, mas exatamente porque não são. À custa de repetição, esta beleza torna-se nosso roteiro de vida e de experiência de mundo. Com o tempo, toda a chatice daquela noite de Natal será conservada apenas pela linda foto da mesa posta e pessoas sorrindo e a mariposa da minha memória, ávida de luz, vai se fixar naquilo, produzindo uma vida feliz como construção/reconstituição do passado. Toda memória é um diálogo do presente com o passado e um processo de criação. A luz certa, a roupa adequada e um claro sorriso ajudam muito a fixar este momento, o único que desejo guardar.

Essena fez uma apoteótica carreira postando imagens melhoradas e preparadas. Seu sucesso foi gigantesco. De repente por motivos pouco claros para grande público, caiu no oposto e passou a duvidar da sua imagem e a revelar os andaimes da construção. Como Ícaro, despencou rápido do sol para o impacto do mar.
O que seria mais notável no processo? Essena estetizou uma personagem e, depois, tentou desconstruir, mas mantendo as fotos das redes sociais. Com isto ela reafirmou como nosso mundo é dependente da imagem. Ao dizer antes “esta sou eu” e agora “esta não era eu de verdade” e postando fotos nas duas situações, ela continua na mesma gramática de produção de sentido. O real ou o imaginário são, duplamente , dependentes da imagem no mundo líquido. A legenda pedindo curtidas ou denunciando a armação, é, igualmente, suporte do único mundo possível. 

Essena mostrou que Dorian Gray pode rasgar o retrato do sótão, mas que nem este gesto teatral o ajudará a responder quem ele é de fato. Essena é virtual, porque ninguém desta geração consegue pensar o mundo fora do virtual ou sem ele, ao menos. Uma Essena revolucionária, teria simplesmente apagado o perfil. Haveria outra estratégia: bastaria não postar por um mês e ela teria submergido no anonimato que o tempo fugaz das redes impõe. Mas, isto teria sido demais. Nem a nova Essena, a autêntica (?) , aguentaria tamanho desprendimento. Ela foi capaz de um gesto muito corajoso, mas não foi capaz de subverter a própria lógica da exposição midiática. Isto talvez já não esteja ao alcance de uma jovem criada no século XXI. Essena sorria com as curtidas de suas fotos planejadas. Continua sorrindo com a Essena que desnuda a rede. Ela foi protagonista nas duas situações. A jovem possui, agora, dois retratos de Dorian Gray: o belo e o decadente. Ambos pertencem a ela e foram pintados por ela. Em resumo: mentira e verdade para existirem, tem de ser fotografadas e postadas...


Janot quer nova distribuição de recursos de ficha suja

Dificultando para José Riva
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao presidente  do STF, Ricardo Lewandowski, um ofício pedindo a livre distribuição dos futuros pedidos de liberdade a serem feitos pela defesa do ex-deputado estadual de Mato Grosso José Riva — que, por responder a mais de 100 processos  na Justiça, é conhecido como o maior ficha suja do país e está preso pela terceira vez neste ano.
A preocupação de Janot é que, pelo fato de o ministro Gilmar Mendes já ter julgado outros pedidos de soltura, e determinado a liberdade de Riva em julho passado, os demais habeas corpus impetrados lhe sejam encaminhados sem sorteio através da chamada prevenção.
No ofício, o procurador-geral, alega que, como os crimes e operações que levaram Riva à cadeia no início do ano e, mais recentemente, no mês passado, são distintos, não haveria prevenção para Mendes.

Nova etapa da Lava Jato vai responsabilizar partidos


PT, PMDB e PP poderão ter de devolver até 20 bilhões de reais

Petrobras - O procurador federal Deltan Dallagnol, em entrevista coletiva
O procurador federal Deltan Dallagnol, que disse que os partidos estão na mira da Lava Jato(Heuler Andrey/Reuters)
A força-tarefa da Operação Lava Jato vai imputar também aos partidos a responsabilidade pelo bilionário esquema de cartel e corrupção na Petrobras a partir de 2016. Com pelo menos R$ 2,4 bilhões recuperados aos cofres públicos até aqui, resultado de mais de 30 acordos de delação premiada com os réus e três termos de leniência com empresas, o Ministério Público Federal traça as estratégias para buscar a condenação na Justiça Federal das legendas - e não apenas seus dirigentes.
As penas serão propostas em ações cíveis - até agora só empresas foram acionadas fora da área criminal - e poderão representar duro golpe à saúde financeira das agremiações. Além da devolução dos valores desviados da estatal - ao todo, mais de R$ 20 bilhões, segundo os primeiros laudos - no período de 10 anos, entre 2004 e 2014, e de multas, partidos podem ficar sujeitos a retenção de valores do Fundo Partidário e suspensão e cassação de registro da legenda.
"Vamos entrar com uma ação cível pública contra os partidos que participaram dos crimes, que aturaram para que os benefícios de recursos acontecessem e se beneficiaram dele", afirmou o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa. "Estamos caminhando na Lava Jato por etapas porque temos um mar de informações e evidências. É como se fossem frutos de uma árvores, nós colhemos quando eles ficam maduros. A ação dos partidos ainda está amadurecendo."
Dallagnol e outros oito procuradores da força-tarefa da Lava Jato assinam também as ações por improbidade administrativa propostas em fevereiro deste ano na Justiça Federal em Curitiba contra as empreiteiras acusadas de cartel e desvios de recursos da Petrobras. Foram as primeiras ações cíveis da Lava Jato que buscam imputar responsabilidades às pessoas jurídicas.
O avanço da Lava Jato contra os partidos atinge, em especial, PT, PMDB e PP, que, conforme as investigações criminais, controlavam um esquema de fatiamento de postos estratégicos da Petrobras. Segundo o Ministério Público Federal, através do controle de diretorias da estatal, empresários e políticos sistematizaram uma sofisticada estrutura de desvios em contratos, cobrança de propinas e lavagem de dinheiro que abasteceu cofres das legendas.
Os procuradores sustentam que para isso foram usadas doações eleitorais e partidárias oficiais, além de caixa 2. A lista inclui legendas da situação e também oposição - apesar do controle governista do esquema. Os partidos têm negado envolvimento em irregularidades.
As ações com pedidos de ressarcimento podem ser ajuizadas num momento em que as legendas veem diminuir a capacidade de arregimentar recursos com a proibição das doações empresariais decidida pelo Supremo Tribunal Federal em votação concluída em setembro deste ano. A previsão dos partidos é de forte queda de receita no próximo ano.
Corrupção
Em outra frente, com apoio dos coordenadores da Lava Jato, um projeto de lei do Ministério Público Federal quer aumentar a responsabilidade de partidos e políticos para desestimular a prática de contabilidade paralela do caixa das agremiações e das campanhas. Um pacote com 10 medidas anticorrupção foi lançado em março deste ano e está em fase de coleta de assinaturas - serão necessários 1,5 milhão para apresentação ao Congresso.
"A medida é importante porque, até então, apenas os dirigentes (pessoas físicas) respondiam por eventuais crimes cometidos em benefício do partido. No mesmo sentido, propomos a criminalização do caixa 2", informa o MPF, em sua justificativa do anteprojeto.
Como não existe uma legislação regulamentada específica que responsabilize os partidos como pessoa jurídica, outro item previsto é o que imputa às legendas responsabilidade por atos de corrupção. Partidos poderão ser responsabilizados com multa ou até cancelamento do registro - nos casos de condutas de responsabilidade do diretório nacional. As legendas poderão ser multadas com valor entre 10% e 40% dos repasses do fundo partidário relativos ao exercício no qual ocorreu o ato, podem ainda ser suspensos do recebimento de repasses do fundo ou ter o registro cancelado.
"O objetivo é espelhar nas agremiações partidárias exigências feitas para quaisquer pessoas jurídicas", afirma Dallagnol.
Atualmente, a legislação de combate à corrupção de 2013 abriu a possibilidade de impor penalidades para empresas por envolvimento em atos de corrupção, mas deixa uma brecha de como isso ocorre na prática, quando os alvos são partidos. É que as penalidades previstas no regramento jurídico são medidas como multa sobre o faturamento do último ano e proibição de contratação com o poder público.
Partidos, porém, não têm faturamento, nem contratam com o poder público. "Então nós (MPF) criamos previsões para que se possa ter penalidades aplicáveis aos partidos envolvidos com atos de corrupção, como retenção de parte do fundo partidário até a suspensão ou mesmo a cassação do registro." Procurados pelo Estado, PT, PP e PMDB não se manifestaram. (com Estadão conteúdo)