domingo 04 2015

Lise Kingo, a mulher que quer consertar o mundo em 15 anos


Ex-executiva está à frente de um programa global para combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, no esforço mais amplo já feito pela ONU para mitigar problemas mundiais

Lise Kingo, diretora-executiva do Pacto Global, da ONU
Lise Kingo, diretora-executiva do Pacto Global, da ONU(ONU/Divulgação)
"Corrupção é uma força disruptiva, destrói negócios e vai contra a sustentabilidade econômica"
Consertar o mundo não é uma tarefa fácil, mas a dinamarquesa Lise Kingo promete que vai ser esforçar. Ex-executiva da Novo Nordisk, multinacional da área de saúde com presença em mais de 70 países, ela saiu do setor privado para coordenar um ambicioso plano: implantar dez princípios globais para combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, no esforço mais abrangente já feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) para mitigar os problemas mundiais.
O programa Pacto Global é o braço da ONU que atua em conjunto com empresas, instituições e governos e seus dez princípios fundamentais desdobram-se em dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), metas que serão implantadas e aperfeiçoadas entre 2016 e 2030. Entre os dezessete objetivos propostos estão: promoção da agricultura sustentável; da saúde e bem-estar; da igualdade de gênero; da energia limpa; da inovação e infraestrutura; do consumo e produção sustentáveis, entre outros. Para explicar os princípios e metas e falar como pretende implantá-los e ampliá-los nos próximos 15 anos, Lise Kingo falou com o site de VEJA. Confira abaixo.
O ONU está completando 70 anos em 2015. Temos motivos para comemorar? A ONU tem uma importância vital para desempenhar; é uma fonte matriz de princípios e ações que devem ser preservados. É a principal voz de uma comunidade global que nós precisamos mais do que nunca nesse momento da história que estamos vivendo. Estamos diante de muitos desafios e o fato de existir um lugar onde as nações podem se encontrar para debater esses problemas é fundamental. Eu penso que temos motivos para celebrar. A pobreza extrema foi diminuída pela metade em 2010, cinco anos antes da meta da ONU. Isso é evidentemente muito bom. Maior acesso das mulheres à educação, nos três níveis, também foi outra conquista. Os níveis de acesso à agua potável também melhoraram muito.
A senhora poderia explicar o projeto Pacto Global? Como ele nasceu? O Pacto Global foi forjado na gestão do secretário-geral da ONU Kofi Annan [1997 - 2007]. Ele acreditou numa ideia de impacto mundial, em juntar a ONU e o setor privado. Ele entendeu que na era da globalização, liberalização e privatização, as empresas teriam de promover a proteção ambiental e a sustentabilidade para poderem manter seus negócios. Annan percebeu que era um bom momento para dar uma face mais humana à globalização.
Os dez princípios do Pacto Global são ambiciosos. A senhora acredita que nós podemos cumpri-los em apenas 15 anos? Sim, os princípios são muito ambiciosos a amplos, evolvem temas complexos e serão sempre um desafio para todas as empresas. Não sei se vamos atingir os objetivos até 2030, mas é importante que cada vez mais empresas e países se esforcem e reforcem suas estratégias de negócios para abranger os dez princípios. Eles têm de apresentar um relatório anual mostrando os avanços para poderem continuar fazendo parte da rede Pacto Global.
Qual a ligação entre os dez princípios de os dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Os dez princípios são bases para as empresas seguirem. Os ODS são metas definidas pela ONU e por muitos parceiros em um gigantesco trabalho nos últimos três anos. Eles são um farol para guiar o crescimento das empresas e do mundo nos próximos 15 anos. Todas as dezessete metas pretendem criar um mundo melhor para as próximas gerações. São metas que fazem sentido para empresas e para o mercado, vão garantir a sobrevivência dos negócios. Todas as empresas podem fazer contribuições para elas mesmas e para a sociedade.
Muitas pessoas entendem sustentabilidade como um conceito restrito ao meio ambiente, mas é algo que vai além, envolve também aspectos sociais e econômicos. A senhora poderia explicar esse entendimento atual de sustentabilidade? É importante as pessoas endentecerem que sustentabilidade é um conceito bem mais amplo. Os dez princípios do Pacto Global são um bom começo para esse novo entendimento. Meio ambiente, direitos humanos, leis trabalhistas, proteção à criança, práticas anticorrupção e economia são todas área cobertas por sustentabilidade. É um conceito social, ambiental e econômico. Eu penso que desenvolvimento sustentável é basicamente criar um mundo melhor, não apenas para as pessoas e empresas, mas também para o próprio planeta.
O combate à corrupção é um dos princípios do Pacto Global. Aqui no Brasil, sabemos por experiência própria que a corrupção é péssima para o governo, para os negócios e especialmente para as pessoas. Como a corrupção atrapalha a sustentabilidade? Corrupção é uma força disruptiva, destrói negócios e vai contra a sustentabilidade econômica ao promover práticas desleais e condições desiguais. É algo que deve ser combatido sempre, por todas as nações e por todas as empresas.
O pacto global defende que crescimento econômico e sustentabilidade não são conceitos antagônicos. Como as empresas e as pessoas podem equilibrar crescimento e sustentabilidade?Promover crescimento e sustentabilidade é garantir que teremos acesso aos recursos naturais no futuro. A inovação e as novas tecnologias são fundamentais para responder essas questões. Novas tecnologias para produção de energia, novas parcerias, novos modelos de negócios. É importante que as grandes empresas, que possuem negócios e grandes cadeias de fornecimento espalhadas pelo mundo, mostrem que estão preocupadas com a sustentabilidade, que elas trabalham para isso. É fundamental para a sobrevivência das próprias empresas. Criar uma cultura empresarial que apoie a sustentabilidade vai garantir a sobrevivência não só das pessoas e do planeta, mas também das próprias empresas. Toda companhia quer ser vista como um ente que faz sérias contribuições para as pessoas e para o planeta, não apenas para elas mesmas.
Inovações técnicas geralmente levam a práticas mais sustentáveis. Mas é preciso melhorar a educação para fomentar a inovação e qualificar as pessoas. O que o Pacto Global prevê para a educação? Temos uma plataforma para impulsionar a educação. É importante que todas as escolas, universidades ensinem e propaguem o desenvolvimento sustentável. Acreditamos que as próximas gerações serão muito mais intuitivas e compreensivas em relação à construção de um ambiente mais sustentável. Os jovens estão naturalmente muito mais integrados com a agenda sustentável, é algo que já faz parte de suas preocupações. A sustentabilidade está na base dos novos modelos de negócios, orienta a maneira de como os jovens pensam em estruturar suas empresas. É exatamente essa nova forma de pensamento que nós precisamos para o futuro.
Por causa de seu tamanho, sua biodiversidade e outras características, o Brasil tem peso em questões globais envolvendo sustentabilidade. Como o país tem feito sua parte, é possível melhorar? O Brasil tem feito um ótimo trabalho e avançou em questões de sustentabilidade. Quando a rebe brasileira foi criada em 2001, ela rapidamente se tornou uma das mais poderosas redes do mundo. Todos os atores envolvidos ajudaram a criar uma rede forte. O Brasil tem projetos importantes em uso racional da água, promoção da agricultura sustentável, combate à corrupção, empoderamento das mulheres. A rede brasileira é um dos modelos e já abraçou alguns dos objetivos de desenvolvimento sustentável em seus modelos de negócio. Ser sustentável é uma bandeira relevante para as empresas brasileiras.

sábado 03 2015

Lula e a Dinda do Guarujá


A reforma do apartamento tríplex do ex-presidente — que incluiu a instalação de um elevador privativo — foi paga por uma das empreiteiras envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras



Bancar melhorias na Casa da Dinda, a residência de Fernando Collor, no Lago Norte, em Brasília, era uma das muitas maneiras de agradar ao então presidente, deposto do cargo por corrupção em 1992. A mesma tática foi e está sendo usada por empreiteiras para demonstrar afeição ao ex-presidente Lula. Em meados de 2014, depois de quase dez anos de espera, a ex-primeira-­dama Marisa Letícia viajou à Praia das Astúrias, no Guarujá, para buscar as chaves do apartamento dos sonhos da família. O refúgio dos Lula da Silva no litoral é um tríplex de 297 metros quadrados. São três quartos, suíte, cinco banheiros, dependência de empregada, sala de estar, sala de TV e área de festas com sauna e piscina na cobertura. Ah, sim, para um eventual panelaço das elites, o tríplex tem varanda gourmet no 1º andar. O plano de comemorar o réveillon no imóvel foi adiado pela decisão de fazer ali uma reforma. O porcelanato e os acabamentos de gesso foram refeitos, a planta interna foi modificada para abrigar um escritório e um elevador privativo, interligando os ambientes do 1º andar com a ala dos quartos, no 2º nível, e a área de festas, na cobertura. Acompanhada de perto por dona Marisa, a obra não custou um centavo à família do ex-presidente. Do primeiro parafuso ao último azulejo, tudo foi pago pela OAS, uma das empreiteiras envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras.
VEJA teve acesso a documentos e a fotos (em VEJA.com) que detalham a reforma do tríplex presidencial e mostram que os serviços foram contratados pela empreiteira. O trabalho foi feito pela Tallento Inteligência em Engenharia, uma empresa conhecida no mercado por executar obras de alto padrão em prazos curtos - duas exigências dos contratantes, mas não as principais. A exigência maior era a discrição. As investigações da Lava-Jato revelariam meses depois as razões disso. Iniciada em 1º de julho de 2014, a reforma transcorreu sob medidas de segurança incomuns. A fechadura da porta de acesso era trocada toda semana. A reforma da cobertura tríplex chamou a atenção dos moradores do prédio.
"Nos dias em que eles marcavam para visitar a obra, a gente tinha de parar o trabalho e ir embora. Ninguém era autorizado a permanecer no apartamento. Só ficamos sabendo quem era o dono muito tempo depois, pelos vizinhos e funcionários do prédio, que reconheceram dona Marisa e o Lulinha (Fábio Luís Lula da Silva, o filho mais velho do ex-presidente)", disse a VEJA um dos profissionais que colaboraram na reforma. O ex-presidente Lula esteve no tríplex algumas vezes. O segredo durou até dezembro do ano passado, quando o jornal O Globo publicou detalhes de uma investigação sobre a Coo­pe­rativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop). Controlada pelo PT, a entidade faliu e deixou 3 000 famílias sem receber seus imóveis. O tríplex destinado a Lula, com uma das melhores vistas do Guarujá, avaliado em 2,5 milhões de reais, foi um dos poucos a ser entregues. VEJA revelou em abril passado que, depois de um pedido feito pelo próprio ex-presidente a Léo Pinheiro, executivo da OAS, seu amigo, preso na Operação Lava-­Jato, a OAS assumiu a construção do prédio, que estava parada. Além de Lula, parentes do tesoureiro petista João Vaccari Neto, também preso, sindicalistas e familiares de Rosemary Noronha, a amiga íntima de Lula, foram contemplados com apartamentos em outros prédios da Bancoop assumidos pela OAS. Revelado o privilégio, e diante da repercussão negativa, desapareceu o entusiasmo da família Lula pelo imóvel.
O ex-presidente passou a negar ser o proprietário do tríplex, embora admita que sua esposa seja dona das cotas de um apartamento no mesmo edifício, o Solaris. Não é mentira. É apenas uma meia verdade. No papel, o tríplex ainda está em nome da OAS. Funcionários da empreiteira procurados por VEJA confirmaram que o apartamento pertence aos Lula da Silva, está parcialmente mobiliado, permanece fechado e está à venda por 2,3 milhões de reais. "Para entrar aí, só com autorização da cúpula da construtora. Só eles e o Lula têm a chave", disse a VEJA, na semana passada, um funcionário da própria OAS.

Khachaturian: Sabre Dance / Rattle · Berliner Philharmoniker




Symphony No. 9 ~ Beethoven



Sutilmente - Skank e Nando Reis - VH1



Aconteceu em 2013. Mas continua mais atual que nunca!!! A seita que jurava combater a roubalheira agora luta para conseguir que os sacerdotes corruptos passem longe da cadeia...


Leiam sem pressa os quatro parágrafos, transcritos em negrito, extraídos de um artigo publicado pelo Estadão sob o título “A corrupção e morte da cidadania”. Volto em seguida com o nome do autor e a data da publicação.
A corrupção representa uma violação das relações de convivência civil, social, econômica e política, fundadas na equidade, na justiça, na transparência e na legalidade. A corrupção fere de morte a cidadania. Num país tomado pela corrupção, como o Brasil, o cidadão se sente desmoralizado porque se sabe roubado e impotente. Sabe-se impotente porque não tem a quem recorrer. Descobre que os representantes traem a confiabilidade do seu voto, que as autoridades ou são corruptas ou omissas e indiferentes à corrupção, que os próprios políticos honestos são impotentes e que a estrutura do poder é inerentemente corruptora.
Dessa impotência se firmam as noções de que “nada adianta” e de que no fundo “são todos iguais”. A fixação desses sentimentos representa o fim da cidadania, pois ela se baseia na participação ativa do indivíduo na luta por direitos e na cobrança e fiscalização do poder. Quanto mais agonizante a cidadania, mais ativa se torna a corrupção. O corrupto sente-se à vontade para se justificar e até para solicitar o aval eleitoral para continuar na vida política.
O poder no Brasil protege os corruptos. A estrutura do poder público é corruptora. Em paralelo, a estrutura fiscalizadora favorece a impunidade. Mas se a corrupção, sua proteção e a impunidade se tornaram estruturais, há uma vontade explícita de manter intacta a estrutura corruptora. Essa vontade se manifesta de várias formas. A principal é a falta de iniciativa das autoridades constituídas. Outra ocorre pelo bloqueio das mudanças institucionais e legais que visam a ampliar e aperfeiçoar os instrumentos de combate à corrupção. No Congresso, medidas de combate à corrupção e mudanças moralizadoras da Lei Eleitoral foram sistematicamente derrotadas pela maioria governista, com o apoio de chefes dos poderes superiores.
A sociedade já percebeu que a corrupção estrutural está albergada na falta de vontade de mudar e de punir e na vontade explícita de proteger. A racionalidade do cidadão não consegue compreender o porquê e o como de tantos casos de corrupção não resultarem em nenhuma prisão dos principais envolvidos. E porque a razão não consegue compreender essa medonha impunidade, o cidadão sente-se desmoralizado. A corrupção assume a condição de normalidade da vida política do país. A degradação e a ineficiência do poder público atingiram tão elevado grau que não se pode mais acreditar que, apesar de lentas, as mudanças virão.
O autor só pode ser algum falso moralista enfurecido com a transformação do embargo infringente em primo do habeas corpus, certo? E o texto só pode ser coisa da elite golpista ainda inconformada com a derrota decidida pelo voto do ministro Celso de Mello, certo? Errou duplamente quem embarcou nessas deduções. O artigo saiu na edição de 29 de abril de 2000. E foi escrito por José Genoino, então ─ como agora ─ deputado federal do PT paulista. Parece mentira, mas é isso mesmo.
Também parece mentira que há menos de 14 anos, quando já ia longe o ataque aos cofres estaduais e municipais controlados pelo partido, as vestais de araque ainda reivindicassem aos berros o monopólio da ética. Na virada do século, embora Delúbio Soares já ocupasse o posto de tesoureiro da quadrilha em formação, José Dirceu seguia recitando de meia em meia hora, com sotaque de Passa Quatro, o mantra hoje reduzido a refrão do hino do grande clube dos cafajestes: “O PT não róba nem dêxa robá”.
É compreensível que o deputado federal José Genoino, sem ficar ruborizado, ousasse exigir cadeia para quem fazia o que ele faria na presidência do partido que, ao alcançar o poder federal, acabou transformando o assalto ao dinheiro público em programa de governo. O artigo publicado pelo Estadão sugere que são até brandas as penas aplicadas pelo STF aos companheiros condenados por corrupção ativa: 7 anos e 11 meses para José Dirceu, 6 anos e 8 meses para Delúbio Soares e 4 anos e 8 meses para Genoino.
Não há embargo infringente que dê jeito nisso. Para recorrer à esperteza que justificou um novo julgamento e provavelmente os livrará  da punição por formação de quadrilha, os três mensaleiros precisariam de quatro ministros dispostos a não enxergar o que eles são: corruptos ativos.  Dirceu, condenado por 8 a 2, teve o apoio de Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli. Genoino (9 a 1) só foi socorrido por Lewandowski. Delúbio (10 a 0) não comoveu sequer o ministro da defesa dos pecadores.
A seita que prometia acabar com a ladroagem, quem diria, agora luta para conseguir que três sacerdotes corruptos se safem da pena adicional por formação de quadrilha, que submeteria a trinca à prisão em regime fechado. Eufóricos com o adiamento do embarque no camburão, os devotos já preparam um carnaval temporão para festejar a conquista do regime semiaberto. O desfile da Unidos do Mensalão, de qualquer forma, não poderá ultrapassar o fim da tarde.
No começo da noite, os três destaques terão de recolher-se à cadeia. É lá que os companheiros presidiários vão dormir por centenas de noites.

Cássia Eller - Vá morar com o diabo