terça-feira 17 2015

Imprensa internacional destaca o 'maior protesto da democracia' brasileira


Principais jornais do mundo repercutiram a grande participação nas manifestações de 15 de março e a insatisfação com o governo de Dilma Rousseff e com a corrupção

 - Atualizado em 
As manifestações que reuniram quase 2 milhões de pessoas contra o governo em diversas cidades do Brasil neste domingo ganharam destaque na imprensa internacional. Sites dos principais jornais do mundo repercutiram os protestos com imagens das multidões nas ruas do país e análises da insatisfação dos brasileiros com Dilma Rousseff. Com a manchete "Out, Dilma" ("Fora, Dilma"), a versão internacional do site da rede americana CNN colocou os protestos no Brasil em seu destaque principal. A reportagem cita o "clima festivo" nos atos e diz que os manifestantes protestam contra a corrupção e pedem o impeachment de Dilma. O governo, contextualiza a CNN, "está lutando em meio a uma economia fraca e a um enorme escândalo de corrupção envolvendo a estatal de petróleo do país". A publicação lembra ainda que Dilma foi reeleita em uma disputa apertada em outubro, mas que "desde então sua taxa de aprovação despencou junto com a economia".
Um dos principais jornais do mundo, o New York Times ilustrou sua reportagem sobre os protestos com uma foto da massa de manifestantes no Rio, com a praia de Copacabana ao fundo. A matéria destaca que as "centenas de milhares" de pessoas que foram às ruas pedindo a saída de Dilma aumentam ainda mais a pressão sobre a presidente, enquanto ela enfrenta crises em várias frentes: "A economia atolada em estagnação, um escândalo de propinas arrebatador e a revolta de algumas das figuras mais poderosas de sua coalizão governista", enumera o jornal. O New York Times lembra também que os protestos coincidem com os 30 anos da redemocratização do Brasil.
O espanhol El País sintetizou o 15 de março no Brasil em seu título: "O país pede mudanças no maior protesto de sua democracia. Manifestantes marcham contra a corrupção e a crise". Além da reportagem principal, o jornal também trouxe uma análise do correspondente Juan Arias. No texto, ele diz que, ao contrário do que alguns afirmavam, os protestos não atraíram apenas os brasileiros das classes mais altas. "O Brasil os desmentiu categoricamente. Diziam que era o país do 'caviar', o dos ricos, o que sairia à rua para exigir a cabeça de Dilma. Não foi. Foi o Brasil plural, foi o Brasil mestiço, o que saiu às ruas sem ideologias nem classes".
Com o título "Grandes protestos no Brasil exigem o impeachment da presidente Rousseff", a matéria da britânica BBC relata que os manifestantes acreditam que Dilma sabia do escândalo de corrupção na Petrobras. A publicação deu bastante destaque às imagens das multidões pelo país, exibindo fotos dos protestos em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. "Muitos manifestantes balançavam bandeiras do Brasil e vestiam a camisa da seleção de futebol. Eles gritavam slogans contra a corrupção e o Partido dos Trabalhadores", descreve a reportagem. A BBC diz ainda que a oposição apoiou os protestos, mas não pediu abertamente pelo impeachment de Dilma.
No Le Monde, principal jornal francês, a reportagem sobre as manifestações traz um vídeo com imagens da Avenida Paulista, em São Paulo, da praia de Copacabana, no Rio, e da Esplanada, em Brasília. O texto menciona a Operação Lava Jato e os 49 políticos, "em sua maioria membros dos partidos da coligação no poder", que foram indiciados pela Justiça. A insatisfação com a presidente Dilma é apontada com dados ilustrando sua baixa popularidade, pressionada por escândalos de corrupção e uma "economia à beira da recessão".
Os jornais argentinos também acompanharam com atenção os protestos no país vizinho. O Claríndestacou o assunto na chamada principal de seu site. "Massivas marchas de protesto no Brasil contra o governo Dilma", diz a manchete. O periódico registrou que as manifestações aconteceram nas principais cidades do país, mas que em São Paulo a mobilização foi "enorme". Para o La Nación, mais de 2 milhões de brasileiros gritaram "Fora Dilma!" nas ruas do país. O jornal colheu declarações de manifestantes em São Paulo e descreveu o ambiente amistoso dos atos. "Famílias com crianças pequenas, grupos de jovens e casais aposentados, vestidos com a camisa da seleção nacional, cobertos com bandeiras do país e com o rosto pintado com as cores do Brasil, foram em massa para a Avenida Paulista".

segunda-feira 16 2015

Dilma reaparece e pede trégua: 'Vamos brigar depois'


Após megaprotesto de domingo, presidente defendeu o ajuste fiscal e voltou a prometer a entrega de um pacote de medidas anticorrupção

Por: Gabriel Castro, de Brasília - Atualizado em 
A presidente Dilma Rousseff durante pronunciamento

DAY AFTER – A presidente Dilma Rousseff durante pronunciamento em Brasília: flagrante mudança de tom(Eraldo Peres/AP)
Acuada pelo maior protesto da história democrática do país contra um governo, a presidente Dilma Rousseff decidiu reaparecer, discursar e tentar disfarçar o abatimento em uma entrevista em Brasília. Tanto no pronunciamento, destinado à cerimônia de sanção do novo Código de Processo Civil, quanto nas respostas às perguntas de jornalistas, a única novidade foi a mudança no tom: a exemplo da fala de ministros mais cedo, palavras como "humildade" e "diálogo" foram incorporadas no vocabulário da petista nesta segunda-feira. Dilma voltou a defender a aprovação do ajuste fiscal, prometeu entregar seu pacote atrasado anticorrupção e fez um apelo: "Vamos brigar depois".
Durante suas falas, a presidente visivelmente se esforçou para transmitir uma imagem mais leve: sorriu, brincou com jornalistas e até ensaiou admitir erros. Mas não tardou para algumas contradições surgirem: Dilma não resistiu, cutucou a oposição e tentou equiparar a passeata promovida pelos seus aliados - muitos pagos para comparecer ao ato - na sexta-feira aos milhares de brasileiros que foram às ruas no domingo.
A confissão parcial de que seu governo errou foi feita em entrevista coletiva, quando a petista analisava o cenário de instabilidade econômica. Dilma lembrou que o governo aplicou todos os recursos, no primeiro mandato, para enfrentar a crise financeira internacional, e disse que agora é preciso fazer um ajuste para corrigir os rumos. Quando questionada sobre a responsabilidade do governo sobre o desequilíbrio, ela chegou afirmou: "É possível que a gente possa ter até cometido algum [erro]. Agora, qual foi o erro de dosagem que nós cometemos? Nós gostaríamos muito que houvesse uma melhoria econômica de emprego e de renda. Tem gente que acha que a gente devia ter deixado algumas empresas quebrarem e muitos trabalhadores se desempregarem. Eu tendo a achar que isso era um custo muito grande para o país. Agora que é possível discutir se podia ser um pouco mais, um pouco menos, é possível discutir", disse ela. Mas em seguida fez um contraponto: "Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo para a economia reagir".
Crise política - Em sua entrevista, como havia feito minutos antes no discurso que fez ao sancionar o novo Código de Processo Civil, a presidente afirmou que o governo está disposto a fazer um diálogo amplo e com "humildade".
Embora tenha dito que as manifestações são um direito do regime democrático, Dilma também fez uma espécie de apelo pela união nacional: "Vamos brigar depois. Agora vamos fazer pelo bem do Brasil tudo aquilo que tem que ser feito pelo bem do Brasil", declarou. No mesmo tom, ela disse que é preciso evitar a desestabilização das instituições: "Tem regras do jogo e elas têm que ser seguidas. Se você instabiliza um país sempre que lhe interessa, uma hora essa instabilidade passa a ser algo que ameaça a todos. A escalada é a pior situação que tem", afirmou.
A presidente também fez elogios ao PMDB e ao vice-presidente, Michel Temer. O partido de Temer tem se distanciado do PT e reclama da falta de espaço no governo: "Longe de nós querer isolar o PMDB", afirmou a petista.
Dilma Rousseff comentou ainda a afirmação, dada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segundo quem a corrupção está no Executivo, e não no Legislativo. A presidente discordou: "Eu acho que essa discussão não leva a nada. A corrupção não nasceu hoje. Ela não só é uma senhora bastante idosa nesse país como ela não poupa ninguém. Pode estar em tudo quanto é área, inclusive no setor privado", declarou.
Economia - Diante da crise econômica, Dilma adotou um discurso otimista. Ela afirmou que não é possível manter as políticas anticíclicas no formato que foram adotadas no primeiro mandato, mas disse que o ajuste fiscal vai fazer efeito. "Esse esforço vai ser ao longo deste ano, mas o Brasil tem todas as condições de sair em menos tempo do que em qualquer outra circunstância", afirmou.
Duque e Vaccari - A presidente da República disse não acreditar que a prisão do ex-diretor da Petrobras Renato Duque e o indiciamento dele e do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, tenham reflexos sobre o governo. "Eu não acredito. Esses acontecimentos mostram que todas as teorias a respeito de como é que o governo interferiu sobre o Ministério Público ou quem quer que seja para investigar ou fazer qualquer coisa com quem quer que seja são absolutamente infundadas", afirmou.
Fies - Além de reconhecer a possibilidade de erros na economia, Dilma admitiu que o governo errou na condução do Fies, o programa de financiamento estudantil. Segundo ela, foi inadequado ceder às universidades o controle sobre a contabilização das matrículas. "O governo cometeu um erro. Passou para o setor privado o controle dos cursos. Nós não fizemos isso com o Prouni, não fazemos isso com o Enem, não fazemos isso com ninguém", declarou. A presidente disse que o governo já começou a resolver a falha.
Ao comentar a postura de "humidade" prometida pelo governo, Dilma não quis fazer um mea culpa. "Tem uma certa volúpia da imprensa em querer uma situação confessional. Não tem na minha postura nenhuma situação confessional (...) Isso aqui não é um auto de confissões, vocês vã concordar, é uma entrevista". Depois, completou: "Se alguém achar que eu não fui humilde em algum diálogo, me diga qual e aí eu tomo providências. Caso contrário, seria um absoluto fingimento da minha parte".
A coletiva desta segunda foi a mais longa registrada nos últimos meses: durou quase meia hora.

Dilma enfrenta o maior protesto popular da história democrática


Ao menos 1,8 milhão de pessoas foram às ruas em todo o Brasil para se manifestar contra o governo e o PT. Ministros Rossetto e Cardozo falaram em defesa do governo — reciclando velhas propostas petistas, e sem sombra de autocrítica

 - Atualizado em 
O governo de Dilma Rousseff foi alvo neste domingo da maior manifestação espontânea já feita no Brasil contra um presidente da República. Vestidos de verde e amarelo, os brasileiros foram às ruas em todos os estados e no Distrito Federal para protestar contra a presidente e o Partido dos Trabalhadores. Ao menos 1,8 milhão de pessoas tomaram praças e percorreram avenidas, segundo estimativas das Polícias Militares nos Estados. O número, contudo, não leva em conta manifestações 
Ao contrário do que ocorreu na manifestação pró-governo de sexta-feira, quando o braço sindical do petismo, a CUT, e os grupos de sem-teto e sem-terra cooptados pelo governo organizaram marchas com militantes uniformizados - e pagos em grande número de casos -, nenhum partido político ou grupo organizado controlou os movimentos ou pôde reivindicar a sua paternidade. Com exceção de raros políticos em suas bases, nenhum expoente da oposição foi às ruas numa decisão calculada: de um lado, a ausência deles deixa claro que a manifestação é apartidária e espontânea; do outro, também não tinham certeza de como seriam recebidos em algumas praças. O candidato derrotado por Dilma, o tucano Aécio Neves, divulgou um vídeo usando a camisa da seleção brasileira no qual justificou porque não saiu de casa: "Depois de refletir muito, optei por não estar nas ruas neste domingo para deixar muito claro quem é o grande protagonista dessas manifestações: o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção".
A multidão que tomou as ruas foi muito maior do que a previsão mais pessimista do Planalto. Na véspera das passeatas, o governo articulava o discurso de que seriam atos sem foco definido, protagonizados pela "elite" e cujo pico de concentração seriam 100.000 pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo. De fato, a maior adesão ocorreu em São Paulo, mas com dez vezes mais pessoas do que jamais esperava o Planalto: recorrendo a imagens aéreas e programas de computador, a PM estimou a presença de 1 milhão de manifestantes na Paulista. A jornada também mostrou que pessoas de todos os estratos sociais participaram das marchas nas cinco regiões do Brasil, e que elas tinham, sim um foco claro: o governo Dilma e os anos de mando petista . A indignação provocada por ambos deu o tom das passeatas - sem que faltassem cartazes e palavras de ordem em favor do impeachment da presidente.
Dilma Rousseff passou o dia trancada no Palácio da Alvorada. Convocou um gabinete de crise para monitorar as passeatas e escalou os ministros Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, e José Eduardo Cardozo, da Justiça, para se pronunciar em nome do governo.
A fala teve início por volta das 18h45. Na contramão de uma postagem feita durante a tarde nas contas de redes sociais de seu ministério, que afirmava que o "discurso de ódio fere a democracia e não gera mudanças", Cardozo disse que as passeatas foram "legítimas, democráticas e com respeito às autoridades". Questionado sobre a postagem na entrevista coletiva, o ministro disse que deu ordem para que ela fosse retirada do ar. Como remédio contra a indignação, contudo, ele apresentou tão somente velhas promessas e ambições petistas: o envio de um pacote anticorrupção ao Congresso e a realização de uma reforma política que, ele explicitou, deve proibir as doações de empresas.
Se não houve sombra de autocrítica na fala de Cardozo, Miguel Rossetto, integrante de uma ala mais radical do PT, adotou um tom agressivo, para afirmar que a discussão de um processo de impeachment "não deve ser tolerada". Rossetto procurou também qualificar os manifestantes como sendo todos pertencentes ao contingente de eleitores que não votaram na presidente em 2014 - afirmativa categórica que as pesquisas mais recentes de aprovação do governo não autorizam, por mostrar que Dilma Rousseff perdeu rapidamente o cacife com que contava no início de seu segundo mandato. Rossetto também procurou defender o pacote de ajuste econômico que o governo procura implementar, e que desperta a insatisfação de setores de apoio ao petismo - ou do próprio partido.
Enquanto os ministros falavam, o Brasil continuava a expressar sua indignação, com panelaços semelhantes ao que recebeu o pronunciamento em rede nacional de Dilma Rousseff há uma semana, no Dia da Mulher.

sábado 14 2015

Chavistas confirmam conspiração denunciada por Nisman


Três ex-integrantes da cúpula chavista dizem a VEJA que, por intermédio da Venezuela, o Irã mandou dinheiro para a campanha de Cristina Kirchner em troca de segredos nucleares e impunidade no caso Amia

Por: Leonardo Coutinho, de Washington - Atualizado em 
Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e Cristina Kirchner(Morteza Nikoubazl/Reuters;Jorge Silva/Reuters; Alberto Pizzolia/AFP)
Há dois meses os argentinos se perguntam o que se passou em 18 de janeiro, dia em que o procurador federal Alberto Nisman foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Buenos Aires. Apenas quatro dias antes, ele havia apresentado à Justiça uma denúncia contra a presidente Cristina Kirchner e outras quatro pessoas acusadas por ele de acobertar a participação do Irã no atentado terrorista que resultou em 85 mortos e 300 feridos na sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994. No documento, Nisman explica que, além da assinatura de um Memorando de Entendimento que permitiria ao Irã interferir na investigação do caso, a república islâmica queria que a Argentina tirasse cinco iranianos e um libanês da lista de procurados da Interpol. O governo argentino tentou de todas as maneiras desqualificar o seu trabalho. Há três semanas, um juiz recusou formalmente a denúncia feita por Nisman, que havia sido reapresentada por um novo procurador. Sem se preocupar em esconder seu alinhamento político com o governo, o juiz aproveitou o despacho em que recusa a denúncia de Nisman para elogiar a presidente e sua administração.
Tudo indicava que o crime do qual Cristina e outros membros de seu governo foram acusados por Nisman se tornaria mais um dos tantos episódios misteriosos da história recente da Argentina. Um acordo entre países, porém, ainda que feito nas sombras, deixa rastros. Desde 2012, doze altos funcionários do governo chavista buscaram asilo nos Estados Unidos, onde estão colaborando com as autoridades em investigações sobre a participação do governo de Caracas no tráfico internacional de drogas e no apoio ao terrorismo. VEJA conversou, em separado, com três dos doze chavistas exilados nos Estados Unidos. Para evitar retaliações a seus parentes na Venezuela, eles pediram que sua identidade não fosse revelada nesta reportagem. Todos fizeram parte do gabinete de Chávez. Depois da morte do coronel, em 2013, compartilharam o poder com Maduro, com quem romperam depois de alguns meses. Os ex-integrantes da cúpula do governo bolivariano contam que estavam presentes quando os governantes do Irã e da Venezuela discutiram, em Caracas, o acordo que o procurador Nisman denunciou em Buenos Aires. Segundo eles, os representantes do governo argentino receberam grandes quantidades de dólares em espécie. Em troca do dinheiro, dizem os chavistas dissidentes, o Irã pediu que a autoria do atentado fosse acobertada. Os argentinos deviam também compartilhar com os iranianos sua longa experiência em reatores nucleares de água pesada, um sistema antiquado, caro e complexo, mas que permite a obtenção de plutônio a partir do urânio natural. Esse atalho é de grande proveito para um país interessado em construir bombas atômicas sem a necessidade de enriquecer o urânio e, assim, chamar a atenção das autoridades internacionais de vigilância.
Na manhã de 13 de janeiro de 2007, um sábado, contam os chavistas, o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, desembarcou na capital da Venezuela para sua segunda visita ao país. Cumpridos os ritos protocolares, Chávez recebeu Ahmadinejad para uma reunião no Palácio de Miraflores, acompanhada apenas pelos guarda-costas de ambos, pelo intérprete e por membros do primeiro escalão do governo venezuelano. O encontro aconteceu por volta do meio-dia, pouco antes do almoço. A conversa durou cerca de quinze minutos. Falaram sobre os acordos bilaterais, os investimentos no setor de petróleo e o intercâmbio de estudantes. Foi então que Ahmadinejad disse a Chávez que precisava de um favor. Um militar que testemunhou a reunião relatou a VEJA o diálogo que se seguiu:
Ahmadinejad - É um assunto de vida ou morte. Preciso que intermedeie junto à Argentina uma ajuda para o programa nuclear de meu país. Precisamos que a Argentina compartilhe conosco a tecnologia nuclear. Sem a colaboração do país, será impossível avançar em nosso programa.
Chávez - Muito rapidamente. Farei isso, companheiro.
Ahmadinejad - Não se preocupe com os custos envolvidos nessa operação. O Irã respaldará com todo o dinheiro necessário para convencer os argentinos. Tem outra questão. Preciso que você desmotive a Argentina a continuar insistindo com a Interpol para que prenda autoridades de meu país.
Chávez - Eu me encarregarei pessoalmente disso.
Os presidentes se levantaram e foram almoçar. Depois disso, voltaram para uma nova reunião. Desta vez, apenas com a presença do intérprete iraniano. Os chavistas asilados em Washington disseram a VEJA ter tido participação direta nas providências tomadas por Chávez para atender ao pedido de Ahmadinejad. Os dois governantes viram na compra de títulos da dívida argentina pela Venezuela, que já vinha ocorrendo desde 2005, uma oportunidade para atrair a Argentina para um acordo. Em 2007, o Tesouro venezuelano comprou 1,8 bilhão de dólares em títulos da dívida argentina. No fim de 2008, a Venezuela estava de posse de 6 bilhões de dólares em papéis da dívida soberana argentina. Para a Argentina o negócio foi formidável, dado que a permanente ameaça de moratória espantava os investidores. Os Kirchner, Néstor e Cristina, fizeram diversos agradecimentos públicos a Chávez pela operação financeira.
Menos refinada e mais problemática foi a transferência direta de dinheiro de Caracas para Buenos Aires. Em agosto de 2007, Guido Antonini Wilson, um empresário venezuelano radicado nos Estados Unidos, foi flagrado pela aduana argentina tentando entrar no país com uma maleta com 800 000 dólares. Ele afirmou, depois, que o dinheiro se destinava à campanha de Cristina Kirchner, que dois meses depois viria a ser eleita presidente da Argentina, sucedendo a seu marido, Néstor. Coincidentemente, Chávez tinha uma visita oficial à capital argentina agendada para dois dias depois da prisão de Antonini. Um dos ex-integrantes do governo chavista ouvidos por VEJA estava com Chávez quando ele foi avisado da prisão por Rafael Ramírez, então presidente da PDVSA, a estatal de petróleo, e hoje embaixador da Venezuela na ONU. Chávez reagiu com um palavrão e perguntou quem tinha sido o "idiota" que coordenou a operação. "A verba era originária do Irã para a campanha de Cristina Kirchner", diz a testemunha da cena. Ele completa: "Não posso afirmar que ela sabia que o dinheiro era iraniano, mas é certo que tinha consciência de que vinha de uma fonte clandestina".
Antonini foi solto em seguida e, de volta aos Estados Unidos, procurou o FBI, a polícia federal americana, para explicar-se sobre o episódio da mala. O serviço de inteligência chavista tentou dissuadir Antonini de sua intenção. A operação está descrita no livro Chavistas en el Imperio, do jornalista cubano­-americano Casto Ocando, com base nos autos do FBI sobre Antonini. Segundo Ocando, os agentes de Henry Rangel Silva, chefe do serviço de inteligência, ofereceram advogados a Antonini e, após a recusa, ameaçaram o empresário e seu filho de morte. As conversas com os advogados pagos pelos venezuelanos foram gravadas pelo FBI. Em uma delas, do dia 7 de setembro de 2007, eles dizem que Caracas estava disposta a pagar 2 milhões de dólares pelo silêncio de Antonini. Os espiões foram presos e acusados de conspiração. Em seu livro, Ocando acerta ao concluir que Chávez estava disposto a tudo para encobrir a origem do dinheiro, inclusive assumir a culpa pela remessa, atribuindo-a à PDVSA. O que Ocando não sabia, e agora se sabe, é que os recursos vinham do Irã.
O dinheiro fazia escala na Venezuela da mesma forma que era enviado à Argentina: em malas. Na reunião em que Ahmadinejad pediu a Chávez que atraísse a Argentina para um acordo, os dois presidentes também decidiram criar um voo na rota Caracas, Damasco e Teerã, que depois veio a ser apelidado pela cúpula chavista de "aeroterror". Entre março de 2007 e setembro de 2010, um Airbus A340 fazia esse percurso duas vezes por mês. Segundo os chavistas ouvidos por VEJA, quando partia de Caracas, a aeronave ia carregada de cocaína. Também eram transportados documentos e equipamentos, sobre os quais os ex-funcionários chavistas não conhecem detalhes. A droga era descarregada na capital da Síria, de onde era redistribuída pelo Hezbollah, um grupo terrorista do Líbano. Desde 2012, quando os primeiros chavistas começaram a se exilar nos Estados Unidos, as autoridades americanas sabem que o narcotráfico suplantou o Irã como principal fonte de financiamento do Hezbollah. Na volta, o Airbus trazia dinheiro vivo e terroristas procurados internacionalmente.
Um dos principais operadores dos voos Caracas-Teerã era o ministro do Interior da Venezuela Tareck El Aissami, hoje governador do Estado de Aragua. A Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) colheu diversos depoimentos que apontam o político como o elo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Hezbollah. El Aissami tinha como preposto o libanês Ghazi Nasr al-Din, então adido comercial da Embaixada da Venezuela em Damasco. Al-Din, que no fim de janeiro entrou na lista dos mais procurados do FBI, tinha como missão produzir e distribuir passaportes venezuelanos para ocultar a verdadeira identidade dos terroristas que viajavam pelo mundo. Entre os acobertados por ele está o clérigo Mohsen Rabbani, citado por Nisman como executor do atentado à Amia. Foi usando um passaporte concedido por Al-Din que Rabbani visitou secretamente o Brasil pelo menos três vezes. Mesmo com o fim do "aeroterror", em 2010, a Venezuela continuou fornecendo documentos para acobertar terroristas. Segundo um dos chavistas exilados, em maio de 2013, o governo de Caracas dava guarida a pelo menos 35 integrantes do grupo Hezbollah.
Os chavistas entrevistados para esta reportagem não sabem se os iranianos foram bem-sucedidos em obter as informações sobre o programa nuclear argentino que Ahmadinejad tanto queria. Apesar de eles terem pertencido ao círculo mais próximo do presidente, as discussões sobre esse tema estavam reservadas aos ministros da Defesa da Venezuela e do Irã. Do lado argentino, a interlocutora era a ministra da Defesa Nilda Garré, atualmente embaixadora de seu país na Organização dos Estados Americanos (OEA). Garré é uma e­­x-guerrilheira montonera que se encontrou diversas vezes com Hugo Chávez, mantendo com ele uma relação estreita, que se oficializou em 2005, quando foi nomeada embaixadora da Argentina em Caracas. Segundo um dos desertores chavistas, foi Chávez quem pediu a Néstor Kirchner que indicasse Garré ao posto. Chávez e Garré tinham também uma relação pessoal íntima, que só tem interesse público por ser um dos componentes da aliança política entre os dois países. "Era algo na linha 50 Tons de Cinza", diz o ex-funcionário chavista. De acordo com ele, quando Chávez e Garré se encontravam no gabinete do líder venezuelano no Palácio de Miraflores, os sons da festa podiam ser ouvidos de longe. Depois de seis meses, Garré voltou a Buenos Aires para assumir a pasta da Defesa. Ficou no cargo até o fim de 2010. "Não posso afirmar que o governo da Argentina entregou segredos nucleares, mas sei que recebeu muito por meios legais (títulos da dívida) e ilegais (malas de dinheiro) em troca de algo bem valioso para os iranianos." Diz outro chavista exilado: "Na Argentina, a detentora desses segredos é a ex-embaixadora Garré". Existem semelhanças entre os reatores nucleares de Arak, no Irã, e de Atucha, na Argentina. Ambos foram planejados para produzir plutônio, elemento essencial para a fabricação de armas atômicas, usando apenas urânio natural. A diferença é que Arak deveria ter entrado em operação no ano passado, mas não há indícios de que isso tenha efetivamente ocorrido. O de Atucha funciona desde 1974 e gera 2,5% da energia elétrica da Argentina. A tecnologia nuclear dos argentinos também era útil para pôr em funcionamento a usina de Bushir, inconclusa desde 1979. Bushir foi inaugurada em 2011. Quem sabe a ministra Garré possa dar um quadro mais nítido do acordo Teerã-Buenos Aires costurado em Caracas.

sexta-feira 13 2015

As falas irresponsáveis dos petistas e o “medo do confronto de rua”

Leio na Folha que o governo teme que haja confrontos nas ruas nesta sexta. Entidades paragovernamentais como MST, CUT e UNE marcaram manifestações em 23 Estados em defesa do, deixem-me ver como escrever, statu quo. Elas estão no poder e enxergam nas manifestações marcadas para o dia 15 uma ameaça à sua hegemonia. E qual a razão do temor? Eventuais escaramuças serviriam de combustível adicional para o protesto do dia 15. Tomara que não aconteça nada de excepcional nesta sexta. Os petistas — incluindo o Palácio do Planalto — serão os principais responsáveis por eventuais escaramuças. Já chego lá.
Oficialmente, os manifestantes pró-governo vão marchar em defesa da Petrobras. Que pena que eles não tenham conseguido, no passado, defendê-la dos ladrões que foram postos lá pelo petismo, não é? O que querem mesmo é criar uma rede de proteção para Dilma, o que se mostra a cada dia mais difícil. A presidente iria, por exemplo, nesta sexta a Belo Horizonte. Desistiu da viagem para ficar longe das vaias. Volto ao ponto.
Apostam na violência os que insistem em acusar os organizadores e apoiadores da manifestação de domingo de incitadores do ódio. Apostam na violência os que chamam de golpe uma mera petição ao poder público — impeachment ou qualquer outra coisa. Apostam na violência os que tentam deslegitimar os que protestam, pespegando-lhes a pecha de “elitistas” e de “reacionários”. Apostam na violência os que reivindicam para si o monopólio da representação popular e não reconhecem como legítimas forças que não formem com suas fileiras. A propósito: a única manifestação violenta nessa fase de declínio do PT e de Dilma foi protagonizada por brutamontes à porta da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Apostam na violência aqueles que convocam exércitos, ou que prometem botá-los na rua, para combater adversários políticos, a exemplo do que fizeram, respectivamente, Luiz Inácio Lula da Silva e João Pedro Stedile.
Pepe Vargas, este inefável ministro das Relações Institucionais, espalha por aí que sente cheiro da “elite golpista”… Ah, entendo! Elite progressista era aquela parceria entre petistas e empreiteiras, não é mesmo?, para o bem geral do… partido!
Num vídeo meio esquizofrênico, Rui Falcão, presidente do PT, defende o direito à livre manifestação (que bom que ele respeita a Constituição!), desde que, segundo diz, não se atinja a autoridade constituída. Ah…  Collor, em 1992, era autoridade constituída, pois não? E o PT foi pra rua. Parece que Rui Falcão tem a ambição de ditar a pauta da oposição. Compreendo: definir a do PT deve estar um inferno.
Ah, sim: repetindo Lula, Falcão afirmou que os petistas não devem “abaixar a cabeça”. Entendo! É preciso, no entanto, um motivo para erguê-la, não é? Qual o presidente do PT oferece? Essa gente, definitivamente, perdeu o eixo e o que lhe restava de juízo.
Por Reinaldo Azevedo
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Cantora paulista Inezita Barroso tem sua vida corajosa retratada por Arley Pereira



Mário de Andrade de saias”, Inezita Barroso é a estrela rainha da música sertaneja brasileira. Perto dela, Paula Fernandes, Maria Cecília e Roberta Miranda são satélites. A conta bancária pode até ser maior, mas nenhuma dessas “majestades sabiás” é páreo para Ignez Magdalena Aranha de Lima, de 88 anos – apresentadora do programa Viola, minha viola (TV Cultura) há 33. Essa “caipira” filha de quatrocentões paulistas é uma das mulheres mais valentes do Brasil.

No livro Inezita Barroso – A história de uma brasileira (Editora 34), o jornalista Arley Pereira (1935-2007) revela uma desbravadora, que lutou por suas convicções muito antes de o feminismo virar moda. Conta ele que já nos anos 1920 a menininha bem-nascida preferia comandar a turma de garotos ao mundo cor-de-rosa dos laços de fita. Na fazenda, a jovem sinhazinha preferia a companhia da caipirada aos saraus de piano. Só passava as férias no meio dos peões.

Aos 7 anos, Ignezinha – ainda com g – ganhou o primeiro violão. Mas ela gostava mesmo era de viola – coisa proibida para mulheres. Nas suas festas de aniversário, o presente era ouvir o compositor Raul Torres. Amigo de seu pai, Bico Doce vinha tocar para ela. Bom ouvido, a aniversariante aprendia com o mestre as sutilezas da arte caipira.

Bela morena, a adolescente tomava chá das cinco no elegante Mappin, dedicava-se à natação (era aluna de Paul, pai da campeã Maria Lenk). No tradicional Clube Paulistano, conheceu o marido, Adolfo Cabral Barroso. Graças a ele, enturmou-se com estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ficou amiga dos atores Paulo Autran e Renato Consorte. Cunhada de locutor da Rádio Tupi, a universitária Inezita, estudante de biblioteconomia, juntou-se para sempre às rodas boêmias e artísticas.

A senhora Adolfo Barroso participava de recitais e peças do Teatro Brasileiro de Comédia, o famoso TBC, cantou para o astro Vittorio Gassman (ele quis levá-la para a Europa), tornou-se amiga da fadista Amália Rodrigues. A estreia no rádio veio em 1950. A moça sorridente fez shows na famosa boate carioca Vogue, mas se tornou artista profissional apenas em 1951, em recital em Pernambuco, para onde viajou com o marido. O convite veio do maestro Capiba, o famoso autor de frevos. 

A partir da temporada na Rádio Clube do Recife, a bela morena não parou de deslumbrar plateias. Apresentava-se nos microfones da Record e da Tupi, foi estrela da nascente TV, virou estrela de cinema e levou o Troféu Saci por seu papel no filme Mulher de verdade. Era artista, profissão malfalada, mas jamais lhe botaram cabresto.

De lá para cá, foram mais de 80 discos. Um deles completou seis décadas este ano e dá a medida do quilate de Inezita. De um lado, ela gravou Moda da pinga, aquele clássico do “co’a marvada pinga é que eu me atrapaio”; do outro estava a estreante Ronda, ícone da dor de cotovelo composto por Paulo Vanzolini. Nos anos 1950, a moça fina cantava na noite, criava a filha e se sustentava sem ligar para quem olhava torto para “a desquitada”. Inezita não limitava seu repertório à música de raiz. Aracy de Almeida não gostou de ver a “grã-fininha mascarada”, de quem se tornaria amiga, exibindo a bela voz em clássicos de Noel Rosa.

Microfones e estúdios eram pouco para Inezita: em 1957, ela se entusiasmou pelo jipe Willys. A bordo de um deles, com dois “copilotos” que não sabiam guiar, a estrela dirigiu por mais de seis mil quilômetros entre São Paulo e o Nordeste. Tal qual Mário de Andrade, recolheu melodias, letras, versos, instrumentos musicais e tesouros da cultura popular. Folclorista diplomada na estrada, nunca mais abandonou a lida. Pesquisou a cultura rural, apurou ainda mais o ouvido para o Brasil profundo.

Nos anos 1960, Inezita sentiu o golpe, mas não se deixou abater quando os meios de comunicação se tornaram templo do pop e da cultura jovem. A viola foi desbancada sem dó pela guitarra elétrica. Contratos à míngua, ela chegou a queimar seu querido violão amarelo na churrasqueira de casa. Começou a dar aulas de música – viu-se obrigada a ensinar iê-iê-iês de Roberto –, abriu um restaurante no Brooklin, chamado Casa de Inezita, onde servia comida caseira e cantava para a freguesia. Foi à luta, mas nunca abandonou a sua música.

Em 1980, a cantora passou a comandar uma trincheira da cultura popular brasileira: o programa Viola, minha viola, transmitido pela TV Cultura. Ali, sertanejo universitário e dupla famosa e moderninha não tinham vez. Astros são gente do quilate de Pena Branca e Xavantinho (então desconhecidos, ganharam de Inezita estímulo para prosseguir – e estourar) e da genial Helena Meirelles. A violeira chegou à televisão graças a Inezita – e muito antes de se tornar famosa nas páginas da americana Guitar player, bíblia dos instrumentistas.

No rádio, a apresentadora comandou vários programas dedicados à cultura popular. Almir Sater, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Roberto Correia (com quem ela gravou dois discos) e Tonico e Tinoco são alguns de seus companheiros de microfone. Patativa do Assaré deu a Inezita sua última entrevista.

Bibliotecária, ela guarda um verdadeiro museu de folclore em dois imóveis. Aos 55 anos, virou professora do Conservatório de Pouso Alegre, no Sul de Minas, ensinando coisas do Brasil à garotada. Em vez de provas caretas, desafiou: vamos fazer desfile de carro de boi? A moçada teve de se virar, mas aqueles carrões de madeira ressurgiram desfilando pelas ruas e arrancando lágrimas dos antigos. Em Mogi das Cruzes (SP), onde ela ensinou na faculdade, estudantes se desdobraram para reproduzir uma festa de São João como as de antigamente. Com mastro, cartomante e até cigano...

Aos 88 anos, a mestra continua na lida. Dê uma espiada em www.inezitabarroso.com.br: lá está o contato para shows – são quatro números de telefone! Entretanto, quem quiser assistir in loco à gravação de Viola, minha viola vai ter de esperar. A função deste ano já se encerrou, mas em fevereiro começa a temporada 2014. Inezita – a nossa Hebe caipira – estará lá, firme e forte. Com aquele sorrisão do tamanho do Brasil.

INEZITA BARROSO – A história de uma brasileira
. De Arley Pereira
. Editora 34 
. 207 páginas, R$ 44

Ângela Faria - Redação EMPublicação:07/12/2013 00:13Atualização:09/12/2013 14:21

PF vai exigir imagens de hotel para investigar caixa dois de Cabral


Ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) deve ser interrogado em até 60 dias. Delator do petrolão, Paulo Roberto Costa disse ter levantado 30 milhões de reais em doações clandestinas para campanha de 2010

Por: Daniel Haidar - Atualizado em 
CAIXA DOIS - Ex-governador do Rio, Sérgio Cabral é investigado pelo STJ no âmbito da Operação Lava Jato(Frame/Folhapress)
A Polícia Federal vai solicitar ao Hotel Caesar Park, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, imagens e registros de entrada e saída do local no primeiro semestre de 2010. O objetivo é localizar provas documentais do encontro do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa com o ex-secretário estadual da Casa Civil do Rio de Janeiro Régis Fichtner. O caso é investigado porque Costa afirmou em depoimento, no âmbito de acordo de delação premiada, que se encontrou com Fichtner no hotel de Ipanema para tratar da arrecadação de 30 milhões de reais destinados a caixa dois da campanha de reeleição do então governador Sérgio Cabral (PMDB), e do vice Luiz Fernando Pezão (PMDB), em 2010.
Os recursos foram angariados com empresas contratadas na construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), da Petrobras.O inquérito para investigar se houve corrupção e lavagem de dinheiro foi aberto nesta quinta-feira por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A vice-procuradora-geral da República, Ela Wiecko, solicitou que a Polícia Federal interrogue em até 60 dias o ex-governador Sérgio Cabral, o ex-secretário Régis Fichtner e os executivos supostamente envolvidos nas doações clandestinas.
Entre os empresários, devem ser ouvidos Cláudio Lima Freire, da Skanska; José Aldemário Pinheiro Filho, da OAS; Ricardo Pessoa, da UTC; César Luis de Godoy Pereira, da Alusa; Ricardo Ourique Marques, da Techint; e Rogério de Araújo e Márcio Faria da Silva, da Odebrecht. Pessoa e Pinheiro Filho estão presos na carceragem da Polícia Federal de Curitiba desde 14 de novembro.
Já o atual governador Luiz Fernando Pezão pode prestar esclarecimentos por escrito, se tiver interesse. Pezão possui foro privilegiado e qualquer depoimento formal seu precisa ser autorizado pelo STJ, o que não foi requisitado até agora. Se, posteriormente, houver apresentação de denúncia contra ele, só será aberta ação penal se for aprovada por maioria na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde o governador goza de apoio majoritário. Uma eventual blindagem pelos deputados estaduais preocupa o Ministério Público.
Doações de campanha - O Ministério Público também requisitou que a Polícia Federal faça a análise das doações oficiais realizadas para a campanha de Cabral e Pezão em 2010. Como destaca a vice-procuradora-geral da República Ela Wiecko no pedido de investigação, houve contribuições oficiais das empresas, embora, segundo a denúncia do delator, também tenham sido realizadas contribuições clandestinas. Alusa (500.000 reais), Odebrecht (200.000 reais) e UTC (1 milhão de reais) doaram ao comitê financeiro único do PMDB do Rio de Janeiro. Já a OAS doou 400.000 reais ao comitê financeiro da Direção Estadual do PMDB e 1 milhão de reais ao Comitê Financeiro da chapa Sérgio Cabral/Luiz Fernando Pezão.
Mesmo as doações oficiais são investigadas porque recursos desviados da Petrobras eram repassados aos políticos e partidos na forma de contribuições registradas no TSE, de acordo com as revelações dos delatores da Operação Lava Jato.Todas as diligências foram autorizadas em decisão do ministro Luís Felipe Salomão, responsável pelos desdobramentos da Operação Lava Jato no STJ.
De acordo com depoimento de Paulo Roberto Costa, ele foi chamado diretamente pelo então governador Sergio Cabral para discutir contribuições de campanha à reeleição. No encontro, estavam presentes Pezão e o então secretário Regis Fichtner. Depois dessa primeira reunião, Costa disse que voltou a se encontrar com Fichtner no hotel Caesar Park, em Ipanema. Coube ao ex-diretor da Petrobras solicitar dinheiro para o caixa dois do peemedebista com empreiteiras que atuavam no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), como a Skanska, a Alusa e a Techint. Segundo o delator, o consócio Conpar, formado pela Odebrecht, UTC e OAS, desembolsou sozinho metade do caixa dois: 15 milhões de reais.
Em nota, Fichtner nega que tenha se encontrado com Costa para tratar de doações clandestinas. Pezão e Cabral também negam o pedido.