domingo 20 2013
Comissão de Direitos Humanos aprova projeto que autoriza igrejas a vetar gays
Proposta será avaliada pela Comissão de Constituição e Justiça; se aprovado, religiosos poderão se recusar a fazer cerimônias em desacordo com suas crenças
Eduardo Bresciani - O Estado de S. Paulo
BRASÍLIA - A Comissão de Direitos Humanos e Minorias, comandada pelo pastor Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou nesta quarta-feira, 16, projeto de lei que permite a organizações religiosas expulsarem de seus templos pessoas que "violem seus valores, doutrinas, crenças e liturgias". A proposta ainda desobriga igrejas a celebrar casamentos em "desacordo com suas crenças".
O objetivo é evitar que decisões judiciais obriguem a celebração de uniões entre homossexuais, além de permitir a retirada de manifestantes que fizerem protestos dentro de templos, como duas garotas que chegaram a ser presas no mês passado por se beijarem durante culto comandado por Feliciano.
Autor do projeto, o deputado Washington Reis (PMDB-RJ), deixou claro tal intenção na justificativa da proposta. "Deve-se a devida atenção ao fato da prática homossexual ser descrita em muitas doutrinas religiosas como uma conduta em desacordo com suas crenças. Em razão disso, pelos fundamentos anteriormente expostos, deve-se assistir a tais organizações religiosas o direito de liberdade de manifestação".
Designado por Feliciano como relator, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi o responsável pelo parecer favorável. Ele argumentou que as organizações têm o direito de definir suas próprias regras de funcionamento e que a participação nelas deve ser limitada a quem concorda com suas doutrinas. "Do contrário pode-se entender como verdadeira imposição de valores que não são próprios das igrejas, sendo que, aqueles que não concordarem com seus preceitos, basta eximir-se voluntariamente da participação em seus cultos". O projeto seguirá agora para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
A aprovação gera nova polêmica em relação ao comando do pastor na comissão. Feliciano assumiu sob acusação de homofobia e racismo por declarações feitas em redes sociais. Apesar dos protestos, permaneceu no cargo e conduziu a votação do projeto apelidada de "cura gay", que revogava resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe os profissionais da área de colaborar com eventos e serviços que ofereçam tratamento e cura de homossexualidade, além de vedar manifestação que reforce preconceitos sociais em relação aos homossexuais. A proposta foi levada ao plenário e derrubada.
Ação entre amigos arranha reputação da ciência nacional
Fernando Reinach
Editores de quatro revistas brasileiras da área médica organizaram uma operação entre amigos para burlar o sistema internacional que avalia revistas científicas. Foram descobertos por um programa de computador. A divulgação dessa descoberta mostra o que alguns pesquisadores são capazes de fazer para satisfazer os critérios quantitativos utilizados pelo governo para avaliar, promover e remunerar cientistas.
Praticar ciência é uma atividade arriscada. Descobrir o desconhecido é difícil e frustrante. O sucesso de um cientista pode ser avaliado com uma única pergunta: "O que você descobriu?" Se a resposta for "o próton", "a vacina contra a varíola" ou "um novo antibiótico", você esta diante de um cientista de sucesso. Mas, na maioria das vezes, a única resposta honesta é "ainda não descobri nada importante, mas estou tentando". Muitos cientistas brilhantes passam a vida sem nunca descobrir algo relevante. O sucesso não é garantido e isso não é demérito, o importante é tentar solucionar um problema relevante.
Com profissionalização da ciência foram criados mecanismos para acompanhar o progresso de cientistas do grupo "ainda não descobri nada". A solução foi a publicação e avaliação de resultados parciais, os trabalhos científicos. Neles os cientistas descrevem os progressos que obtêm ao longo da vida. É uma forma de prestar contas do trabalho em andamento. No século XIX a obra de uma vida consistia em um punhado de livros. Hoje um jovem que ainda não descobriu nada relevante possui em seu currículo dezenas de trabalhos científicos, cada um descrevendo uma micro-descoberta.
Mas como comparar o progresso de cientistas do grupo "ainda não descobri nada" (hoje são chamados de "jovens produtivos"), cada um com dezenas de trabalhos científicos publicados? A solução, por incrível que pareça, não inclui a leitura e avaliação da qualidade do que está escrito em cada um dos trabalhos. A avaliação é feita de maneira quantitativa, com base no número de citações. Se um trabalho é citado na bibliografia de muitos trabalhos de outros cientistas, ele é considerado bom. Se o trabalho é pouco citado, ele é pior. Com base na quantidade de trabalhos publicados e as citações recebidas, é calculado um índice da qualidade do cientista (você pode verificar o índice dos seus conhecidos no Google Scholar), utilizado para decidir quem merece financiamento, quem deve ser contratado ou promovido. Esse critério numérico provoca distorções como o fracionamento de cada pequena descoberta em um número maior de trabalhos (veja o artigo Darwin e a Prática do "Salami Science" publicado no Estado, em 27 de abril de 2013).
Com o aumento do número de trabalhos publicados e as facilidades da internet, o número de revistas científicas explodiu. Parte dos cientistas passou a enviar seus trabalhos para revistas de pouca qualidade, que são menos rigorosas, com o objetivo de aumentar seu número de publicações e consequentemente seu número de citações.
A abundância de revistas pouco rigorosas tornou necessário separar o joio do trigo. Novamente, em vez de avaliar a qualidade do que a revista publica, foi criado o chamado "fator de impacto", uma medida da quantidade média de citações que um trabalho publicado em uma dada revista recebe.
A grande maioria das revistas brasileiras tem um fator de impacto muito baixo, menor que três. Isso significa que um trabalho publicado em uma dessas revistas provavelmente vai ser citado três vezes.
É fácil imaginar que os cientistas preferem publicar em revistas de fator de impacto alto. Por sua vez, o governo incorporou o fator de impacto das revistas na fórmula utilizada para avaliar cientistas e instituições.
Esse mecanismo criou um incentivo para os editores tentarem aumentar o fator de impacto de suas revistas. Foi com esse propósito que os editores de quatro revistas científicas médicas brasileiras formaram sua pequena quadrilha. Os editores da Revista da Associação Médica Brasileira, da Clinics, do Jornal Brasileiro de Pneumologia e da Acta Ortopédica Brasileira, todos ligados aos melhores hospitais e universidades brasileiras, tiveram uma ideia. Cada uma das quatro revistas publicaria uma série de artigos nos quais seriam citados um grande número de artigos publicados nas outras três revistas. Os artigos foram encomendados e publicados.
Os editores imaginaram que, com o aumento de citações recebidas pelas revistas, o índice de impacto seria aumentado no sistema de classificação da Thomson Reuters, que apura e publica o índice de impacto de todas as revistas científicas. Ao cruzarem os dados, os computadores da Thomson Reuters descobriram a anomalia e desmascararam a artimanha do grupo. Um dos editores confessou a trapaça.
A punição foi branda. Não existe lei que proíbe esse tipo de fraude intelectual ou a ação entre editores de revistas com o objetivo de aumentar artificialmente o índice de impacto. As revistas foram retiradas do índice da Thomas Reuters, o governo deixou de contabilizar nas suas equações as publicações feitas nessas revistas, e um dos editores foi demitido.
É por essa e outras razões que, enquanto a quantidade de ciência feita no Brasil vem aumentando, sua qualidade vem diminuindo.
Durante a punição essas revistas deveriam estampar um aviso nos moldes dos impressos em maços de cigarro: "Cuidado: esta revista pode fazer mal à sua saúde ética e moral".
Fernando Reinach é biólogo
MAIS INFORMAÇÕES: BRAZILIAN CITATION SCHEME OUTED. NATURE VOL. 500 PAG. 510 2013
MAIS INFORMAÇÕES: BRAZILIAN CITATION SCHEME OUTED. NATURE VOL. 500 PAG. 510 2013
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