sábado 12 2012

Planalto nega ter dado aval à troca de comando da Delta


Governo Dilma

Governo afirma não ter interferido na compra da construtora, que anunciou novo presidente; Delta é alvo de processo administrativo na CGU

Laryssa Borges
Dilma Rousseff: Planalto diz que 'são falsas' ilações de que operação teve aval do governo
Dilma Rousseff: Planalto diz que 'são falsas' ilações de que operação teve aval do governo (Ueslei Marcelino/Reuters)
O Palácio do Planalto negou nesta sexta-feira que o governo federal tenha interferido ou dado consentimento à holding J&F, controladora do frigorífico JBS, para adquirir a construtora Delta. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo informa que o empresário José Batista Júnior, um dos controladores do frigorífico, confirmou que o governo foi consultado e deu sinal verde para a compra da empreiteira sob o argumento de se evitar a paralisia de obras. A empresa também negou interferência do Planalto no negócio.
"Em relação às negociações sobre a mudança do controle da Delta Construção, o governo federal reitera que não interfere em operações privadas. São falsas as ilações de que a operação teve aval deste governo”, diz nota da Secretaria de Comunicação da Presidência.
Alvo de processo administrativo na Controladoria-geral da União (CGU) desde o último dia 24, a Delta será presidida agora pelo ex-presidente da usina de álcool e açúcar Renuka, Humberto Farias. O ex-presidente, Fernando Cavendish, deixou a empresa após suspeitas de que a construtora estaria envolvida no esquema de corrupção de políticos, troca de favores e lavagem de dinheiro do bando coordenado por Cachoeira.
“Caso a CGU conclua pela condenação [da Delta], a empresa estará impedida de ser contratada pela administração pública”, informa o Planalto.
Depoimento - Depois da informação de indícios do comprometimento de setores do governo goiano e da construtora com o esquema coordenado por Cachoeira, o relator da CPI instalada no Congresso, deputado Odair Cunha (PT-MG), defendeu a importância de ouvir, por exemplo, o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu.
A convocação do ex-dirigente da empreiteira já foi aprovada pela CPI e ele deve prestar depoimento no dia 29 de maio. “Confirmou nossa percepção de que há uma relação muito intensa entre o Carlos Cachoeira e o Claudio Abreu, reafirmando a tese de que ele seria sócio oculto, com uma relação muito permanente entre eles a partir da Delta Centro-Oeste”, declarou Odair Cunha após o segundo depoimento da comissão de inquérito, nesta quinta-feira.
Por ora, não foi aprovado requerimento para a oitiva de Fernando Cavendish na CPI.

Corregedor da Câmara ainda espera inquéritos


Congresso

Eduardo da Fonte (PP-PE) não inciou análise de representações contra deputados porque não obteve material de investigações sobre Cachoeira

Gabriel Castro
Eduardo da Fonte: demora prejudica trabalho da corregedoria
Eduardo da Fonte: demora prejudica trabalho da corregedoria (Reinaldo Ferrigno/Agência Câmara)
O corregedor da Câmara dos Deputados, Eduardo da Fonte (PP-PE), ainda aguarda do Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para acessar o inquérito das operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), que flagraram a atuação do contraventor Carlinhos Cachoeira. Responsável por analisar representações contra três deputados acusados de envolvimento no esquema, o parlamentar depende do ministro Ricardo Lewandowski para consultar os autos das investigações.
Rubens Otoni (PT-GO), Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO) foram flagrados em contatos com o grupo do contraventor goiano e se transformaram em alvo de representações por quebra de decoro parlamentar. Caberá à Corregedoria da Câmara e à Comissão de Sindicância criada pela Casa decidir se levam o caso ao Conselho de Ética. Já o PSDB pulou uma etapa e já apresentou um pedido de investigação contra o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) diretamente ao conselho.
Demora - A CPI do Cachoeira já obteve total acesso ao material. Eduardo da Fonte, que esperava receber cópia dos autos até a quarta-feira passada, diz que a demora prejudica os trabalhos da Corregedoria. "A gente tem a informação de que o despacho está pronto para o ministro fazer mas até ontem ele não havia feito", diz ele.
Assim que receber o material, o deputado vai acomodar os documentos em uma sala-cofre, assim como foi feito pelo comando da CPI. Eduardo da Fonte acredita que terá acesso aos inquéritos até a semana que vem. Mas também cogita uma saída alternativa: pedir que o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), compartilhe os autos que já estão à disposição da CPI: "Se eu não conseguir, eu não descarto pedir ao Vital. Mas isso seria só em último caso", afirma.

Depoimentos à CPI do Cachoeira desmontam ofensiva de mensaleiros contra a imprensa


Corrupção

Os primeiros testemunhos feitos à comissão que investiga a rede do contraventor fazem ruir o plano de mensaleiros de usar o escândalo para atacar os que contribuíram para revelar e levar à Justiça os responsáveis pelo maior esquema de corrupção do país

Daniel Pereira, Otavio Cabral e Laura Diniz
Fim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (à esq.) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informações
Fim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (à esq.) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informações
Há vinte anos Pedro Collor deu uma entrevista a VEJA. As revelações originaram um processo que, sete meses mais tarde, obrigou seu irmão, Fernando Collor, a deixar a Presidência da República. Há sete anos, VEJA flagrou um diretor dos Correios embolsando uma propina. O episódio foi o ponto de partida para a descoberta do escândalo do mensalão, que atingiu em cheio o governo passado e o PT. Agora, Collor e os mensaleiros se unem contra a imprensa num mesmo front, a CPI do Cachoeira. Criada com o nobre e necessário propósito de investigar os tentáculos de uma organização criminosa comandada pelo contraventor Carlos Cachoeira, ela seria usada, de acordo com o roteiro traçado pelo ex-presidente Lula e pelo deputado cassado José Dirceu, como cortina de fumaça para o julgamento do mensalão. O plano era lançar no descrédito as instituições que contribuíram para revelar, investigar e levar à Justiça os responsáveis pelo maior esquema de corrupção da história do país. Tamanha era a confiança no sucesso da empreitada que o presidente do partido, Rui Falcão, falou publicamente dela e de sua meta principal: atacar os responsáveis pela "farsa do mensalão". Tudo ia bem - até que os fatos se incumbiram de jogar o projeto petista por terra.
Na semana passada, dois delegados da Polícia Federal prestaram depoimento à CPI do Cachoeira. Eles foram responsáveis pelas operações Vegas e Monte Carlo, que investigaram a quadrilha do contraventor. A ideia dos radicais petistas e seus aliados era utilizar a fala dos policiais para comprometer o procurador-geral da República, Roberto Gurgel (que defenderá a condenação dos mensaleiros no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal), o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo (transformado em inimigo figadal de Lula desde que declarou que o ex-presidente tinha conhecimento da existência do esquema) e a imprensa, que revelou o escândalo. Nesse último setor, como deixou clara a performance do ex-presidente Collor, encarnado na triste figura de office boy do partido que ajudou a tirá-lo do poder, o alvo imediato era o jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal de VEJA em Brasília e um dos redatores-chefes da revista. O primeiro depoimento foi do delegado Raul Alexandre Marques, que dirigiu a Operação Vegas. Marques disse aos parlamentares que entregou ao procurador Roberto Gurgel, em setembro de 2009, indícios de envolvimento de três parlamentares - incluindo o senador Demóstenes Torres - com a quadrilha de Cachoeira. Gurgel, conforme o delegado, não teria determinado a abertura do inquérito nem dado prosseguimento à apuração. Foi a deixa para que petistas dissessem que ele tentou impedir o desmantelamento de uma organização criminosa e, por isso, deveria ser convocado para depor na CPI. O procurador-geral da República reagiu. Na seara técnica, disse que não abriu inquérito a fim de permitir a realização da Operação Monte Carlo, que desbaratou o esquema de Cachoeira no início deste ano. No campo político, foi ainda mais incisivo. "O que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão", afirmou. Ao fustigarem o procurador na CPI do Cachoeira e venderem a tese de que ele não mereceria crédito por ter uma atuação política, mensaleiros e aliados levaram procuradores e ministros do STF a sair em sua defesa.

Ataque aos acusadores - Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalão
ATAQUE AOS ACUSADORES - Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalão
Petistas, que chegaram a comemorar o resultado da primeira etapa do plano, agora já não demonstram o mesmo empenho para convocar Gurgel. Em uma conversa recente, o ex-ministro José Dirceu contou ao seu interlocutor o motivo do recuo. "O efeito foi o contrário do imaginado. A única consequência da CPI foi acelerar o processo do mensalão", afirmou. Lula, o idealizador do plano, também já faz leitura semelhante. Para ele, a CPI do Cachoeira "tem de ficar do tamanho que está" - ou seja, limitar-se a investigar Cachoeira e seus tentáculos no Congresso e em governos estaduais. Da mesma forma, a ofensiva para desqualificar o trabalho da imprensa já não seria uma prioridade. "Não podemos fazer dessa CPI um debate político ou um acerto de contas entre desafetos", afirmou o deputado Cândido Vaccarezza, do PT de São Paulo, espécie de porta-voz do grupo dos radicais. A declaração é uma guinada de 180 graus no discurso - guinada essa decidida apenas depois que os fatos, com sua persistente impertinência, se sobrepuseram aos interesses do partido.
Desde a prisão de Cachoeira, a falconaria petista seguiu a tática de disseminar mentiras e omitir uma parte, sempre a mais importante, da verdade. Para isso, não hesitou nem mesmo em recorrer a fraudes e manipulações nas redes sociais da internet . O grupo imputou à equipe de VEJA toda sorte de crimes, os quais, esperava, seriam pontuados pelos delegados da PF. E o que disseram os policiais em depoimentos à CPI? Que o jornalista Policarpo Junior aparece lateralmente nas interceptações telefônicas sempre no exercício da profissão, apurando e investigando informações, que não cometeu crime nem trocou favores com a quadrilha (veja o quadro na pág. 65) e que não trocou "mais de 200 ligações com Cachoeira". Na Operação Monte Carlo, apenas dois telefonemas aparecem, segundo o delegado Matheus Rodrigues. Outros ingredientes fizeram a estratégia petista fracassar. O primeiro foi a dificuldade para encontrar aliados que se dispusessem a levar adiante os propósitos meramente políticos e revanchistas do partido. Diversas siglas, incluindo o PMDB, se negaram a aderir à trama. Como disse o senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais: "O que está em jogo é a democracia. No momento em que nós tivermos o Ministério Público Federal fragilizado e a imprensa cerceada, teremos a democracia em xeque". Houve ainda a firme condução dos trabalhos da CPI pelo relator Odair Cunha (PT-MG), que não se dobrou às pressões de facções do seu partido, e a oposição contundente de Dilma Rousseff à estratégia dos radicais. A presidente considera que, a continuar na direção em que estava, a CPI poderá virar uma disputa de políticos corruptos contra seus acusadores. Dilma está irritada com o presidente do PT, Rui Falcão, que vem defendendo publicamente o ataque à imprensa. Na terça-feira, disse a um auxiliar: "Se algum ministro falar algo parecido com o que o Rui vem dizendo, vai para a rua na hora".
Fotos: Orlando Brito, Bia Parreiras, Claudio Versiani, Roberto Stuckert/Ag. O Globo e Marcos Rosa
O ano em que o presidente caiu: Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (à dir., com a ex-mulher Rosane, a "madame que gastava demais", nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigou
O ANO EM QUE O PRESIDENTE CAIU - Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (à dir., com a ex-mulher Rosane, a "madame que gastava demais", nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigou
Que forças aparentemente tão antagônicas quanto Collor e os falcões do PT se juntem na CPI com o mesmo e nefasto propósito de desqualificar a imprensa livre pode parecer assustador, mas não deixa de ser também natural. Na política, as convicções balançam facilmente ao sabor das conveniências - para o bem ou para o mal, sendo que a segunda opção é mais frequente. Já na imprensa livre, os princípios não se sujeitam às circunstâncias. O dever de fiscalizar os governos vale para quaisquer governos. E, no caso de VEJA, ele foi levado a cabo com o mesmo rigor tanto na gestão lulo-petista quanto na cleptocracia de Collor. Em 2009, no julgamento que derrubou a Lei de Imprensa, o ministro Carlos Ayres Britto, hoje presidente do STF, usou uma frase de Roberto Civita, presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril e editor da revista VEJA, para descrever a natureza da relação entre jornalistas e homens públicos: "Contrariar os que estão no poder é a contrapartida quase inevitável do compromisso com a verdade da imprensa responsável".
Foi essa parte da imprensa, a responsável, que, diante do ataque perpetrado contra VEJA, ergueu a voz na semana passada na defesa dos princípios basilares do jornalismo. O jornal O Globo, em um editorial corajoso, criticou o que chamou de "campanha organizada contra a revista VEJA" feita por "blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT". Escreveu O Globo: "A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo".
Fiscalizar os atos de governo foi uma função que surgiu praticamente junto com a imprensa. Durante a revolução inglesa, no século XVII, comerciantes e industriais insurgiram- se contra o poder absolutista dos reis. Defendiam a supremacia das leis em relação à vontade do monarca e o fortalecimento do Parlamento como forma de diminuir a corrupção na corte. Nascia assim o conceito de accountability, ou o dever dos governantes de prestar contas à população. Para divulgarem suas ideias, os insurgentes ingleses usavam papéis impressos em uma máquina inventada dois séculos antes, a prensa tipográfica, que passou a produzir os primeiros jornais.
Ailton de Freitas/ Ag. O Globo, Tasso Marcelo/AE, Beto Barata/AE
Os réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeo
Os réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeo
No que se refere às suas instâncias fiscalizatórias, o Brasil já atingiu um patamar seguro. É uma situação diferente da que existia no tempo do processo de impeachment de Collor, quando o país vivia uma espécie de "lacuna fiscalizatória". A Constituição havia sido promulgada recentemente e o aparato estatal de autodepuração era ainda incipiente. O Ministério Público, por exemplo, estava assimilando seu novo papel de representante da sociedade, e não do estado, e a Polícia Federal apenas começava a se livrar da poeira autoritária que a recobria. Mas, ainda que as instituições tenham amadurecido, elas sozinhas não bastam para assegurar a vigilância constante sobre os governos e os homens públicos. Sua natureza as obriga a se mover vagarosamente. "Por esse motivo, o papel de precursor das denúncias não costuma ser das instituições públicas, mas da imprensa", diz Alexandre Camanho, presidente da Associação Nacional de Procuradores da República.
O jornalismo brasileiro vem cumprindo com vigor sua missão de revelar os casos de desídia e corrupção na esfera pública. Nos últimos anos, têm sido inúmeros os registros de parlamentares, prefeitos, governadores e ministros obrigados a deixar o cargo em razão de revelações feitas pela imprensa e comprovadas pelas autoridades. A imprensa livre não é ideológica. Não persegue indivíduos nem empreende cruzadas contra partidos ou administrações. Ela se volta, sim, contra os que, no poder, se dedicam à prática de espoliar o bem público, guiados pela presunção da impunidade e pela convicção de estarem acima do bem e do mal. Se alguma lição pode ser tirada até agora do último escândalo em curso na República, ela pode ser resumida em mais uma frase do ministro Ayres Britto: "À imprensa cabe vigiar o estado - nunca o contrário".

Desafio da CPI: manter foco na investigação e ir além da PF


Congresso

Se apenas trilhar o caminho já traçado pelos investigadores, comissão pode ter resultado inócuo. Para isso, é preciso ir além dos interesses políticos

Gabriel Castro
Análise do plano de trabalho da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que investiga a relação do contraventor Carlinhos Cachoeira com agentes públicos e privados
Análise do plano de trabalho da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que investiga a relação do contraventor Carlinhos Cachoeira com agentes públicos e privados (Lia de Paula/Agência Senado)
A CPI do Cachoeira tem em seu poder um material de dimensão ainda desconhecida. Nem o próprio relator, o deputado Odair Cunha (PT-MG), sabe dizer quantas são as escutas telefônicas repassadas pelos órgãos de investigação à Comissão Parlamentar de Inquérito. Mesmo a Polícia Federal ainda tem dezenas de malotes com informações que sequer foram abertos. O volume gigantesco de dados permite aos parlamentares uma visão clara do esquema operado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira. Por outro lado, a magnitude das investigações torna-se perigosa: cabe aos deputados e senadores ultrapassar o que já foi colhido pela PF e o Ministério Público, sob pena de ter comandado uma CPI inócua. Até agora, o comando da CPI tem se mantido na trilha dos fatos já descobertos. 
O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) já demonstra impaciência: "A CPI não pode continuar indo na direção do que já foi investigado. Ela tem que ir além", diz. Já o senador Pedro Taques não vê riscos de que a investigação seja redundante:  "Acredito que não ocorrerá. Vamos caminhar par a evasão de divisas e a lavagem de dinheiro", explica. O deputado Sílvio Costa (PTB-PE) concorda: "Sempre existe um integrante do baixo clero que acaba denunciando o resto do grupo. Vai acontecer".
Incógnitas - Um dos desafios para a CPI é compreender o destino dos recursos milionários movimentados pelo bando de Cachoeira. Há suspeitas de que parte do montante arrecadado pela quadrilha (que lucrava 1 milhão de reais por mês em apenas um dos pontos de exploração de caça-níqueis) tenha alimentado campanhas eleitorais. Outra incógnita surge da informação de que a construtora Delta repassou 39 milhões de reais a empresas da máfia. Ainda não está claro se todo o comando da empresa, a principal parceira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sabia das relações criminosas que sua diretoria no Centro-Oeste mantinha com a quadrilha.
Os recursos enviados ao exterior são uma parte nebulosa do esquema. Além de repassar os lucros da atividade criminosa para contas fora do país, a quadrilha controlava uma empresa de bingos eletrônicos em um paraíso fiscal no Caribe, o que reforça os indícios de lavagem de dinheiro. O mapeamento do caminho percorrido por esses recursos pode trazer novas revelações à CPI.
A comissão, contudo, tem enveredado por caminhos que a afastam do objetivo inicial - e se tornado palco da ação de petistas que têm como meta utilizar esta investigação para lançar uma nuvem de fumaça sobre o escândalo do mensalão, que será julgado ainda neste ano pelo Supremo Tribunal Federal. Um dos movimentos mais claros neste sentido é a pressão sobre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. O senador Fernando Collor chegou a sugerir, ainda na primeira reunião da CPI, a convocação de Gurgel. Mas, por decisão do presidente da comissão, senador Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), o requerimento não foi colocado em votação.
É dos mensaleiros o interesse maior em desqualificar Gurgel, peça-chave no julgamento do mensalão. Ele ratificou a denúncia contra os mensaleiros feita pelo seu antecessor, Antonio Fernando de Souza. Caberá a Gurgel ler no plenário do STF o pedido de condenação dos réus por crimes que vão de formação de quadrilha, passando pela lavagem de dinheiro, até chegar à corrupção ativa. Constranger publicamente Gurgel na CPI ajudaria a empanar o brilho litúrgico da abertura dos trabalhos no STF.
Governadores - Embora haja provas de uma infiltração do bando nos governos de Goiás e do Distrito Federal, também existem poucos elementos ligando Cachoeira à pessoa dos governadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF). No caso de Perillo, a Polícia Federal interceptou apenas uma conversa telefônica, em que o governador deseja parabéns pelo aniversário do contraventor. O governador de Goiás também encontrou Cachoeira em um jantar. Já Agnelo admite ter recebido Cachoeira uma vez. Caberá à CPI descobrir se os governadores tinham ciência de que a quadrilha operava em suas gestões. O escândalo já derrubou os chefes de gabinete tanto de um quanto de outro.
Há ainda pistas de que o bando fez incursões em estados como Santa Catarina e Paraná, além de ter se beneficiado - por meio da Delta - de contratos com órgãos do governo federal. Até agora, entretanto, a maior parte dos citados nas acusações pode alegar que não há provas contundentes apontando sua ligação com a organização criminosa. Se ficar limitada às descobertas já feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, a Comissão Parlamentar de Inquérito servirá apenas para emular uma investigação que já foi feita. Mas se os parlamentares cumprirem seu papel de investigadores, a CPI do Cachoeira pode trazer um benefício imensurável ao país.
Dirceu, com o aporte de Lula, está na raiz de uma frenética movimentação para tentar desmoralizar as instituições brasileiras. Nada escapa ao seu radar, como aqui se vem dizendo desde o fim de março: Procuradoria-Geral da República, Supremo Tribunal Federal e, obviamente, a imprensa. A exemplo de Luís Bonaparte, também tem a sua escória: o subjornalismo pistoleiro — em versão impressa e eletrônica — e uma gangue organizada para patrulhar a Internet e constituir uma enorme rede de difamação de adversários. O objetivo é um só: demonstrar que ninguém tem autoridade moral no país para condená-lo e aos demais quadrilheiros (como os caracterizou a Procuradoria Geral da República).

Todas as acusações que há contra a turma — escandalosamente recheadas de EVIDÊNCIAS E CONFISSÕES, como a feita por Duda Mendonça — seriam fruto de uma grande conspiração. Não por acaso, Rui Falcão, presidente do PT, a lorpa da democracia e do estado de direito, saiu atirando contra a o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e contra a imprensa. “Contra a imprensa, não, contra a VEJA!”, diria um bobinho. Isso é bobagem! Podem ter lá a sua hierarquia de desafetos dentro do ódio geral. Mas o ódio que cultivam é à liberdade de expressão. Basta que lembremos quantas vezes eles tentaram criar mecanismos para censurar o jornalismo. Lula teria feito a promessa solene a alguns interlocutores que ainda conseguirá esse intento antes de sair de cena. Na semana passada, Falcão anunciou que a “mídia” será o próximo alvo do governo Dilma. Consta que falou por sua própria conta. De todo modo, o dinheiro público continua a financiar a esgotosfera, prática inexistente nas demais democracias do do mundo. Sigamos.

1/7- CHICO BUARQUE - Ensaio / TV Cultura

Festival Record 1967 - Roda Viva - Chico Buarque

Chico Buarque - Mulheres de Atenas