terça-feira 10 2014

Hillary diz que sua família saiu 'falida' da Casa Branca

EUA

Em entrevista para divulgar livro, principal nome democrata à sucessão de Obama comentou o caso Monica Lewinsky e o ataque terrorista em Bengasi

Hillary Clinton durante entrevista à rede americana ABC
Hillary Clinton durante entrevista à rede americana ABC (Reprodução/ABC)
Ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Hillary Clinton disse em uma entrevista transmitida nesta segunda-feira pela rede americana ABC que sua família estava "completamente falida" e com várias dívidas quando deixou a Casa Branca, mais de 12 anos atrás.
"Deixamos a Casa Branca não só falidos, mas com muitas dívidas. Não tínhamos dinheiro quando chegamos lá e custamos para reunir os recursos para as hipotecas, as casas, a educação de Chelsea (sua filha única). Não foi fácil", afirmou Hillary na véspera do lançamento de seu novo livro, Hard Choices (Decisões Difíceis), relato de seus anos à frente do Departamento de Estado ainda sem previsão de lançamento no Brasil.
A ex-primeira-dama justificou que, por causa das dívidas, tanto ela quanto seu marido Bill Clinton cobraram para dar palestras desde que deixaram a Casa Branca – Hillary chega a cobrar 200.000 dólares em algumas conferências, enquanto o ex-presidente já ganhou 750.000 dólares por uma única palestra. 
Segundo estimativa da emissora CNN, no final do ano 2000, perto de Bill Clinton concluir seu segundo mandato, a família devia entre 2,28 milhões e 10,6 milhões de dólares. Com os ganhos das palestras, o casal saldou todos os seus débitos em 2004 e, desde então, viu seu patrimônio se agigantar. As conferências já teriam rendido 106 milhões de dólares a Bill Clinton desde que ele deixou a Presidência.   
No caso de Hillary, após sua saída do Departamento de Estado em 2013, ela teria acumulado até 5 milhões de dólares com as palestras, segundo dados da revista Mother Jones. Nem sempre, no entanto, o casal cobra pelo trabalho.
Perguntada na entrevista se considerava que os americanos poderiam entender como um valor "cinco vezes maior que salário médio nacional" pudesse ser cobrado por um único discurso, Hillary Clinton rebateu: "Acho que cobrar por palestras é muito melhor do que se juntar a um grupo ou empresa como fizeram tantos outros que deixaram a vida pública".
Traição – Hillary também afirmou diante das câmeras que "virou a página" sobre a aventura extraconjugal de seu marido com a ex-estagiária Monica Lewinsky, que no mês passado,  após dez anos longe dos holofotes, reapareceu em uma entrevista para a revista Vanity Fair, na qual voltou a falar sobre seu "affair" presidencial. 
'(Ela) é perfeitamente livre para fazê-lo (falar sobre o escândalo). A vejo como uma americana que se expressa como bem entende. Mas não é algo sobre o qual eu pense demais", disse Hillary. "Eu virei a página e é assim que vejo minha vida e meu futuro".
Ao ser perguntada se, em alguma ocasião e conforme foi divulgado pela mídia, chamou Lewinsky de "lunática narcisista", a ex-secretária de Estado se limitou a dizer: "Não vou comentar o que disse ou deixei de dizer nos anos 1990".
Líbia – Outro assunto abordado durante a entrevista foram as críticas à gestão de Hillary Clinton à frente do Departamento de Estado durante os atentados terroristas de Bengasi, na Líbia, em 2012. Questionada se o episódio em que quatro americanos morreram, entre eles o embaixador nesse país, eram um obstáculo à sua candidatura à presidência, ela declarou que são mais "uma razão para concorrer" à Casa Branca "do que o contrário".
"Realmente é mais uma razão para eu concorrer do que o contrário, pois não acredito que nosso grande país deva disputar campeonatos de segunda categoria. Devemos estar nos principais", afirmou Hillary. Para os críticos e a oposição republicana, ela não tomou todas as providências para evitar o ataque, cujas circunstâncias teriam sido escondidas do público pelo Departamento de Estado.  
Hillary comentou a recente criação de uma comissão parlamentar para investigar o assunto. "Acho que isso realmente é uma distração do trabalho duro que o Congresso deveria estar fazendo sobre os problemas do nosso país e do mundo", opinou. Ela também defendeu que não havia nada em suas mãos para que pudesse ter atuado de forma diferente para evitar a tragédia em Bengasi.
"Assumo a responsabilidade, mas eu não tomava as decisões de segurança", afirmou, para explicar depois que ela confiou no posicionamento dos especialistas sobre a manutenção da segurança no consulado americano, alvo dos torroristas. "Teria dado o possível para que isso não tivesse ocorrido", acrescentou Hillary.
(Com agência EFE)

domingo 08 2014

PP: o partido que virou para-raios de escândalos

Corrupção

Criado para se alinhar à direita, Partido Progressista tem histórico recente como satélite do PT e coleciona escândalos que vão do mensalão à Lava-Jato

Marcella Mattos, de Brasília
Paulo Octávio
FICHA – O empresário e ex-vice-governador do Distrito Federal Paulo Octávio, mais um político do PP no noticiário policial(Sérgio Lima/Folha Imagem)
Na noite da última segunda-feira, uma cena mais uma vez arrastou um personagem do universo político para o noticiário policial: Paulo Octávio, ex-vice-governador do Distrito Federal e um dos mais notórios empresários do ramo imobiliário de Brasília, foi preso. Paulo Octávio, ou PO, como é conhecido, é investigado por integrar uma organização criminosa que corrompia servidores públicos em troca da liberação de alvarás de construções em áreas irregulares. Réu no chamado mensalão do DEM, ele filiou-se recentemente ao Partido Progressista, o PP, legenda que tem sido presença contínua no histórico de escândalos de corrupção no Brasil.
Nos últimos anos, dezenas de políticos e apadrinhados do PP foram flagrados envolvidos em encrencas – a maioria delas, grave. A mais recente resultou na Operação Lava-Jato da Polícia Federal, que apura um megaesquema de lavagem de 10 bilhões de reais. Um dos personagens centrais do caso é o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, executivo que chegou à diretoria da maior estatal brasileira por indicação do partido. E a ligação da sigla com o escândalo não para aí. As investigações da Polícia Federal revelaram que Costa e o doleiro Alberto Youssef, pivô do esquema, mantinham uma estreita relação com diversos políticos e partidos. A lista:  os deputados federais Nelson Meurer (PR), João Pizzolatti (SC), Aline Corrêa (SP) – filha do ex-presidente da legenda Pedro Corrêa, preso no mensalão –, além de Mário Negromonte, ex-ministro das Cidades. O deputado Luiz Argôlo (BA), também investigado na operação, trocou recentemente o PP pelo Solidariedade.

Partido Progressista

FUNDAÇÃO: 4 de abril de 2003

- 1,4 milhão de filiados
- 466 prefeitos
- 4.927 vereadores
- 40 deputados federais
- 5 senadores
ORIGEM
Reformulado em 2003, o Partido Progressista tem raízes na Arena, agremiação que deu sustentação à ditadura militar no Brasil. Na década de 1990, após a fusão do PDS com o Partido Democrata Cristão, nasceu o Partido Progressista Reformador (PPR), que mais tarde seria transformado em Partido Progressista Brasileiro (PPB), até virar o PP.
Em São Paulo, um dos expoentes do partido é o ex-prefeito Paulo Maluf, um dos brasileiros que integra a lista de homens procurados pela Interpol. Maluf é investigado por desvio de recursos na construção de obras públicas e envio de remessas para contas bancárias no exterior. O ex-prefeito foi condenado pela Justiça no ano passado e perdeu seus direitos políticos por cinco anos. Após a decisão, Maluf licenciou-se do diretório paulista do PP, mas voltou ao comando da legenda com a missão repetir o abraço do partido com o PT. Seu partido oficializou apoio à campanha do ex-ministro Alexandre Padilha (PT) ao governo de São Paulo, repetindo a fórmula usada na eleição do prefeito Fernando Haddad (PT).
Com 40 deputados na Câmara, o PP é tratado como prioridade no projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff. A agremiação possui o quinto maior tempo na propaganda eleitoral de rádio e televisão – estima-se que tenha direito a um minuto e vinte segundos no pleito deste ano.
Para assegurar o apoio do PP, o governo federal firmou o compromisso de manter o Ministério das Cidades, um dos maiores orçamentos da Esplanada, sob o comando da sigla. Essa opção, entretanto, já custou caro ao Palácio do Planalto: em 2012, o então ministro e hoje conselheiro do Tribunal de Contas nos Municípios da Bahia Mário Negromonte foi demitido após ser acusado de pagar mesada de 30.000 reais a deputados do PP. Seus auxiliares também deixaram a pasta pela porta dos fundos.
“Não vou falar que é uma coisa agradável. Lógico que é desconfortável fazer parte de um partido envolvido em escândalos, mas isso existe em todos os partidos”, ponderou o deputado Guilherme Mussi (SP), que migrou para o PP no ano passado.
Apesar do histórico recente como partido satélite do PT, a sigla tem raízes na direita desde o nascimento como Arena, agremiação que deu sustentação à ditadura. Após a redemocratização do país, também já foi chamado de Partido Progressista Reformador (PPR) e Partido Progressista Brasileiro (PPB). Na Câmara, ainda restam deputados que causam dor de cabeça ao governo, como o gaúcho Luiz Carlos Heinze, da bancada ruralista, e Jair Bolsonaro (RJ), crítico mordaz da esquerda. 
“Fisiologismo é o nome do jogo. Vemos hoje a transformação de um partido que apoiou o governo militar para um partido político normal, atrás de verbas e de cargos no governo. A ideologia foi parar na gaveta, e acabou sendo substituída pelo imediatismo e pelo projeto de reeleição. O PP está em uma luta de sobrevivência para não virar nanico e, assim, fica nas mãos do governo. Sem o governo não há salvação", afirma David Fleischer, cientista político da Universidade de Brasília (UnB).
O deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), uma das lideranças na Câmara, rebate: “O partido tem doutrina e é partido antigo. O problema é que os métodos mudaram. E esses métodos aparecem do governo Lula para frente, com troca de favores em prol de cargos no governo. Esse método contaminou todos os partidos e só vai mudar depois que houver uma reforma política”.

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