domingo 09 2014

Sob pressão, João Paulo Cunha renuncia a mandato

Por Eduardo Bresciani e Daiene Cardoso, estadao.com.br
Preso na Papuda, deputado poderia enfrentar processo de cassação; em carta, ele afirma que toma a decisão 'com a consciência do dever cumprido'





BRASÍLIA - (atualizado às 22h21) O deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), preso desde terça-feira por sua condenação no processo do mensalão, renunciou ao mandato na noite desta sexta-feira, 7. Em uma carta curta encaminhada à Câmara, o parlamentar diz que deixa a função "com a consciência do dever cumprido".
"É com a consciência do dever cumprido e baseado nos preceitos da Constituição Federal e no Regimento Interno da Câmara dos Deputados que eu renuncio ao meu mandato de deputado federal", diz João Paulo.
A carta tem ainda uma citação do escritor e jornalista cubano Leonardo Padura: "...pois a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores".
João Paulo foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 9 anos e 4 meses de prisão durante o julgamento do mensalão pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Ele foi acusado de receber dinheiro do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, o operador do mensalão, e de participar de um esquema de desvio de verba pública quando era presidente da Câmara dos Deputados, no início do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O petista ainda poderá reverter a condenação por lavagem de dinheiro, pois a condenação aconteceu numa votação apertada entre os ministros do Supremo. Com isso, ele terá um embargo infringente julgado pelo plenário da Corte. Agora, ele está na prisão da Papuda, em Brasília, cumprindo 6 anos e 4 meses referentes aos dois outros crimes para os quais não cabe mais recurso. Como a pena total não chega a oito anos, ele poderá ser transferido para o regime semiaberto, em que é possível trabalhar durante o dia após autorização judicial.
Parte dos condenados do mensalão já presos conseguiu o benefício. Anteontem, João Paulo chegou a pedir à Justiça para cumprir o mandato, trabalhando como deputado na Câmara. O pedido não chegou a ser avaliado pela Justiça.
Com a renúncia do petista, os quatro deputados condenados no mensalão agora são ex-parlamentares. Tão logo tiveram suas prisões anunciadas, Pedro Henry (PP-MT), José Genoino (PT-SP) e Valdemar Costa Neto (PR-SP) renunciaram ao cargo, todos temendo o processo de cassação na Câmara.
João Paulo também estava ameaçado de ser cassado. Os deputados estudavam a possibilidade de abrir o processo interno já na semana que vem.
A oposição, temendo que os aliados do petista tentassem retardar o processo, chegou a ameaçar obstruir as sessões da Casa a fim de pressionar os colegas a cassarem o petista. "Vamos endurecer, obstruir tudo", avisou ontem o novo líder da minoria, deputado Domingos Sávio (PSDB-MG), antes da renúncia de João Paulo ser anunciada.
A renúncia de João Paulo encerra a polêmica sobre a cassação de mandatos após condenação, pelo menos no caso do mensalão. O Supremo tinha a tese de que a perda de mandato era automática, sem que fosse necessária uma avaliação do plenário. A Câmara, porém, insistia em colocar os casos em votação. Com as renúncias, não foi necessário.

Pizzolato fez testamento para garantir morte secreta

 Por ANDREZA MATAIS, estadao.com.br
Enquanto produzia documentos falsos para assumir a identidade do irmão morto, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique...





Enquanto produzia documentos falsos para assumir a identidade do irmão morto, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato registrou em cartório orientação para que sua morte, quando ocorrer, seja mantida em sigilo. No documento, de 24 de abril de 2009, Pizzolato informa não querer "velório, homenagem, celebração nem missa de sétimo dia". Pede, ainda, que seu corpo "seja cremado o mais rápido possível e que suas cinzas sejam jogadas no mar."
Pizzolato justifica no testamento que "não deseja que pessoas fiquem tristes e enlutadas" com sua morte. Com esse procedimento, o atestado de óbito seria a única comprovação de uma suposta morte de Pizzolato. A existência do testamento, registrado em cartório no Rio de Janeiro, foi revelada na edição de sexta-feira do jornal Correio Braziliense.
Pizzolato fugiu do Brasil no dia 11 de setembro de 2013 rumo à cidade de Maranello, na Itália, cerca de dois meses antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) decretar sua prisão pela condenação no processo do mensalão. Uma ação conjunta das polícias brasileira, italiana, espanhola e argentina revelou que ele viajou usando a identidade de Celso Pizzolato, seu irmão morto há quase três décadas.
O ex-executivo deu todos os passos que lhe possibilitariam assumir a identidade do irmão. Reativou RG, CPF, passaporte, declaração de imposto de renda e título de eleitor. Pizzolato, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), chegou a votar em nome do irmão morto nas eleições municipais de 2008.
Ao fazer o testamento, Pizzolato atestou que se encontrava "em seu perfeito juízo e no uso pleno de suas faculdades mentais e inteligência". Informou que vive há 29 anos com Andréa Eunice Haas (a união não foi oficializada) e que deixa para a mulher em caso de morte um apartamento no Rio de Janeiro, sua aposentadoria do fundo de pensão dos servidorores do Banco do Brasil e, em caso de falecimento do seu pai, a totalidade de seus bens não listados no testamento.
As testemunhas do testamento são um casal que tem ajudado Pizzolato a apresentar sua defesa, mesmo após a fuga. Alexandre Cesar Costa Teixeira e Marta Alfonço Teixeira não foram localizados pelo Grupo Estado.
Investigação
A Polícia Federal informou que vai investigar se houve anuência de seus servidores na emissão de um passaporte brasileiro em nome de um morto, Celso Pizzolato, apenas se forem encontrados indícios de envolvimento dos agentes. A investigação, conforme a PF, tem como foco o uso de documentos falsos por Pizzolato, incluindo o passaporte brasileiro.
Contudo, se essa análise levar ao entendimento de que policiais federais ajudaram na farsa será instaurado um processo administrativo. A direção da PF em Brasília ficou insatisfeita com a divulgação para a imprensa de que Pizzolato conseguiu emitir um passaporte em nome do irmão morto, o que expôs fragilidade de um sistema de responsabilidade da Polícia Federal.

Removida delegada que apura ligação de Lula com mensalão

Por ANDREZA MATAIS, estadao.com.br

Responsável pelo inquérito que investiga a suposta participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no esquema...





Responsável pelo inquérito que investiga a suposta participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no esquema do mensalão, a delegada Andrea Pinho foi removida do cargo nesta sexta-feira, 7. O inquérito que tem Lula como alvo será tocado por outro delegado, ainda não designado que pode pedir novas diligências ou o arquivamento do caso.
Pinho, que era delegada substituta da delegacia de crimes financeiros, foi transferida para a divisão de desvio de recursos públicos. Ela passará a despachar na sede da Polícia Federal em Brasília, mesmo prédio onde trabalha o diretor-geral, Leandro Daiello, que assina sua remoção, e não mais na superintendência da Polícia Federal no DF.
A delegada foi responsável pela Operação Miqueias que desarticulou um esquema de desvio de recursos de fundos de previdência municipais em vários Estados. Novata, Pinho foi escalada para tocar a operação de maior visibilidade no segundo semestre do ano passado, o que foi interpretado por colegas na PF como uma forma de lhe dar atribuições em meio às investigações sobre o ex-presidente Lula.
O inquérito sobre Lula foi aberto a partir de um novo depoimento prestado pelo operador financeiro do mensalão, o publicitário Marcos Valério, que implicou o ex-presidente e outros petistas. Revelado com exclusividade pelo jornal O Estado de S.Paulo, no depoimento Valério afirmou que Lula tinha conhecimento do esquema que resultou na condenação de 25 pessoas, entre elas José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, José Genoíno, ex-presidente do PT e João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara pelo PT. O inquérito tramite sob sigilo.

Lula ataca ministros do STF - Em Ribeirão Preto, ex-presidente fez defesa veemente do PT e de filiados condenados

Por GUSTAVO PORTO E RICARDO GALHARDO, estadao.com.br
Em Ribeirão Preto, ex-presidente fez defesa veemente do PT e de filiados condenados





O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez em Ribeirão Preto (SP), uma defesa veemente do PT e dos filiados que foram presos após serem condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo do mensalão. "O nosso partido está sofrendo; temos companheiros presos, somos solidários e queremos justiça." Lula ainda atacou, sem citá-los nominalmente, os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, do STF, por eles terem feitos declarações públicas sobre o processo após a condenação dos réus.
Em relação a Mendes, que declarou que doações feitas para o pagamento de multas de petistas condenados e presos poderiam ser fruto de lavagem de dinheiro, Lula disse que "o grande papel do ministro da Suprema Corte é falar nos autos do processo e não falar para a televisão o que ele pensa", disse. "Se quer fazer política, que entre para um partido", completou Lula, que participa do lançamento da "Caravana Horizonte Paulista", marco do início da pré-campanha do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo de São Paulo.
Para Barbosa, indicado por Lula ao STF, o petista comentou: "Quando você indica alguém, você está dando um emprego vitalício e o cidadão, quando quer fazer política, diga (...) não aceito ser ministro, vou ser deputado, entrar para um partido político e mostrar a cara".
Lula cobrou julgamento justo, pediu que os eventuais culpados pagassem, "desde que haja provas", e garantiu que "foi nosso partido que não deixou sujeira embaixo do tapete". Lembrou até mesmo do ex-presidente da República e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros, que tinha como símbolo uma vassoura. "São Paulo já teve candidato que andava com vassourinha para jogar sujeira embaixo do tapete, mas nós escancaramos a transparência no País".
O ex-presidente classificou o PT como "um dos maiores partidos de esquerda do mundo, sem dogmas", cujo compromisso, segundo ele, é ser ético e querer lutar para que as pessoas mais humildes conquistem cidadania. "Não fizemos tudo que poderíamos ter feito, mas vamos fazer ainda mais. Entendemos mais de povo que os tucanos e ninguém fez mais por esse País do que o Partido dos Trabalhadores".
Após comentar que se empenhará para reeleger a presidente Dilma Rousseff e dizer que dedicará mais tempo à política e às eleições, Lula rebateu as críticas da oposição e de analistas à política econômica e ao crescimento da dívida bruta do País.
"Querem o aumento do desemprego para baixar a inflação e agora falam em dívida bruta, que nunca foi utilizada no discurso. Estão incomodados porque o governo colocou dinheiro do tesouro do BNDES na Caixa Econômica e no Banco do Brasil", afirmou. "O dia que o PT governar o Brasil e o Estado de São Paulo, a gente vai fazer muito mais que a gente já fez", concluiu Lula, antes de elogiar Padilha e considerá-lo o mais bem preparado do partido para a disputa eleitoral no Estado.