terça-feira 03 2013

Lavou as mãos?


Thinkstock
Você que quer saber mais sobre cuidados com a saúde merece um aperto de mão.  Aperto dado, agora vai lavar essas mãos que elas podem estar cheias de microorganismos. Neste post, vou falar um pouco do porque e de como lavar da maneira correta.
Por que lavar as mãos?
É fundamental para a saúde. Não vivemos em ambientes esterilizados e, ao tocar em diferentes objetos ao longo do dia, nossas mãos contaminam-se com microorganismos, alguns deles causadores de doenças. Isso tanto nos torna vulneráveis a doenças quanto nos faz espalhar germes para os outros. Uma boa dose de água e sabonete faz descer pelo ralo não só a sujeira visível mas também estes microorganismos. Lavar as mãos ajuda a prevenir as doenças intestinais, diarreias, doenças respiratórias, infecções de pele e até mesmo gripe.
Quando lavar as mãos?
Não é para o ato de lavar as mãos se tornar uma coisa exagerada e compulsiva, até porque essa compulsão existe e atrapalha a vida de quem a tem. Mas lavar as mãos com bom senso, algumas vezes ao dia, é importante. Quando? Logicamente, quando elas aparentam estarem sujas. E também nas ocasiões abaixo.
Antes de:
- preparar comidas
- se alimentar
- colocar ou remover lentes de contato
- mexer em ferimentos ou cuidar de pessoas doentes
Depois de:
- preparar comidas, principalmente se você mexeu em carnes ou aves cruas
- ir ao banheiro (óbvio, né?)
- trocar fraldas de uma criança
- mexer em animais ou em brinquedos de animais
- cuidar de ferimentos ou de uma pessoa doente
- mexer em lixo ou produtos químicos
- assoar o nariz
- tossir ou espirrar em suas mãos
- mexer com produtos de limpeza, pano de chão, sapatos sujos
- frequentar locais com aglomeração de gente como ônibus ou shows.
A lavagem completa
Entre as várias vezes que você lava as mãos ao longo do dia, vai depender da sua atividade e da sua própria avaliação decidir quando lavar rapidamente ou de modo mais completo, o que exige mais tempo. O passo-a-passo de uma lavagem completa é: esfregar por vinte segundos toda a superfície da mão, e isso inclui palma, dorso, laterais dos dedos e área sob as unhas. O sabonete em barra pode acumular microorganismos, mas na lavagem seguinte os microorganismos saem junto com a espuma, e não ficam nas suas mãos. Em locais públicos, é mais seguro usar papel toalha. Vale a dica de usar papel toalha também para fechar a torneira.
Sabonete antimicrobiano
O sabonete comum é suficiente para uma boa lavagem das mãos. O sabonete antimicrobiano não é mais eficaz e nem mais seguro, existem até teorias contrárias ao uso dele. O argumento é que seu uso disseminado pode tornar as bactérias mais resistentes com o passar do tempo.
Álcool gel
Em locais onde água corrente e sabonete não podem ser utilizados, a opção é produtos à base de álcool. O álcool não substitui água e sabonete, mas mata germes e microorganismos. Verifique se a concentração de álcool é de no mínimo 60%. Aplique uma quantidade de álcool gel suficiente para umedecer completamente suas mãos. Depois, esfregue-as cobrindo toda a superfície delas, até que o álcool evapore completamente.
Por Lucia Mandel
http://veja.abril.com.br/blog/estetica-saude/corpo/lavou-as-maos/

segunda-feira 02 2013

Roger Waters - 121212 [Full Concert] HD




Roger Waters & Eddie Vedder - Comfortably Numb - 12-12-12 Sandy Relief C...



Ruivos organizam 1º Encontro Nacional, em SP; veja



DNA mitocondrial liga índios da América do Norte a seus descendentes atuais

veja.com

Trechos do DNA de populações polinésias foram encontrados no genoma preservado no crânio de índios brasileiros do século 19. Descoberta pode ajudar a compreender as ondas migratórias que povoaram a América

Guilherme Rosa
Índios Botocudos
Pesquisas anteriores haviam mostrado que os índios botocudos poderiam ser descendentes de uma população diferente da maioria dos outros povos americanos (Walter Garber)
Dois crânios preservados no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro guardam um segredo que pode ajudar a explicar o povoamento de todo o continente americano. Os crânios pertenceram a índios botocudos que habitaram o Brasil durante o século XIX, mas pesquisadores encontraram, no meio do seu genoma, trechos de DNA pertencentes a populações polinésias, que habitam o sudoeste asiático. O estudo, publicado na revista PNASnesta segunda-feira, propõe alguns cenários para explicar a presença desse 'DNA estrangeiro' em índios que habitavam o interior do Brasil, o que pode ajudar a reescrever a história do continente.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Identification of Polynesian mtDNA haplogroups in remains of Botocudo Amerindians from Brazil

Onde foi divulgada: periódico PNAS

Quem fez: Vanessa Faria Gonçalves, Jesper Stenderup, Cláudia Rodrigues-Carvalho, Hilton P. Silva, Higgor Gonçalves-Dornelas, Andersen Líryo, Toomas Kivisild, Anna-Sapfo Malaspinas, Paula F. Campos, Morten Rasmussen, Eske Willerslev e Sérgio Danilo J. Pena

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Dados de amostragem: Dois crânios de índios botocudos mortos no século XIX

Resultado: Os pesquisadores descobriram no genoma preservado nesses crânios alguns trechos de DNA pertencentes a populações que habitam a Polinésia, nos sudeste asiático. Os testes genéticos foram realizados em dois laboratórios diferentes, no Brasil e na Dinamarca, para garantir a confirmação dos dados.
Desde o início do século 19, os cientistas se dividem na hora de explicar o povoamento da América. Existe um relativo consenso de que os primeiros habitantes chegaram ao continente entre 15.000 e 20.000 anos atrás, provavelmente pelo Estreito de Bering, entre o Alasca e a Sibéria. Os pesquisadores não concordam, no entanto, sobre o que aconteceu após essa primeira onda migratória. Uma hipótese, feita a partir de análises genéticas das populações indígenas do continente, defende que todos os habitantes são descendentes de uma única população vinda da Sibéria, responsável por povoar todo o continente.
Uma outra hipótese, desenvolvida por meio da análise dos crânios de populações atuais e antigas, afirma que o continente foi povoado a partir de duas populações diferentes. Uma delas possuía características mongoloides, mais semelhantes aos habitantes de nordeste asiático, com crânios largos e achatados. A outra população, chamada de paleoíndia, apresentava crânios estreitos e alongados, semelhantes aos de alguns povos africanos, australianos e melanésios. "A morfologia mongoloide é vista na grande maioria dos ameríndios atuais, enquanto os representantes mais famosos da morfologia paleoíndia são os esqueletos muito antigos encontrados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais", diz Sérgio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais responsável pela pesquisa.
Não existia, no entanto, nenhuma evidência genética de que a América teria sido povoada por duas populações diferentes. Nesse contexto, os índios botocudos se tornam importantes. Pesquisas conduzidas pelo biólogo e arqueólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, mostram que o crânio desses índios possuíam um formato intermediário entre a morfologia paleoíndia e mongoloide. "Com base nisso, alguns pesquisadores chegaram a propor que os botocudos seriam descendentes dos paleoíndios de Lagoa Santa, mas isso não é aceito por todos", diz Sérgio Pena. Uma análise genética dessa população poderia ajudar a pôr um ponto final nessas questões. No entanto, os botocudos foram praticamente eliminados e quase não são mais encontrados no país.
Extinção — Também conhecidos como aimorés, os índios botocudos habitaram os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia até a chegada dos portugueses. Caçadores-coletores, eles eram conhecidos por serem mais violentos que os tupis — viviam em guerra com outras tribos e entre si. Usavam ornamentos redondos em seus lábios e orelhas, chamados de botoques pelos colonizadores portugueses.
A partir de 1808, Portugal declarou guerra aos índios que não aceitassem suas leis. Os botocudos, mais arredios e agressivos, foram vítimas preferenciais desse tipo de ataque. O massacre foi imenso e, em menos de um século, eles foram praticamente extintos de todo o território brasileiro. O fio genético que poderia ligar as populações polinésias aos habitantes americanos poderia estar perdido para sempre, não fosse uma coleção de crânios de índios botocudos mantida pelo Museu Nacional desde o século XIX.
Ao analisar o genoma preservado em 14 desses crânios, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais encontraram, em dois deles, trechos de DNA polinésio. Os trechos estavam em meio ao DNA mitocondrial, que é transmitido de mãe para filhos, e indicavam que, em algum momento no passado, populações estrangeiras haviam cruzado com os antecedentes desses índios. A descoberta, no entanto, está longe de dar qualquer resposta sobre a origem americana.

Saiba mais

DNA MITOCONDRIAL
O DNA mitondrial não se encontra no núcleo da célula, mas dentro da mitocôndria. Segundo Sérgio Pena, ele é ideal para o estudo de arqueologia molecular, especialmente por ser naturalmente amplificado, ou seja, apresentar centenas ou milhares de cópias em uma única célula. "O DNA mitocondrial é sempre materno. Se você tem uma população que é conquistada à força por outra, parece ser um padrão constante que os homens invasores se reproduzem com as mulheres invadidas e assimilam as crianças em seu grupo. Assim, há sempre uma transferência de DNA mitocondrial da população dominada para a dominante. Por exemplo, mostramos há alguns anos que na população brasileira autodenominada branca, a maioria do DNA mitocondrial é de origem ameríndia e africana, enquanto a vasta maioria do DNA de cromossomos Y é de origem europeia", diz Pena.
Mais trabalho - Para explicar a presença desse DNA estrangeiro, os pesquisadores traçaram quatro cenários. Um deles é justamente a hipótese que levou ao estudo, que afirma que os índios botocudos seriam descendentes das populações de Lagoa Santa. Para esse cenário ser aceito, no entanto, ele precisaria estar de acordo com o que se conhece da cronologia de povoação da Polinésia, o que não é o caso. "As populações polinésias são muito jovens — têm de 3.000 a 5.000 anos —, enquanto os ameríndios chegaram às Américas de 15.000 a 20.000 anos atrás. O nosso cenário propõe que é possível, embora não provável, que ancestrais dos atuais polinésios possam ter tido contato com ancestrais dos botocudos ainda na Ásia", diz Sérgio Pena.
Outra hipótese levantada pelos pesquisadores afirma que os polinésios poderiam ter chegado à América mais recentemente, mas ainda antes dos europeus. Nesse caso, os pesquisadores dizem que esses povoadores teriam pouco tempo para atravessar a Cordilheira dos Andes, que separa a o Oceano Pacífico do interior do Brasil e, por isso, afirmam que o cenário é pouco provável.
As outras duas possibilidades desenhadas pelos pesquisadores já teriam acontecido após a chegadas dos colonizadores europeus. Em 1860, cerca de 2.000 polinésios foram transportados como escravos até o Peru. Cerca de 36 anos depois, após o fim da escravidão no país, os 300 escravos que ainda estavam vivos foram enviados de volta à sua terra. A hipótese, pouco provável, é que algum deles tenha se refugiado no Brasil. Não existem, no entanto, evidências de que isso tenha acontecido.
O último cenário, considerado o mais provável pelos pesquisadores, descreve o transporte desse DNA até o interior do Brasil por escravos africanos ainda no século XIX. Durante boa parte desse século, a Inglaterra havia proibido a venda de escravos, impedindo seus navios de participar desse tipo de comércio e capturando embarcações alheias que o fizessem. Para driblar a patrulha inglesa, os navios brasileiros passaram a trocar os escravos no oeste africano, que podia ser atingido ao se navegar pelo sul do Atlântico. Assim, Moçambique se tornou um entreposto importante para esse tipo de comércio, e os escravos passaram a vir de suas vizinhanças. "Cerca de 20% dos nativos de Madagascar, uma ilha próxima a Moçambique, apresentam DNA mitocondrial com as características dos polinésios. Essa hipótese é testável experimentalmente e será a primeira a ter nossa atenção", diz Sérgio Pena.
A descoberta de trechos de DNA polinésio no genoma de índios brasileiros não respondeu a muitas perguntas, mas levantou uma série de novas questões. Agora, os pesquisadores pretendem continuar as pesquisas para descobrir qual dos cenários é o verdadeiro. Assim, poderão responder se esses trechos de DNA só chegaram ao Brasil recentemente ou se são uma herança ancestral, dos primeiros dias de habitação do continente.

DNA mitocondrial liga índios da América do Norte a seus descendentes atuais

Genética

Estudo mostra ligação genética entre uma mulher e seus antepassados indígenas de 2.500 e 5.500 anos atrás

Mitocôndria
Mitocôndria: estrutura localizada dentro da célula, que fornece energia para o organismo. Seu DNA é muito utilizado no estudo de arqueologia molecular por apresentar centenas ou milhares de cópias em uma única célula (Thinkstock)
Pesquisadores de universidades americanas e canadenses descobriram uma ligação genética direta entre índios americanos que viveram entre 5.000 e 6.000 anos atrás e seus descendentes dos dias de hoje. No estudo, publicado esta quarta-feira no periódico Plos One, os autores atualizam o DNA mitocondrial, que os filhos herdam apenas da mãe, para rastrear três linhagens maternas dos tempos antigos até o presente.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Ancient DNA Analysis of Mid-Holocene Individuals from the Northwest Coast of North America Reveals Different Evolutionary Paths for Mitogenomes

Onde foi divulgada: periódico Plos One

Quem fez: Yinqiu Cui, John Lindo, Cris E. Hughes, Jesse W. Johnson, Alvaro G. Hernandez, Brian M. Kemp, Jian Ma, Ryan Cunningham, Barbara Petzelt, Joycellyn Mitchell, David Archer, Jerome S. Cybulski, Ripan S. Malhi

Instituição: Universidade de Illinois, EUA, e outras

Resultado: Os resultados do estudo mostraram que o DNA mitocondrial de uma jovem que viveu há cerca de 5.500 anos era compatível com o de outra mulher, de cerca de 2.500 anos, encontrada em Dodge Island (ilha Dodge), próxima à cidade Prince Rupert, na Colúmbia Britânica. Uma das descendentes atuais também apresentou as mesmas características de DNA mitocondrial, o que indica a mesma linhagem materna.
A pesquisa compara o DNA mitocondrial (localizado no interior das mitocôndrias, as organelas responsáveis por produzir energia dentro das células) de quatro antepassados e três pessoas que vivem atualmente no norte de Columbia Britânica, no Canadá. Essa região é habitada pelos povos indígenas – tsimshian, haida e nisga’a – que, segundo suas tradições, estão no local há diversas gerações.
O uso do DNA mitocondrial favorece esse tipo de estudo.  Enquanto o DNA "comum" (denominado DNA nuclear) está presente apenas no núcleo de cada célula, o DNA mitocondrial é mais abundante nas células. Considerando que o material genético é degradado facilmente com a ação do tempo, quanto mais cópias do DNA existirem, mais chance tem o cientista de encontrá-lo.
Como não é recombinado com o material genético paterno, o DNA mitocondrial passa de mãe para filho praticamente inalterado. Dessa forma, é mais fácil reconhecer sequências desse DNA através das gerações. No caso dos nativos da América do Norte, a partir da chegada dos europeus ao continente, acontece a mistura entre o DNA de mulheres indígenas e homens europeus, o que dificulta o uso do DNA nuclear para estudos desse tipo.
Parentesco distante – Os resultados do estudo mostraram que o DNA mitocondrial de uma jovem que viveu há cerca de 5.500 anos, obtido por meio de um esqueleto encontrado em Lucy Islands (Ilhas Lucy), na Colúmbia Britânica, era compatível com o de outro esqueleto de mulher, de cerca de 2.500 anos, encontrado em Dodge Island (ilha Dodge), próxima à cidade Prince Rupert, também na Colúmbia Britânica. Uma das participantes do estudo também apresentou as mesmas características de DNA mitocondrial.
Outros três participantes do estudo apresentaram um DNA mitocondrial correspondendo ao de outro indivíduo encontrado em Dodge Island, que viveu há cerca de 5.000 anos.
"A arqueologia é uma fonte de informação importante sobre o passado. As tradições orais nos dão muitas informações verificáveis sobre eventos e padrões do passado, mas a informação genética é algo reconhecido imediatamente", afirma David Archer, antropólogo e um dos autores do estudo.
Para Joycelynn Mitchell, que participou da elaboração do estudo e é também membro da comunidade metakatla, "é incrível ter provas científicas que corroboram aquilo que nossos ancestrais têm nos falado há gerações".

Saiba mais

MITOCÔNDRIAS
As mitocôndrias são estruturas responsáveis por fornecer energia, a partir da quebra de nutrientes, para as células. Esse processo é conhecido como respiração celular. O número de mitocôndrias por célula varia muito, de milhares a poucas. A quantidade depende da função da célula. Células musculares, que necessitam de muita energia para funcionar, têm mais mitocôndrias que células nervosas, por exemplo.
DNA MITOCONDRIAL
O DNA mitondrial não se encontra no núcleo da célula, mas dentro da mitocôndria. Ele é ideal para o estudo de arqueologia molecular, especialmente por ser naturalmente amplificado, ou seja, apresentar centenas ou milhares de cópias em uma única célula.

Árvore genealógica revela novas idades para 'Adão' e 'Eva'

Genética

Pesquisadores descobrem que os mais recentes ancestrais comuns a todos os homens e mulheres do planeta podem ter vivido na mesma época: ele, entre 120.000 e 156.000 anos atrás, e ela, entre 99.000 e 148.000 anos

Adão e Eva
Todos os seres humanos carregam em seu genoma parte do DNA de um homem e uma uma mulher que viveram há dezenas de milhares de anos, na África. Ao contrário dos casal bíblico, no entanto, o Adão e a Eva genéticos provavelmente nunca se conheceram (Thinkstock)
Em genética, chamam-se Adão e Eva os mais recentes ancestrais comuns a toda humanidade. Ele é o pai do pai do pai... de todos os homens e mulheres vivos. Do mesmo modo, ela é a mãe da mãe da mãe... Não foram os primeiros exemplares da espécie humana, ao contrário do casal bíblico, nem necessariamente se conheceram. Foram, na verdade, os últimos ancestrais a partir dos quais se pode traçar uma linha direta de descendência paterna ou materna até os dias de hoje. Uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira na revista Science joga um pouco de luz sobre a época em que o Adão e a Eva da genética viveram. Os pesquisadores descobriram que, ao contrário do que mostravam estimativas anteriores, o ancestral comum paterno e o materno podem ter vivido em momentos próximos ou até idênticos: o homem teria vivido entre 120.000 e 156.000 anos atrás, e a mulher, entre 99.000 e 148.000 anos.
Para estudar os ancestrais masculino e feminino, os cientistas examinam o material genético que homens e mulheres passam, exclusivamente, para seus filhos e filhas. Durante o momento da concepção, os genomas do pai e da mãe se misturam. Por isso, é muito difícil saber qual dos dois transmitiu qual gene. Mas uma parte do DNA é transmitida exclusivamente pelo pai: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino. É ele que contém as informações sobre o ancestral paterno comum, chamado Adão cromossomial-Y. Também existe um trecho do DNA que é transmitido exclusivamente pela mãe: o DNA mitocondrial, um pedaço do genoma que não está localizado no núcleo, mas na mitocôndria da célula. Por isso a ancestral comum a todas as mulheres é conhecida como Eva mitocondrial.
O Adão cromossomial-Y e a Eva mitocondrial, obviamente, não foram os únicos humanos de seu tempo. Outros homens e mulheres podem até ter deixado descendentes até os dias de hoje, mas não tiveram sucesso em deixar uma linhagem inteiramente patrilinear ou matrilinear intacta — em algum momento seus descendentes tiveram uma prole do sexo oposto, interrompendo a transmissão do cromossomo Y ou do DNA mitocondrial.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Sequencing Y Chromosomes Resolves Discrepancy in Time to Common Ancestor of Males Versus Females

Onde foi divulgada: periódico Science

Quem fez: David Poznik, entre outros

Instituição: Universidade de Stanford, EUA; entre outras

Dados de amostragem: Análises genéticas dos cromossomos Y de 69 homens vindos de 9 regiões diferentes do globo

Resultado:  Os pesquisadores encontraram 11.640 variações genéticas entre os cromossomos. A partir disso, construíram uma árvore genealógica a partir do primeiro ancestral comum paterno, com origem entre 120.000 e 156.000 anos atrás

Saiba mais

CROMOSSOMO
É uma sequencia de DNA que contém os genes que determinam as características dos organismos. Tem dois braços, chamados cromatídeos, que se unem formando um X com a parte de cima mais alongada. O ser humano tem 46 cromossomos em cada célula.
MITOCÔNDRIAS
As mitocôndrias são estruturas responsáveis por fornecer energia, a partir da quebra de nutrientes, para as células. Esse processo é conhecido como respiração celular. O número de mitocôndrias por célula varia muito, de milhares a poucas. A quantidade depende da função da célula. Células musculares, que necessitam de muita energia para funcionar, têm mais mitocôndrias que células nervosas, por exemplo.
DNA MITOCONDRIAL
O DNA mitocondrial não se encontra no núcleo da célula, mas dentro da mitocôndria. Como é transmitido exclusivamente da mãe para os filhos, ele é ideal para o estudo de arqueologia molecular. Além disso, ele é naturalmente amplificado, ou seja, apresenta centenas ou milhares de cópias em uma única célula.
Em estudos anteriores, os cientistas estimavam que a ancestral materna devia ser até três vezes mais antiga que o paterno. “As pesquisa anteriores indicavam que o ancestral comum masculino teria vivido muito mais recentemente que o feminino. Nossa pesquisa mostra, no entanto, que essa discrepância não existe”, diz Carlos Bustamante, professor de genética na Universidade de Stanford, um dos autores do estudo publicado na Science.
No novo estudo, os pesquisadores sequenciaram completamente os cromossomos Y de 69 homens vindos de 9 regiões diferentes do globo: Namíbia, República Democrática do Congo, Gabão, Argélia, Paquistão, Camboja, Sibéria e México. As modernas tecnologias de análise genética permitiram que os pesquisadores encontrassem, pela primeira vez, 11.640 pequenas diferenças entre esses cromossomos.
Como os cromossomos Y foram todos herdados da mesma pessoa — o ancestral paterno comum —, essa variação genética só poderia ter surgido a partir de mutações aleatórias, que se acumularam com o passar das gerações. Ao estudar como as pequenas variações no cromossomo Y se espalharam pelo globo e são compartilhadas pelas diversas populações mundiais, os pesquisadores conseguiram traçar uma árvore genealógica da humanidade como um todo.
No topo da árvore, está o Adão cromossomial-Y. Abaixo dele, cada nova mutação no cromossomo representa um novo ramo da árvore genealógica e o surgimento de uma nova linhagem. Segundo os pesquisadores, a configuração dos ramos ao longo do tempo se mostrou semelhante à distribuição das populações humanas conforme saíam da África para habitar a Ásia e a Europa. “Essencialmente, nós construímos a árvore genealógica do cromossomo Y”, diz David Poznik, pesquisador da Universidade de Stanford e autor principal do estudo.
O passo seguinte dos pesquisadores foi estimar a época em que o ancestral comum paterno viveu. Para isso, eles estudaram o cromossomo Y de indígenas americanos. Os cientistas sabiam que os habitantes originais da América só chegaram ao continente há 15.000 anos. Por isso, todas as mutações compartilhadas por todos os indígenas deveriam ter acontecido antes — ou pouco tempo depois — desse período. Já as mutações que variavam entre as populações devem ter surgido pouco tempo depois, quando eles começaram a se espalhar pelo continente.
Após analisar as variações genéticas, os pesquisadores conseguiram calcular a taxa com que o cromossomo Y sofre mutação ao longo do tempo. Ao aplicar essa taxa de mutação na árvore genealógica que haviam descrito, eles foram capazes de estimar a época em que o ancestral comum viveu: entre 120.000 e 156.000 anos atrás. Os cientistas fizeram o mesmo tipo de estudo com o DNA mitocondrial dos 69 homens e outras 25 mulheres. Assim, desenharam uma árvore genealógica semelhante para a ancestral comum materna e traçaram uma data para sua origem: entre 99.000 e 148.000 anos atrás.
Os pesquisadores não sabem dizer o que a sobreposição dos períodos estimados para a vida dos ancestrais comuns masculinos e femininos significa. Segundo o estudo, a coincidência de datas pode não ter nenhuma razão histórica — ser um simples fruto do acaso. Mas também é possível que ela represente um período quando a população humana sofreu um grande corte populacional, ao qual poucos indivíduos sobreviveram para transmitir seus genes. “Algumas linhagens morrem, e outras têm sucesso. Na maior parte, esse processo é aleatório. Mas também é possível que existam elementos da história humana que predispõe as linhagens a se sobreporem em determinados períodos”, diz Poznik.