sábado 03 2013

Fartura a preços de estudante

Por estadao.com.br
Em abril deste ano, as jornalistas Tatiana de Mello Dias e Rebeca de Moraes resolveram reagir contra os sites que...



Em abril deste ano, as jornalistas Tatiana de Mello Dias e Rebeca de Moraes resolveram reagir contra os sites que propunham boicote aos restaurantes de São Paulo. Fizeram um site colaborativo, com a ideia de reunir indicações de lugares bons e baratos. Assim surgiu o SP Honesta. A pedidos, Tatiana apresenta abaixo uma seleção de suas dez dicas preferidas do site.
Como assim?!. Funciona em uma galeria na Benedito Calixto, você escolhe a carne e os acompanhamentos - arroz, feijão, legumes e salada - e o prato não custa mais que R$ 10.
Praça Benedito Calixto, 158, Pinheiros
El Guatón. Neste chileno, há especialidades como empanadas, ostras e cozidos de frutos do mar. Os pratos custam a partir de R$ 30, para duas pessoas.
R. Artur de Azevedo, 906, Pinheiros, 3085-9466
Salgaderia. É uma fábrica de salgados que, de tanto atender os pedidos de baladeiros famintos de madrugada, abriu uma lanchonete. A coxinha é vendida a R$ 1,50; quiche, croissant ou bolinho de bacalhau saem por R$ 2.
R. João Cachoeira, 856, Itaim Bibi, 3078-4889
Sabores de Mi Tierra. Comida típica colombiana a um preço bem baixo. As arepas e os patacóns custam de R$ 7 a R$ 10.
Rua Lisboa, 971, Pinheiros, 3083- 3114
Malandrino. Rotisserie da Vila Mariana vende massas a partir de R$ 7,50. Massas, bife à parmegiana e doces. Para levar ou comer ali. Mas prepare-se para enfrentar filas, está sempre cheio.
R. Capitão Macedo, 176, Vila Clementino, 5539-5420
Tchicano Ai Ai Ai. É uma barraca de comida mexicana na feira de artesanato do Parque Trianon, aos domingos. Serve tacos e burritos por R$ 6.
Av. Paulista em frente ao Masp. Dom., das 10h às 17h
Sabor do Nordeste. Restaurante nordestino no bairro de Perdizes. O bobó com moqueca de camarão custa R$ 46 (para dois); carne de sol com baião de dois, R$ 34 (para dois). O pudim de leite nunca decepciona.
R. João Ramalho, 966, Perdizes, 3865-1044
Hambúrguer do Seu Oswaldo. É um clássico do Ipiranga. Serve sanduíches simples, feitos com ingredientes artesanais, a partir de R$ 8,70.
R. Bom Pastor, 1.659, Ipiranga
Rong He. Tradicional chinês na Liberdade, serve comida farta. O macarrão com frutos do mar, para três, custa R$ 29. Vá até a vitrine ver o chef preparar a massa (foto).
R. da Glória, 622A, Liberdade, 3275-1986, e R. Tutoia, 312, Paraíso, 3559-9996
Embaixada Paraense. Barraca na feira da Praça Benedito Calixto serve comida paraense, como o tacacá (R$ 10) e arroz com vatapá (R$ 18).
Praça Benedito Calixto, Pinheiros

ANÁLISE: o perigo não está nos extremos, mas no meio

 Por estadao.com.br
Pesquiso em meu blog e localizo vários textos sobre os preços de restaurantes, especialmente em São Paulo. O auge...



Pesquiso em meu blog e localizo vários textos sobre os preços de restaurantes, especialmente em São Paulo. O auge das postagens remete a 2009 e 2010. O cenário nacional era de otimismo, com economia aquecida, apesar da crise no exterior. Porém, e talvez por esse motivo, eu defendia que os preços aqui andavam irreais. Estávamos mais caros do que Nova York, Paris, Barcelona, sem a mesma qualidade. Ofertas e demandas à parte, havia alguma coisa errada. Mas com os salões cheios, seria antinatural baixar as cifras. Se o público topava pagar...
Agora, temos uma crise se estabelecendo. A inflação é perceptível, famílias reveem seus orçamentos. Os comensais se queixam dos preços, os restauradores, do baixo movimento e dos custos. É aquele momento da festa em que todos se perguntam: quem está se divertindo?
Creio que o impacto parece ainda maior porque temos complicado demais o ato de ir a um restaurante. Na crise europeia, ainda que a alta gastronomia tenha sofrido mais, a população não parou de fazer refeições fora. Continuou indo a lugares simples, ao bar à vin da rua, à tasca vizinha, onde o foco era só a comida. Aqui, o programa gastronômico - que também funciona como lazer - ficou tão cheio de aparatos que deixou de ser natural.
Quando menciono complicações, me concentro na média restauração. Pois os estabelecimentos populares cumprem sua função, servindo pratos sem pretensões. Com as casas de luxo, o jogo é às claras: são caríssimas e para poucos. Mas é a faixa média que concentra a maior parte do movimento "visível" dos restaurantes. E é também onde se encontram as maiores armadilhas para o cliente. Se eu vou ao Fasano e ao D.O.M., sei que preciso preparar o bolso. Se vou a um bistrô ou trattoria, já não sei mais o que me espera.
Estou falando de lugares que, em sua maioria, trabalham com cardápios de domínio público, apostam pouco em ingrediente e em pesquisa, investem mais na ambientação do que na cozinha. Nada contra móveis assinados e boas louças. Só que eles deveriam ter hora e lugar adequado (não para comer hambúrguer ou lasanha). Isso nasce de um posicionamento equivocado dos empreendedores. Mas com parcela de culpa da clientela (e da crítica especializada).
O mesmo comensal que, em Paris, se diverte num bistrô de mesa apertada, copos de vidro, poucos garçons, aqui exige valet, taça Riedel, sommelier. Tudo isso se transforma em custo. E se materializa em absurdas contas de R$ 200 por cabeça, por pratos inexpressivos.
Nos últimos anos, temos visto grandes grupos financeiros investindo pesado em restaurantes. Empreendimentos milionários, que só podiam dar retorno ou com muita escala de vendas ou margens muito altas. Uma estratégia que acabou passando uma mensagem distorcida ao mercado. A rigor, restaurante é negócio. Mas quero crer que gastronomia exige um quê de paixão. Não é banco nem corretora de valores.
Não resisto em apelar a um clichê: seria a crise a oportunidade de reestabelecer o equilíbrio no mercado? Suponhamos uma pirâmide que representasse os hábitos da classe média. Na base, teríamos os restaurantes para o dia a dia. Iríamos aos étnicos e a lugares modernos para provar coisas diferentes. Às casas bem montadas, em ocasiões especiais. E deixaríamos o luxo (no topo) para as celebrações. Num cenário ainda mais avançado, a comida de rua seria outra alternativa. O desenho atual é desbalanceado.
Os empreendedores têm muito trabalho pela frente. A começar por trazer de volta o habitué em contenção de despesas (e com medo dos arrastões) e cativar novos clientes. Treinar melhor os funcionários. Encarar os aluguéis dos Jardins e dos shoppings - ou bancar um novo começo em bairros menos badalados. Mas isso tem mais a ver com gestão do que com gastronomia. No fundo, eu só queria jantar. Comer bem pelo preço justo. Desde 2011, concluo as resenhas respondendo a pergunta: "Vale?". Gostaria de escrever, com muito mais frequência e convicção: "sim".

Coma bem sem gastar tudo que tem

 Por estadao.com.br
São Paulo tem, sim, lugares bons e baratos. Há donos de restaurante trabalhando para reduzir custos, otimizando ingredientes e descomplicando o serviço. Mas não esqueça de fazer sua parte, com truques para segurar a conta



Comer bem sem gastar muito não está fácil, é verdade. Mas a boa notícia é que ainda é possível fazer isso em São Paulo, sim. Desde que você se disponha a abrir mão de alguma coisa: pode ser o ambiente sofisticado, a taça de cristal, o manobrista, os salamaleques do serviço ou a localização nobre do restaurante... Só não pense em abrir mão da qualidade da comida.
Algumas casas paulistanas optaram por reduzir gastos com alguns desses itens - ou com todos ao mesmo tempo. São lugares simples, em geral, que concentram os esforços na comida e têm conseguido manter os preços razoáveis e o movimento no salão.
O Pita Kebab é apertadinho, despojado, não tem chef de cozinha nem maître. Os mesmos ingredientes são usados em diversos pratos do cardápio, o que reduz o desperdício e o estoque. O resultado é que ali é possível desfrutar de bons pratos da cozinha árabe mantendo o gasto médio de R$ 30. "Ganhamos em escala, tendo a casa sempre cheia", diz o dono, Piero Mazzamatti.
O serviço descomplicado é uma saída comum para segurar o preço final, dizem os empresários. No lugar de dezenas de garçons no salão - um para puxar a cadeira, outro para servir água, outro para tirar pedido..., - apenas um, bem treinado.
Priorizar ingredientes locais e menos valorizados, em vez de insumos caros e importados, é outro recurso que tem sido adotado. Alberto Landgraf, chef do Epice, se recusa a usar produtos caros como camarão ou carnes nobres. E aposta na simplicidade do pé de porco recheado, um prato primoroso. "Nos forçamos a ter criatividade. Fazemos uma cozinha de processo: trabalhamos com cuidado cada ingrediente", diz. No Epice, que se propõe a servir alta gastronomia, o gasto médio é de R$ 130.
Ainda assim, Landgraf diz ter receio de seguir o modelo da bistronomie francesa, com cardápio mais enxuto e menos serviço. "Gostaria, mas tenho medo de o público não aceitar". A alternativa para gastar menos no Epice é o almoço-executivo, durante a semana, que custa R$ 45 - e, segundo o chef, é "subsidiado" pelo jantar.
A proliferação dos menus executivos em São Paulo é um fenômeno associado à alta dos preços: diversas casas passaram a propor entrada, principal e sobremesa por preço fixo de até R$ 50, como Attimo, O Pote, Brasil a Gosto ou Tasca do Zé e da Maria.
Outra solução que começa a ser adotada é a união para compra, que permite barganhar junto a fornecedores. Ana Massochi, dona do Martín Fierro, do Jacarandá e do La Frontera, costuma trocar informações sobre produtores e matéria-prima com Paola Carosella, do Arturito, e Gabriela Barretto, do Chou. "Somos pequenos. Temos que nos juntar para negociar melhor", diz Ana, que diz ter conseguido margem de lucro perto de 11% no Marín Fierro só depois de 34 anos de casa.

Insatisfação: 100%

Por estadao.com.br
Não está bom para ninguém. Quem gosta de comer fora se queixa dos preços altos, sai menos e controla os gastos. Chefs e donos de restaurantes reclamam dos custos e dizem que a conta não fecha. A situação chegou ao limite. Vai ter de mudar



Insatisfação: 100%
"AE"
O momento é de insatisfação geral. O programa preferido do paulistano virou motivo de irritação: comer fora anda cada vez mais caro, as pessoas acabam saindo menos, procurando lugares mais baratos e controlando os gastos à mesa. Do outro lado do balcão, donos de restaurante reclamam das dificuldades em equilibrar as contas a manter a rentabilidade. A gritaria só aumenta.
E, para contrariar aquele ditado que diz que em casa em que todo mundo grita ninguém tem razão, desta vez, todo mundo tem razão. Cada um tem as suas. Elas ficam evidentes quando se decompõe o que está embutido no preço de um prato que custa R$ 11,50 de ingrediente e chega ao cardápio por R$ 46, como o porco com missô, do Miya. Ou os motivos que fazem um risoto de ervilhas (o arroz é importado, o dólar está alto, tudo bem...) custar R$ 76, como o do Piselli.
A situação chegou ao limite - e vai ter de mudar. "Os restaurantes não podem ficar parados. Temos que nos mexer. E quem não se adaptar vai fechar." O diagnóstico de Cristiano Melles, presidente da Associação Nacional de Restaurantes (ANR) e sócio do Pobre Juan, expõe o momento delicado por que passa o setor gastronômico no Brasil e, em especial, em São Paulo.
"As pessoas ainda estão comendo fora, mas com a mão no bolso", diz Ingrid Devisate, analista da consultoria Gouvêa de Souza, que detectou em pesquisa recente que o gasto médio com restaurantes nos fins de semana diminuiu sensivelmente: de R$ 53,80 em 2010 para R$ 39.
"Essa crise não é passageira. O que significa que vamos ter que mudar o modelo de serviço com que o brasileiro se acostumou, automatizar a cozinha - enfim, buscar mais eficiência para não repassar preços no cardápio", diz Cristiano. O empresário aposta num estilo de serviço mais parecido com o americano e o europeu. "A tendência é ter um número bem menor de pessoas no salão. Sem cumim, maître, etc."
O chef do Piselli, o italiano Moreno Colosimo, atesta de experiência própria: "Trabalhei em casas com estrela Michelin na Europa que tinham um quarto das pessoas que têm aqui, tanto no salão quanto na cozinha".
Entre os donos de restaurante, há pessimismo no ar. Segundo estudo da ANR, que tem 306 associados, donos de quase 5 mil estabelecimentos, as margens de lucro, que eram de 15% a 20 % há quatro anos, hoje estão mais próximas dos 10%.
O empresário Paulo Kress, do grupo Egeu, diz ter conseguido manter o faturamento de seus restaurantes. "As casas do Egeu são caras, mas não perdemos movimento, especialmente nas mais baratas como o General Prime Burguer", garante. Mas conta que está buscando alternativas para atrair clientes, como ofertas de vinho e programa de fidelização de clientes em troca de descontos.
"O restaurante vai bem quando a economia está bem. Quando as pessoas têm menos dinheiro para gastar, deixam de ir", afirma Joaquim Saraiva de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) de São Paulo, e dono da rede de pizzarias Livorno. "Está difícil segurar os preços. Muita gente está sacrificando a margem de lucro para se manter."
Juscelino Pereira, também membro da diretoria da ANR e sócio do Piselli, Tre Bicchieri e Zena Caffé, reclama que os donos de restaurantes aparecem sempre como vilões da história. "Lá fora, casas como as nossas são mais caras. Se fôssemos repassar a inflação real, nosso cardápio seria mais caro".
Além dos ingredientes, os principais custos embutidos no preço de um prato são mão de obra, aluguel e impostos. Mas entram no cálculo ainda taxas de reposição de material, segurança, contas de luz, água e gás. E quando o restaurante é de alta gastronomia, há ainda um custo intangível, do processo de preparo.
"Em vez de otimizar a gestão, os empreendedores querem garantir o lucro apenas fixando preços mais altos no cardápio", diz Roberto Braga, autor livro Gestão na Gastronomia (Ed. Senac). Ele cita o desperdício como um dos principais problemas na gestão dos restaurantes.

O homem que amava experimentar as formas

Por Luiz Carlos Merten, estadao.com.br
Ciclo no MIS resgata o alemão Werner Schroeter, autor de grandes filmes que dialogam com a ópera



O homem que amava experimentar as formas
"Seus títulos muitas vezes provocavam incômodo, caso de 'Noite de Cão' "
Há controvérsia se a paixão de Werner Schroeter era a ópera ou a diva Maria Callas. Uma e outra o levaram ao cinema, e seus primeiros filmes eram curtas em 16 mm cujo objetivo parecia ser querer eternizar a persona – as performances – da sublime Maria. Quando começou a fazer longas, Schroeter assimilou códigos narrativos de óperas famosas. Os críticos, inicialmente, não sabiam como reagir perante seus assumidos excessos estilísticos, mas ele terminou por se impor e obter reconhecimento. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim por Palermo oder Wolfsburg e o Teddy Bear, o Urso gay, em 2010, no ano de sua morte.
Embora sua iniciação tenha sido um pouco mais tardia – Eika Katappa é de 1969 –, Werner Schroeter não deixa de pertencer à geração que mudou o cinema alemão nos anos 1960. É tempo de lembrá-lo num ciclo que começa hoje no Museu da Imagem e do Som. No começo daquela década, em Oberhausen, os jovens firmaram um documento anunciando o tipo de cinema que queriam fazer. Influenciados pela Nouvelle Vague francesa, sua agenda privilegiava a autoria e a ênfase nas questões sociais e políticas.
Volker Schlöndorff, Alexander Kluge e Werner Herzog foram os arautos daquela geração e no seu bojo vieram Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder. Werner Schroeter e Rosa von Praunheim, outro vencedor do Teddy Bear, seguiram trajetórias mais alternativas. Schroeter triunfou primeiro na Dokumenta de Kassel, com A Morte de Maria Malibran, em 1972. Cinema, ópera, o expressionismo reinventado, num excesso de fazer autores como Ken Russell e Baz Luhrmann parecerem acadêmicos. Cinco anos mais tarde, há uma ruptura com Os Irmãos Napolitanos, documentário que acompanha a vida pobre (miserável?) dos irmãos do título. Quase como um desdobramento dessa experiência, Palermo oder Wolfsburg, mais três anos depois, investiga a dura vida de emigrantes italianos na Alemanha.
Muitos críticos se interrogam sobre o 'velho' Schroeter – e o barroco invade, enfim, as imagens de Concílio do Amor. Jean Tulard faz um definição sucinta do filme em seu Dicionário de Cinema: Deus, para punir a corte dissoluta dos Bórgia, envia a sífilis. Voltam os excessos, a beleza e o horror. A arte de Schroeter muitas vezes foi chamada de 'decadente', mas ele nunca transigiu consigo mesmo – foi sempre crítico. Ao jornal Berliner Zeitung, ele declarou certa vez: "Você faz ou não faz". Pode parecer uma definição empobrecedora de arte e até de atitude perante o mundo, mas não. Schroeter era do tipo que fazia, e por isso você deve entender – ousava.
Ele ganhou seu Teddy Bear pelo experimentalismo radical. Em 2008, ao apresentar o que terminou sendo seu último longa, Nuit de Chien, Noite de Cão, em Veneza, o festival aproveitou e lhe outorgou um prêmio especial por sua contribuição à arte e – sempre – à experimentação no cinema. O cinema de Schroeter nunca é narrativo no mesmo sentido que a palavra serve à obra de outros diretores, como Fassbinder, Herzog e Wenders. Na sua mistura de gêneros e formatos, mas também pela estilização formal e pelas rupturas da narração linear, Schroeter foi único.
Noite de Cão fornece um exemplo interessante do incômodo que seu cinema muitas vezes provocava. O filme baseia-se num livro do uruguaio Juan Carlos Onetti. Pascal Greggory faz o protagonista, que chega a uma cidade fictícia em meio a uma guerra. Tudo o que parece abstrato na escrita de Onetti vira concreto na visualização de Schroeter. Greggory precisa agir, e agir rapidamente. Toma decisões e elas vão num crescendo até o momento em que ele sente que não há fuga possível. O homem em choque com o destino. É como se Schroeter, no ocaso de sua vida – e carreira –, quisesse ser Fritz Lang. Ele morreu em 1970, aos 65 anos.
MOSTRA WERNER SCHROETER
MIS.Avenida Europa, 158, Jardim Europa, De 30/7 a 7/8. Grátis. www.mis-sp.org.br

Todo Dumont, um grande autor que não faz psicologia

Por Luiz Carlos Merten, estadao.com.br
Cineasta do corpo, ele ganha retrospectiva de seus sete filmes, incluindo o recente



Todo Dumont, um grande autor que não faz psicologia
"Juliette Binoche como Camille"
Trata-se de um dos mais exigentes diretores franceses contemporâneos, e muitos críticos comparam Bruno Dumont a Robert Bresson, com quem compartilha a busca da transcendência, a ascese de seus personagens. O próprio Dumont considera a semelhança superficial. Pode parecer arrogante – ele não se interessa por outros autores, exceto Stanley Kubrick e Abbas Kiarostami, nem pela técnica. Faz filmes como quem escreve romances e, aliás, seus roteiros são romances detalhados.
É tempo de prestigiar Bruno Dumont, que ganha retrospectiva completa no CineSesc. O evento será inaugurado nesta quinta, 1/8, com Camille Claudel, o último longa do diretor, lançado em Berlim, em fevereiro, e depois exibido no Festival Varilux, em maio. Todo Bruno Dumont – e de A Vida de Jesus, de 1997, à irmã de Paul Claudel agora, os sete filmes que ele realizou o situam num território próprio, entre o drama realista (e é o que o diferencia de Bresson) e a vanguarda.
O que é a vanguarda em 2013? Por princípio, o artista de vanguarda tem de estar na linha de frente, ser combativo e avançado. Dumont tem discutido questões religiosas (A Vida de Jesus e Hadjewich), questionado a organização social e a guerra (A Humanidade e Flandres). Radicalizando, chegou à 'loucura' de Camille Claudel.
É um cineasta do corpo, e nisso se aproxima de autores como Claire Denis e Gaspar Noë. Trabalha suas cenas em bloco, sem psicologismo. E prefere os atores não profissionais. Pode parecer estranho, considerando-se que sua Camille é uma estrela do porte de Juliette Binoche.
Ela não apenas aceitou as condições do diretor – queria trabalhar com ele –, como Dumont achou que não seria despropositado transformá-la em Camille, uma celebridade em sua época, confrontada com os internos no manicômio. O filme é seco, duro. No limite, Camille atravessa o inferno para encontrar a paz interior. Vale a pena viajar, não apenas em sua história, mas em todo o cinema de Dumont.
MOSTRA BRUNO DUMONT
Cinesesc.Rua Augusta 2.015, 3087-0500.
R$ 2/ R$ 8. De 1º a 8/8.

O filme de monstros do mestre do suspense

Por Luiz Carlos Merten, estadao.com.br
'Os Pássaros', de Alfred Hitchcock, faz 50 anos e ganha edição de luxo



O filme de monstros do mestre do suspense
"Atacada por pássaros de verdade"
Quem viu o recente Hitchcock, de Sacha Gervasi, com Anthony Hopkins, sabe dos problemas que Alfred Hitchcock enfrentava por volta de 1960. Face a uma nova geração de diretores que surgia, ele chegou a ser considerado ultrapassado, mas reagiu, enfrentando tudo e todos, para fazer Psicose, que reinventou seu cinema. Mas não foi fácil, e, se não fosse o apoio de sua mulher, Alma Reville – que o filme aponta quase como coautora –, a história teria sido outra. Seja como for, no desfecho de Hitchcock, o filme, o mestre do suspense, de novo no ápice, não sabe direito que filme vai fazer, ou pelo menos o diz. Num golpe de marketing, o pássaro sinistro vem pousar no seu ombro.
Com Os Pássaros, o problema foi outro e também virou filme – The Girl, A Garota, com Sienna Miller. Obcecado por sua estrela, Tippi Hedren – e ela resistiu a seus avanços –, Hitchcock liberou sua porção mais sádica e dominadora. A pobre Tippi sofreu nas mãos dele, mas, além do papel de Melanie em Os Pássaros, Hitchcock também fez dela a sua Marnie, na obra-prima doente, segundo a definição de François Truffaut, que leva o nome da personagem.
Os três filmes, realizados entre 1960 e 64, compõem uma trilogia. Abordam os complexos de Édipo e Electra. Desde os anos 1940, Hitchcock já vinha fazendo filmes psicanalíticos. Os críticos gostam de dizer, meio de brincadeira, que Freud e ele nasceram um para o outro. É sério, e a trilogia edipiana é o bloco de filmes pelo qual Hitchcock merece seu lugar no panteão dos grandes, por mais que momentos isolados – A Sombra de Uma Dúvida, Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai/Vertigo, escolhido no ano passado, na Inglaterra, como o melhor filme de todos os tempos, e Intriga Internacional – desfrutem de excelente reputação.
Em maio, no Festival de Cannes, ao apresentar a versão restaurada de Um Corpo Que Cai, a própria Kim Novak lembrou que o culto começou depois e, na época, muita gente se decepcionou com Vertigo. Os críticos são assim mesmo. Se dependesse da maioria deles, o cinema não avançaria. Muitos só conseguem pensar dentro de limites estreitos. Hitchcock sabia disso. No livro com a entrevista que concedeu a Truffaut, diz ao discípulo que se preocupe com o 'Japão', um país e uma cultura exóticos e distantes. Era a sua maneira de dizer – aposte na diversidade e no risco.
Os Pássaros está saindo em Blu-Ray numa edição de colecionador que comemora os 50 anos do filme. A Universal caprichou e, além do próprio filme, com imagem e som perfeitos em alta definição, os extras incluem o trailer, o teste de Tippi Hedren, o final original, que foi excluído, uma comparação entre o storyboard e as cenas filmadas, um pôster em tecido e, preciosidade maior, um trecho em áudio do diálogo entre Hitchcock e Truffaut, incluído no livro reeditado pela Cosac Naify.
O cinéfilo agradece, mas o agradecimento vai mesmo é para Hitchcock, por ter feito o filme. Há 50 anos, mais até do que havia ocorrido com Um Corpo Que Cai, o desapontamento foi grande quando surgiu o filme de monstros do mestre. Em Cannes, onde Os Pássaros teve sua première de gala – no ano em que O Leopardo, de Luchino Visconti, venceu a Palma de Ouro -, a recepção foi glacial. O culto veio depois, e hoje o filme é considerado clássico. Em Psicose, baseado no pulp de Robert Bloch, Hitchcock contara a história de um edipiano que mata a mãe e assume seu lugar, numa fissura do inconsciente que transforma Norman Bates num caso emblemático de mente doentia. Norman não tem cura. Mata para proteger seu segredo. Mitch, o personagem de Os Pássaros – que Hitchcock adaptou de um conto de Dafne Du Maurier, autora que já lhe fornecera a história de Rebecca, a Mulher Inesquecível, em 1940 –, pode ter uma mãe dominadora que interfere na sua relação com as mulheres, mas, tal como é interpretado por Rod Taylor no filme, ele não é um assassino. Marnie rouba para compensar sua disfunção sexual, mas, como versão feminina de Norman Bates, ela não apenas tem cura como clama por ela, numa cena-chave.
Melanie (Tippi) conhece Mitch numa loja de animais em São Francisco. Há uma química imediata entre eles e ela se passa por funcionária. Logo em seguida, o segue até Bodega Bay, onde Mitch vive com a mãe. Leva um casal de pássaros numa gaiola. Do nada, é atacada por uma gaivota no barco em que faz a travessia da baía. É o primeiro signo da violência que virá, mas o ataque dos pássaros, com todas as explicações que os personagens buscam para ele, é uma metáfora das relações familiares, do amor possessivo da mãe e do sexo reprimido. Os pássaros voltam-se contra os homens, mas também pode ser que o filme seja uma parábola cristã – para que os homens reassumam sua humanidade e fraternidade.
A nora indesejada é atacada, em muitas cenas se inverte a situação clássica e os humanos ficam presos (em gaiolas?), à mercê dos bicos ameaçadores dos pássaros. O final em aberto segue-se a um ataque particularmente destruidor, em que todos, mãe, filho e nora, precisam se auxiliar mutuamente. O interessante é que os ataques não são o que o filme tem de melhor e, sim, o que os precede – a forma como Hitchcock arma o suspense, na expectativa do apocalipse. Algumas cenas tornaram-se cultuadas e George Romero admite que Os Pássaros foi seu farol para fazer A Noite dos Mortos Vivos, em 1968.
Hitchcock buscou sempre a perfeição técnica e os ataques, avançados em 1963 – com sons eletrônicos, em vez de música – ficaram defasados, face ao que hoje é possível fazer. Mas talvez seja equivocado pensar que o próprio mestre gostaria de refazer as cenas dos pássaros, sem tocar no restante. Elas contribuem para a aura do filme, como o porto em Marnie, que é um telão expressionista. São formas de romper com o realismo que Hitchcock exercitou em poucos filmes – A Sombra de Uma Dúvida, Psicose.
Um aspecto não negligenciável é que Melanie/Tippi, mesmo quando atacada, não grita. Danny Peary, em seu livro sobre cult movies, assinala que poucas mulheres gritam no cinema de Hitchcock – e os casos mais notáveis são a Doris Day de O Homem Que Sabia Demais, a segunda versão, e a Janet Leigh de Psicose.
Tippi, como Marnie, grita para que o marido (Sean Connery) a ajude, mas é um grito de angústia, muito mais que de medo. O caso de Melanie/Tippi possui desdobramentos. Na vida, para punir a atriz que o rejeitava, Hitchcock substituiu por pássaros de verdade o que deveriam ser pássaros de mentira. O silêncio imposto a Melanie também era uma agressão a Tippi. A aura do filme não cessa de crescer.
OS PÁSSAROS – EDIÇÃO DE 50º ANIVERSÁRIO
Direção: Alfred Hitchcock (EUA/1999, 119 min.)
Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor
Distribuidora: Universal, R$ 69,90 - Blu-Ray