domingo 26 2013

30 anos de convívio com o vírus da Aids

Por estadao.com.br
Quando foram infectadas, não havia remédios

Quatro anos separam as histórias de Daniela e Teresinha. Em 1983, a primeira nasceu com o vírus. Em 1987, então com 20 anos, a segunda descobriu que estava infectada. Em comum, ambas são sobreviventes de uma época em que a doença deixava pouca gente para contar a história.
Na década de 1980 não havia medicamento. A terapia só ficaria disponível de graça no País, já no formato do coquetel, em 1996. Mas as duas tiveram a sorte, ou a resistência necessária, para aguentar a chegada do medicamento.
Daniela, que passou a infância gripada, foi descobrir que tinha o HIV com 11 anos, após ser internada com uma pneumocistose (infecção oportunista típica dos soropositivos). Só com o diagnóstico da filha, a mãe descobriu que também tinha a doença. Foi contaminada um pouco antes de dar à luz, numa transfusão de sangue no parto.
Era 1995. Logo depois elas começaram a tomar o remédio. Mas enquanto sua mãe rapidamente ficou com a carga viral indetectável, Daniela demorou a se adaptar. Os remédios pareciam não funcionar e o vírus foi ficando resistente. Só em 2006, com um novo medicamento, seu quadro melhorou. Sua mãe, porém, morreu de câncer de mama. Um problema que, hoje se sabe, pode ter a ver com a inflamação crônica promovida pelo HIV. "Com a imunossupressão, há um aumento da incidência de cânceres, como se fossem pessoas mais velhas", explica o médico Alexandre Barbosa.
Teresinha descobriu o HIV em outra situação. "Meu então namorado foi doar sangue e o exame dele deu positivo. Fui convidada a fazer o teste e deu também. Mas naquela época não tinha remédio, não havia o que fazer. Os médicos davam aquela previsão para todo mundo: tempo de vida de seis meses a dois anos. Eu já tinha um filho, de 2 anos, e só pensava: 'E agora, o que eu faço?' Como não havia o que fazer, toquei a vida."
Até que dez anos após o diagnóstico começaram a aparecer os sintomas clássicos: fraqueza, emagrecimento, diarreia, vômito. Chegou a ter úlceras e ficou bem doente. Ao melhorar, entrou no ativismo, no Grupo de Incentivo à Vida, e aprendeu a se fortalecer. Hoje sua carga viral está indetectável, seu nível de CD4 (linfócitos) está alto. "Mas sinto que estou envelhecendo mais rápido. Meu corpo não corresponde à minha idade. É um cansaço maior. Me comparo com minha mãe, que tem 73 anos. Parece que as reclamações delas são as mesmas que eu tenho." Há alguns anos descobriu uma diminuição da massa óssea e teve de inserir cálcio no seu cotidiano. "A doença mudou, mas só chamá-la de crônica não faz jus ao que ela é. Ainda existe o estigma, não é como ter diabete. Vivemos melhor e mais tempo, mas não é só tomar um remédio e tudo fica ok." / G.G.

Exercícios físicos e remédio mais cedo reduzem efeitos

 Por estadao.com.br
Duas abordagens têm sido vistas como as mais eficazes para reduzir o quadro de envelhecimento precoce: atacar fatores...

Duas abordagens têm sido vistas como as mais eficazes para reduzir o quadro de envelhecimento precoce: atacar fatores de envelhecimento, como tabagismo, sedentarismo e excesso de peso, e iniciar o tratamento o mais cedo possível.
"A recomendação é mudar os fatores de risco", afirma Alexandre Barbosa, da Unesp de Botucatu. Segundo ele, estudos mostram que, assim como ocorre em qualquer pessoa, indivíduos com HIV que fazem atividade física moderada reduzem a mortalidade em até 20%, podendo chegar a 50% com uma programação mais intensa.
Outro fator de impacto é começar o tratamento o quanto antes. Os Estados Unidos, desde o começo do ano, recomendam que qualquer pessoa diagnosticada com o vírus já inicie o tratamento com retroviral. No Brasil, a medicação só é indicada quando os linfócitos CD4 estão abaixo de 500 células por milímetro cúbico de sangue. O cenário já evoluiu. Até o ano passado tinha de estar com menos de 350. / G.G.

Conscientização não pode ser esquecida

| Por JOSÉ COUTO-FERNANDEZ *, estadao.com.br
Desde que o HIV foi isolado, há 30 anos, tivemos uma evolução enorme. Nenhuma infecção na história teve um avanço...
Desde que o HIV foi isolado, há 30 anos, tivemos uma evolução enorme. Nenhuma infecção na história teve um avanço tão rápido no desenvolvimento de fármacos. Temos medicamentos para atuar em várias fases do vírus e conseguimos suprimir a replicação viral. Mas não podemos esquecer a conscientização. Nos países africanos, a epidemia continua avançando. E, mesmo no Brasil: a cada três pacientes que entram na terapia, seis novos se infectam. Também temos de ter em mente que não há cura. Não conseguimos chegar a uma vacina, mas não podemos desistir. Só com vacina a infecção vai poder mesmo ser controlada globalmente.
* JOSÉ COUTO-FERNANDEZ É PESQUISADOR DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ

'A aids não é uma doença superada', diz Nobel

Por ANDREI NETTO / PARIS, estadao.com.br
Cientista que descobriu o HIV há 30 anos fala sobre qualidade de vida e perspectivas de uma cura definitiva

Françoise Barré-Sinoussi tinha 35 anos quando, ao lado do também virologista Jean-Claude Chermann e sob a direção de Luc Montagnier, realizou uma descoberta que mudaria para sempre a história da Medicina e a vida de milhões de pessoas em todo o mundo: o HIV, vírus causador da aids.
Na segunda-feira passada, dia 20, o feito científico realizado no Instituto Pasteur, em Paris, que rendeu à pesquisadora o Prêmio Nobel de Medicina de 2008, completou 30 anos. Em entrevista ao Estado, Françoise faz um balanço das três décadas em que a doença desafia a ciência. No período, pesquisadores do mundo inteiro saíram da estaca zero e obtiveram avanços concretos como o AZT, medicamento que evitou a transmissão do vírus da mãe ao bebê em 1994, e o coquetel antirretroviral, criado em 1996, que reduziu a mortalidade dos pacientes em 85%.
A aids, porém, continua uma ameaça. Transformada em doença crônica em países desenvolvidos, mata em massa nas regiões pobres. Para Françoise, deve-se se esclarecer: a aids não foi superada nem o HIV, vencido. "Ainda morre-se muito de aids", diz a pesquisadora, que considera países como o Camboja - e não o Brasil - exemplo mundial no combate à doença.
Que balanço a senhora faz desses 30 anos de combate à aids?
Os maiores avanços nesses 30 primeiros anos são, em primeiro lugar, o desenvolvimento de testes de diagnóstico cada vez mais eficientes - hoje podemos até fazê-los em casa, embora com necessidade de acompanhamento. Em segundo lugar, o tratamento, que traz benefícios imensos ao paciente. Hoje, nos países ricos podemos falar da aids como uma doença crônica. Nos países pobres, infelizmente, mesmo com os progressos, mais de 50% dos pacientes não têm acesso ao tratamento. Por fim, além desses dois avanços, há o fato de que o tratamento hoje serve também como prevenção.
Esse é um ponto importante: o tratamento é eficiente e também serve para a prevenção. Essa é uma esperança, não?
Sim, o tratamento se provou muito eficiente, por exemplo, no caso da transmissão da mãe ao filho, por ser capaz de prevenir a infecção na criança. Hoje sabemos também que as pessoas infectadas e em tratamento transmitem o vírus apenas em casos raros. Se os portadores do HIV forem tratados em tempo, podemos reduzir em mais de 95% o risco de infecção dos parceiros. É uma conquista importante. Outra é o desenvolvimento do tratamento como prevenção. Tanto o gel microbicida para mulheres quanto a ingestão de medicamento, ambos antes da relação sexual, podem evitar a infecção. Houve muitos progressos em termos de tratamento e de prevenção em 30 anos.
Mas não é uma luta vencida, certo?
Não, a aids não é uma doença superada. Ainda se morre muito de aids, em especial em países pobres, mas também em ricos, como a França. Na média mundial, entre 50% e 60% das pessoas infectadas com HIV portam o vírus sem saber. Quando eles chegam doentes, são atendidos já muito tarde. Logo, um dos desafios de hoje é o exame de detecção, e a mídia tem um papel fundamental de incitar o público a fazer o exame para, em caso positivo, se tratar o mais rápido possível.
Há alguns anos países como o Brasil não fazem mais campanhas de massa para a realização desses exames porque não têm condições de atender todos os eventuais pacientes. Essa
situação mudou?
Creio que a situação esteja evoluindo no mundo inteiro. O Brasil segue ou vai seguir essa tendência. Os Estados Unidos falam em propor sistematicamente o teste HIV, e o mesmo acontece na França. Há um teste hoje que se pode fazer como se faz um de gravidez. Nos EUA, ele já foi aprovado. Na França, o Conselho Nacional de Aids o aprovou, mas com a condição de um acompanhamento por telefone. Afinal, não é o mesmo de fazer um teste de gravidez.
A senhora evocou nesta semana a perspectiva de uma geração livre da aids, assim como tivemos uma sob esse risco. Essa hipótese é plausível?
Em princípio, sim. Se fosse possível chegar a todas as pessoas portadoras do vírus em todo o mundo e as colocássemos sob tratamento, veríamos a epidemia decrescer de forma progressiva até chegarmos a uma geração livre da aids em 2050. Há modelos matemáticos que o mostraram, e esse é o sonho que devemos perseguir. Mas, na realidade, é dificílimo localizar todos os portadores de HIV, em especial em zonas rurais. Na prática, o que podemos fazer de mais concreto é fazer a epidemia recuar com o acesso correto ao tratamento.
O tratamento também precisa ser desenvolvido?
Nos primeiros 30 anos desenvolvemos várias ferramentas para lutar contra o HIV, o que nos deu tempo de pensar em como será o combate à doença no futuro. O fato é que ainda precisamos de muita pesquisa. Tudo parte dela para termos a estratégia terapêutica de amanhã ou a vacina ou ainda novos mecanismos de prevenção. Não é simples: enfrentamos um vírus muito complexo e muito variável, que escapa de tratamentos e da defesa imunológica. A pesquisa custa caro, e estamos em uma situação de crise internacional. Ainda assim, não podemos desistir. Ao contrário, é preciso que remobilizemos a comunidade internacional para desenvolver essas novas ferramentas.
A qualidade de vida dos pacientes é o desafio mais urgente? Quais são as perspectivas de avanço nos próximos dez anos?
Nos próximo dez anos, a perspectiva é melhorar a qualidade de vida e permitir que eles interrompam o tratamento, o que evitaria também as complicações de longo prazo. Há um pequeno porcentual de pacientes, em torno de 10%, que no longo prazo desenvolvem complicações graves, como câncer e doenças cardiovasculares ou ligadas ao envelhecimento precoce. Isso nos mostra que precisamos de estratégias terapêuticas menos pesadas.

Ousar para prevenir

Por JAIRO BOUER, estadao.com.br
Ações inovadoras na área da prevenção e da saúde sexual dos jovens nos Estados Unidos foram divulgadas nas últimas...

Ações inovadoras na área da prevenção e da saúde sexual dos jovens nos Estados Unidos foram divulgadas nas últimas semanas e mostram como as mudanças de hábitos e costumes dessa faixa da população podem exigir medidas mais ousadas das autoridades.
Na mais recente, na Califórnia, adolescentes de 12 a 19 anos podem agora receber kits gratuitos, enviados mensalmente para suas casas, com dez preservativos e lubrificante, além de material educativo. A ideia é facilitar o acesso do jovem à proteção nos distritos com os maiores índices de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). O piloto do projeto, no ano passado, já despachou mais de 30 mil kits.
Em outra ação, uma campanha publicitária em Chicago espalhou cartazes pela cidade com a imagem de um garoto "grávido", que olha com ar desolado para sua barriga, acompanhada do seguinte slogan: "Inesperado? A maioria das gestações em adolescentes é!" O objetivo é tentar conscientizar os jovens para a importância do sexo seguro e do planejamento para se evitar uma gravidez antes da hora.
Em outra tentativa de reduzir o número de gestações indesejadas, a FDA (agência que regula medicamentos nos EUA), autorizou há algumas semanas a venda de pílula do dia seguinte para maiores de 15 anos, sem necessidade de receita médica. Sabe-se que a contracepção de emergência só funciona se utilizada até 72 horas depois da relação suspeita. A iniciativa visa a agilizar o acesso das meninas à pílula, não tendo de esperar uma consulta com o médico.
Não é de hoje que facilitar o acesso dos jovens às tecnologias que garantam sua saúde sexual e a prevenção da gravidez indesejada acontece nos EUA. Máquinas automáticas que vendem ou distribuem camisinha em escolas, clubes e baladas existem há muito tempo no país. A própria pílula do dia seguinte já podia ser comprada por garotas com mais de 17 anos.
Além disso, há alguns anos, os EUA também aprovaram o uso de vacina contra o HPV (Papilomavírus humano), uma das DSTs mais comuns no mundo, para garotas e garotos dos 9 aos 26, como forma de tentar reduzir os casos de verrugas genitais e de alguns tipos de câncer ligados diretamente à ação desses vírus (colo de útero, vagina, vulva, glande e borda anal).
Essas tentativas de ampliar a proteção do jovem têm uma razão de ser. O sexo tem começado cedo e, muitas vezes, a proteção ideal - com camisinha em todas as relações sexuais e métodos contraceptivos efetivos - está longe de ser uma realidade. O aumento dos casos de DSTs (como gonorreia e sífilis), que podem facilitar a infecção pelo vírus HIV (causador da aids), é outra preocupação.
Enquanto isso, aqui no Brasil, camisinha em escola ainda dá muito dor de cabeça aos educadores. Muitos pais não concordam com a distribuição. Até aulas de saúde e prevenção e kits distribuídos pelos diferentes governos sobre educação sexual têm gerado uma reação exagerada e desproporcional em setores mais conservadores de nossa sociedade.
Não deveria ser assim! Explico: dados do Ministério da Saúde indicam que a metade dos meninos e quase um terço das garotas já teve uma relação sexual completa antes dos 15. Sem informação e longe dos insumos de proteção, o risco de gravidez na adolescência, DSTs, aids e maior predisposição a diversos tipos de câncer voltam a ameaçar o jovem. A gestação na adolescência (apesar da tendência de queda por aqui nos últimos anos) ainda está na faixa de 10% a 15% das garotas engravidando antes dos 18. Metade dos quase 40 mil novos casos de aids notificados em 2012 aconteceu na faixa mais jovem da população.
Já que é muito pouco provável parar a roda (a tendência do início precoce da vida sexual), que tal tornar o caminho mais suave para esses jovens? Ousar nas iniciativas de sensibilização, vencer resistências e ampliar o acesso à proteção efetiva deveria ser função compartilhada por pais, escolas e autoridades em educação, saúde e direitos humanos.
JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

Primeira geração com HIV enfrenta os desafios do envelhecimento precoce

 Por estadao.com.br
Soropositivos infectados no início da epidemia que sobreviveram numa época em que não havia terapia e o diagnóstico era uma sentença de morte se deparam com doenças comuns às pessoas mais velhas, como câncer, infarto e AVC
Passados 30 anos da descoberta do vírus responsável por causar a aids e pelo menos 15 anos depois de o diagnóstico ter deixado de ser considerado uma sentença de morte, a primeira pergunta que muitos pacientes ainda fazem logo após saber que são soropositivos é: quanto tempo eu tenho de vida? O infectologista Alexandre Naime Barbosa tem a resposta na ponta da língua: "O mesmo tempo que qualquer outra pessoa da sua idade".
Fica para os soropositivos com longo tempo de convivência com o vírus, porém, uma outra constatação. Os pacientes vivem mais, sim, mas envelhecem mais rapidamente.
O advento da terapia antirretroviral, com vários medicamentos, conseguiu controlar a principal causa de morte durante o início da epidemia: as doenças oportunistas, que surgiam depois que o vírus, em multiplicação alucinada, aniquilava as defesas do organismo.
As drogas conseguiram diminuir a replicação do vírus a ponto de a carga viral, nas pessoas que tomam o remédio rigorosamente, ficar indetectável no sangue. Algumas partes do corpo, porém, funcionam como reservatório do vírus, como os sistemas nervoso central e linfático. Uma espécie de refúgio, já que neles os vírus ficam fora do alcance das drogas e continuam se replicando lentamente.
"A gente assistiu à história de 30 anos da doença vendo-a de trás para frente. A primeira visão foi catastrófica. A aids levava a uma profunda redução da imunidade, a ponto de a pessoa morrer em decorrência das doenças oportunistas. Conseguimos mudar isso, tratar as pessoas. Aí, começamos a ver a doença pelo começo", diz Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"A infecção por HIV é inflamatória, no modelo de outras doenças crônicas. Mesmo tratando, ficam resquícios do vírus que promovem uma resposta de inflamação constante do corpo - e é ela que acelera o processo de degeneração dos órgãos e dos tecidos. Então, os desafios mudam. Agora precisamos lidar com esse envelhecimento prematuro", afirma Diaz.
Nos últimos anos, vários estudos em todo o mundo vêm mostrando que o corpo de uma pessoa que vive por muitos anos com o HIV acaba funcionando como o de alguém que tem, em média, 15 anos a mais.
As comorbidades mais comuns são as doenças cardiovasculares, como infarto e AVC (acidente vascular cerebral), que têm uma prevalência maior nessa população. Em segundo lugar, vêm os vários tipos de cânceres, como o de próstata, mama e colo de útero. Também são comuns perda de massa óssea, diabete e distúrbios neurocognitivos, como demência precoce. E deficiência renal, mas que pode estar mais relacionada ao próprio uso dos remédios.
"Envelhecer para todas as pessoas nada mais é do que ficar inflamado por muito tempo, o que ocorre com o chamado estresse oxidativo, com a liberação de radicais livres. No caso dos pacientes com HIV, é o vírus, entre outros processos, que faz isso bem mais cedo", explica Barbosa, que coordena um centro de tratamento de HIV na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu.
Cuidados extras. A solução, afirma o médico, é tentar lidar preventivamente com isso, associando outros medicamentos quando necessário. "Mulheres com o HIV devem fazer o exame de papanicolau e mamografia a cada seis meses. Recomendamos que todos sempre tomem vacinas." Com esses cuidados, diz, mesmo com uma incidência maior de outros problemas de saúde, não há impacto na expectativa de vida. "A mortalidade é praticamente igual a de quem não tem HIV. Só é preciso ter mais cuidados."
A situação é bem conhecida de Abelardo Pereira da Silva, de 63 anos, há 32 vivendo com o vírus. A infecção ocorreu no longíquo 1981, quando os primeiros casos eram identificados nos Estados Unidos. Ele teve uma úlcera que supurou e precisou receber várias bolsas em transfusão de sangue.
Quando o noticiário começou a mostrar que aquela era uma maneira de contrair a estranha doença, encasquetou. Queria fazer o exame a todo custo, mas não existia no Brasil. Só em 1988 fez o exame e confirmou suas suspeitas. Até iniciar o tratamento, em 1996, teve fraqueza, algumas pneumonias, mas superou os problemas no melhor estilo "sobrevivente".
"Aprendi a ser mais forte que o vírus, mas sei que tenho de cuidar da alimentação, do sono, da higiene, tomar o remédio às 6h e às 18h. Tomo uma cervejinha de vez em quando, mas faço hora com a latinha. Depois de velho, voltei a estudar, porque para isso nunca tem idade." Entrou no Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (Gapa), a primeira ONG a lidar com a doença, e dá palestra pelo País. "Falo sobre a adesão ao remédio. Ele não é bom, mas é melhor viver."