sexta-feira 15 2012

Quais traços o homem moderno compartilha com os neandertais?



Reprodução de uma criança neandertal feita pela Universidade de Zurique, na Suíça (Domínio público/Wikipedia)
O homem moderno de 50.000 anos atrás tinha uma organização social, uma economia e uma cultura em tudo semelhantes com os neandertais. O homem moderno atual é, evidentemente, muito diferente: privilegia a acumulação de conhecimentos e desenvolvimentos tecnológicos e científicos.

Só o homem moderno desenvolveu pensamento abstrato?



Homem observa pinturas nas paredes das cavernas do Parque Nacional de Bulawayo, no Zimbábue (Tom Shaw/Allsport/GettyImages)
Não. Os neandertais também exercitavam o pensamento abstrato e faziam uso de símbolos. Eles enterravam os mortos, usavam objetos de adorno pessoal, pintavam os corpos com tintas minerais, usavam utensílios de osso e marfim com marcas decorativas abstratas e desenvolveram uma sofisticada tecnologia do fogo. Essa técnica incluía a fabricação da mais antiga matéria-prima artificial da humanidade - uma resina utilizada para fazer tinta - através de processos que só encontram equivalente nos fornos de cerâmica do Período Neolítico, muitos milhares de anos depois.

O neandertal é uma subespécie do Homo sapiens ou uma outra espécie do gênero Homo?



Esqueleto de neandertal no Museu Americano de História Natural (Domínio público/Wikipedia)
De acordo com Zilhão, o neandertal é uma subespécie do Homo sapiens. Por definição, se houve miscigenação importante entre os dois grupos, isso significa que eram "subespécies" ou "populações" de uma só espécie biológica, não duas espécies distintas. Vanessa lembra, contudo, que a categorização de espécies é algo muito difícil. A questão ainda é amplamente discutida, apesar de tanto o homem moderno quanto o neandertal serem considerados humanos. 

Os neandertais foram dizimados pelo homem moderno?


Ilustração da erupção vulcânica que teria extinto os neandertais no oeste da Ásia e Europa (Chris Gash/The New York Times/LatinStock)
Não se sabe ao certo por que os neandertais desapareceram da Terra há 30.000 anos. Algumas hipóteses, não excludentes, são epidemias, catástrofes naturais ou o extermínio por outras populações. O que se sabe é que os neandertais foram assimilados pelos homens modernos, por meio de cruzamentos, e sucedidos pelas populações originárias de África que ocuparam gradativamente a Europa e Ásia a partir de 50.000 anos atrás.

Houve cruzamento entre os neandertais e o homem moderno?


Garota observa réplica do crânio de neandertal exposto em museu da Croácia (Nikola Solic/Reuters)
Sim. De acordo com Zilhão, isso está provado pela anatomia de fósseis dos primeiros europeus da época posterior ao primeiro contato com o homem moderno. Esses fósseis apresentam alguns traços característicos dos neandertais. Além disso, mais recentemente, o cruzamento também foi comprovado com a comparação do genoma de um neandertal com o de indivíduos atuais de vários continentes. Essa comparação evidencia que a contribuição neandertal para o genoma humano persistiu até o presente e em porcentagem significativa.
Arte: Thomaz Rezende
Os neandertais receberam este nome porque os primeiros ossos foram encontrados em uma caverna no Vale de Neander, na Alemanha. "Tal" significa vale em alemão.
Os neandertais receberam este nome porque a primeira ossada do homem pré-histórico foi encontrada em uma caverna no Vale de Neander, na Alemanha, em 1856. "Tal" significa "vale" em alemão.

Herança genética - A assimilação de neandertais pelos humanos modernos, segundo Zilhão, está provada pela anatomia de fósseis dos primeiros europeus que tiveram o primeiro contato com os neandertais e pela comparação do genoma com indivíduos de vários continentes. "Os neandertais contribuíram para o genoma humano e esses traços genéticos persistem até hoje em porcentagem significativa", disse.
De acordo com Vanessa, entre 1% e 4% do DNA de humanos modernos é de neandertais e outros homens arcaicos.
Mas a pesquisadora lembra que, além da assimilação, existem outras hipóteses não excludentes que também podem explicar o desaparecimento dos neandertais, como o extermínio, epidemias e até catástrofes naturais. "Os motivos para o sucesso humano e a extinção dos neandertais ainda são amplamente debatidos", disse Vanessa.

Humanos - Uma das questões mais debatidas entre os pesquisadores é se o neandertal era uma subespécie de Homo sapiens - ou seja, uma população de humanos eventualmente isolada - ou uma espécie completamente diferente, a doHomo neandethalensis.
Na opinião de Zilhão, trata-se de uma subespécie. "Se houve miscigenação importante entre os dois grupos, isso significa que eram subespécies ou populações de uma só espécie biológica, não duas espécies distintas", ponderou o arqueólogo.

Os cientistas já descobriram que o cruzamento de humanos com neandertais gerou híbridos férteis. Isso significa que, em um dado momento, rompeu-se qualquer tipo de isolamento reprodutivo entre o homem moderno e o neandertal. "Mas a tarefa de categorizar espécies é muito difícil", disse Vanessa. "No fim das contas, são todos considerados humanos".

Nove mitos e verdades sobre os neandertais


Evolução Humana

Pesquisas recentes sugerem que o homem de Neandertal era "gente como a gente". Mas o que isso quer dizer? Quais eram as semelhanças e diferenças entre eles e o homem moderno? Em entrevista ao site de VEJA, especialistas esclarecem as principais descobertas sobre nosso primo pré-histórico

Marco Túlio Pires
"Se andassem entre os humanos de hoje, os neandertais passariam despercebidos", afirma João Zilhão, um dos maiores especialistas em neandertais
"Se andassem entre os humanos de hoje, os neandertais passariam despercebidos", afirma João Zilhão, um dos maiores especialistas em neandertais (LatinStock)
Gente como a gente. É assim que os principais pesquisadores atualmente descrevem os neandertais, homens pré-históricos que viveram entre 130.000 e 30.000 anos atrás na Europa e em partes da Ásia. "Eles enterravam seus mortos, usavam objetos de adorno pessoal e desenvolveram uma sofisticada tecnologia do fogo", disse em entrevista ao site de VEJA oarqueólogo português João Zilhão, um dos maiores especialistas em neandertais. "Do ponto de vista arqueológico, não existe diferença cultural significativa entre neandertais e humanos modernos", afirmou Vanessa Paixão-Côrtes, doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vanessa faz parte de um grupo coordenado pela pós-doutora em biologia, Maria Cátira Bortolini, que estuda o genoma do neandertal. 

Especialistas

JOÃO ZILHÃO
João Zilhão é um arqueólogo português e um dos maiores especialistas em neandertais do mundo. Foi professor da Universidade de Bristol (Inglaterra) entre os anos de 2005 e 2010 e atualmente é pesquisador da Universidade de Barcelona.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SULAqui no Brasil, a pós-doutora em biologia Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordena uma linha de pesquisa sobre a evolução molecular de genes relacionados com características físicas. O grupo, formado pela doutoranda Vanessa Rodrigues Paixão-Cortês e pelo graduando Lucas Viscardi (aluno da Universidade Federal do Rio Grande), estuda o genoma do neandertal.
Não só o comportamento dos neandertais era semelhante ao dos homens contemporâneos: de acordo com Zilhão, os neandertais era tão parecidos fisicamente com os nossos antepassados que se andassem nas ruas de hoje ninguém notaria a diferença. Aliás, a experiência já foi feita. "Certa vez maquiaram atores como neandertais e os colocaram para passear pelas ruas de cidades ocidentais, como Nova York", contou Zilhão. E ninguém notou as diferenças, como formato do queixo, robustez das têmporas e corpo avantajado.

Desaparecimento - Apesar das semelhanças, restam ainda muitos mistérios sobre os "primos" dos homens modernos. Por exemplo, não se sabe muito bem por que os neandertais simplesmente desapareceram da Terra há 50.000 anos na Ásia e há 30.000 anos na Europa. Um dos artigos mais recentes defende que os neandertais não teriam resistido à invasão em massa de homens modernos na Europa há 40.000 anos.
De acordo com Zilhão, por meio de cruzamentos, os neandertais foram assimilados pelas populações de homens modernos originárias da África e que ocuparam gradativamente a Europa e Ásia a partir de 50.000 anos atrás

Neandertais podem ter sido os primeiros artistas rupestres


Pré-história

Arqueólogos encontraram pinturas com mais de 40.000 anos de idade em caverna no Norte da Espanha, possivelmente feitas por neandertais

Pinturas de estêncil da mão que foram datadas de mais de 37.300 anos atrás
Uma das figuras na caverna de El Castillo data de mais de 40.800 anos atrás, o que faz dela a arte rupestre mais antiga da Europa, segundo a equipe de pesquisadores (Pedro Saura/AFP)
Um estudo publicado nesta sexta-feira, na revista Science, traz informações sobre as pinturas rupestres mais antigas já identificadas, feitas há mais de 40.000 anos, possivelmente por neandertais, parentes próximos do homem moderno.
A pesquisa foi feita com 50 pinturas em 11 cavernas no Norte da Espanha. Até o momento, as pinturas encontradas na caverna de Chauvet, no Sul da França, eram as mais antigas: um estudo publicado no início de maio indica que elas foram feitas entre 28.000 e 40.000 anos atrás.

Saiba mais

NEANDERTAL
A Homo neanderthalensis é uma espécie extinta do gênero Homo, o mesmo dos humanos modernos, que viveu na Europa e em partes da Ásia entre 130.000 e 40.000 anos atrás. Os neandertais, que coexistiram com os Homo sapiens, receberam este nome porque a primeira ossada do homem pré-histórico foi encontrada em uma caverna no Vale de Neander, na Alemanha, em 1856. "Tal" significa "vale" em alemão.
HOMEM MODERNO
O Homo sapiens, espécie do homem moderno, surgiu na África há mais de 300 mil anos e começou a se expandir para a Europa há aproximadamente 40 mil anos.
Uma das figuras na caverna de El Castillo data de pelo menos 40.800 anos atrás, o que faz dela a arte rupestre mais antiga da Europa, segundo a equipe de pesquisadores. As imagens analisadas incluem discos vermelhos e o contorno de uma mão.
Ainda não é possível afirmar a autoria das pinturas, mas a possibilidade de que tenham sido feitas por neandertais anima os pesquisadores.
De acordo com os especialistas, já se sabia que eles também exercitavam o pensamento abstrato e faziam uso de símbolos.  Eles enterravam os mortos, usavam objetos de adorno pessoal, pintavam os corpos com tintas minerais, usavam utensílios de osso e marfim com marcas decorativas abstratas e desenvolveram uma sofisticada tecnologia do fogo. "Assim, não é surpreendente que o neandertal seja o primeiro pintor rupestre da Europa", afirmou o coautor do estudo, o arqueólogo português João Zilhão, pesquisador da Universidade de Barcelona.

Enquanto ainda não se comprova se as descobertas na Espanha são realmente obra dos neandertais, outras possibilidades são estudadas, como a hipótese de que elas teriam sido realizadas com a chegada do homem moderno à Europa, cuja evidência mais antiga data de 41.500 anos atrás. O neandertal desapareceu da Terra por volta de 40.000 anos atrás.
(Com Agência France-Presse)