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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Propina para Dirceu financiou ‘guerrilha midiática’, diz PF


Relatório sobre indiciamento do ex-ministro afirma que dinheiro sujo bancou jornalistas com a missão de atacar o julgamento do mensalão

O ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, durante audiência que ouve os presos da operação Lava Jato na CPI da Petrobras, no prédio da Justiça Federal do Paraná, em Curitiba, na manhã desta segunda-feira (31)
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu: propina para 'guerrilha midiática'(Vagner Rosário/VEJA.com)
Relatório da Polícia Federal afirma que parte da propina embolsada pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu no esquema do petrolão serviu para bancar uma "guerrilha midiática" contra o julgamento do mensalão e as autoridades que colocaram atrás das grades quadros do alto escalão petista. Dirceu foi condenado a 7 anos e 11 meses por corrupção ativa no escândalo político e cumpria prisão domiciliar em Brasília quando foi preso pela força-tarefa da Lava Jato. O ex-todo-poderoso do governo Lula foi indiciado nesta terça-feira pelos crimes de corrupção passiva, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Segundo os investigadores de Curitiba, uma parcela do dinheiro sujo depositado na JD Consultoria, usada como fachada em contratos fictícios ou verbais de prestação de serviços, acabou nas mãos do jornalista Leonardo Attuch por meio da Editora 247 LTDA, responsável pelo site pró-governo Brasil 247. "Não há que se falar que os valores angariados pela JD Consultoria não eram destinados a pessoa de José Dirceu e que tinham conotação partidária. O que se observa como única atividade desenvolvida pela JD Consultoria era albergar uma esquadra de jornalistas voltados a polir a imagem do ora investigado e seu grupo político", diz a polícia.
Ao autorizar a prisão preventiva de Dirceu no início de agosto, o juiz Sérgio Moro já havia afirmado que o dinheiro do petrolão foi usado para bancar o site Brasil 247 a pedido do Partido dos Trabalhadores. Os repasses foram feitos pela Jamp, uma empresa de consultoria controlada pelo lobista Milton Pascowitch."Considerando que a Jamp era, como afirma seu próprio titular, empresa dedicada à lavagem de dinheiro e repasse de propinas, parece improvável que o conteúdo do documento em questão seja ideologicamente verdadeiro, pois difícil vislumbrar qual seria o interesse de empresa da espécie em anunciar publicidade ou patrocinar matérias em jornal digital", afirma o juiz. A conclusão é reforçada por um depoimento do próprio Pascowitch. Ele disse aos investigadores da Lava Jato ter repassado dinheiro do petrolão para financiar o site Brasil 247 e, assim, assegurar o apoio da página ao PT. O autor do pedido foi João Vaccari Neto, ex-tesoureiro da sigla.
Apesar de a defesa de Dirceu alegar que os serviços de consultoria da empresa JD foram prestados, a PF considera que os documentos apreendidos na fase Pixuleco, da Lava Jato, indicam apenas que milhões de reais pagos a "consultorias sociológicas vazias que, na verdade, mascaram vantagens ilícitas atreladas, em sua maioria, a contratos com o poder público". "Não há, em mais de seis meses de investigação, a comprovação sequer de um único serviço de consultoria", diz.
No relatório policial encaminhado ao juiz Sergio Moro, a Polícia Federal ainda critica o fato de o ex-ministro José Dirceu ter mantido amplo poder político, mesmo depois de ter deixado o primeiro escalão do governo Lula e de, na sequência, ter tido o mandato parlamentar cassado pela Câmara. "Ressalte-se que sequer o fato de responder à ação penal do mensalão, na condição de réu junto ao Supremo, lhe retirou os clientes das vultosas consultorias vazias".
Condenado no julgamento do mensalão por corrupção ativa, José Dirceu teve os sigilos fiscal e bancário quebrados em janeiro após o Ministério Público, em parceria com a Receita Federal, ter feito uma varredura nas empreiteiras investigadas na lava Jato em busca de possíveis crimes tributários praticados pelos administradores da OAS, Camargo Correa, UTC/Constran, Galvão Engenharia, Mendes Junior, Engevix e Odebrecht. Os investigadores já haviam concluído que as empreiteiras cujas cúpulas são alvo de ações penais na Lava Jato, unidas em um cartel fraudaram contratos para a obtenção de obras da Petrobras, utilizavam empresas de fachada para dar ares de veracidade à movimentação milionária de recursos ilegais. Mas foi ao se debruçar sobre os lançamentos contábeis das empreiteiras, entre 2009 e 2013, que o Fisco encontrou o nome da consultoria de José Dirceu como destinatária de "expressivos valores" das empreiteiras.

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