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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Lava Jato apura enriquecimento ilícito da mulher e filha de Vaccari


Investigações apontam que as duas movimentaram por suas contas bancárias dinheiro sem justificativa factível

Por: Laryssa Borges, de Brasília, Alexandre Hisayasu e Felipe Frazão
O tesoureiro do PT e ex-presidente da Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo), João Vaccari Neto, durante depoimento à CPI das ONGs, sobre desvio de recursos da cooperativa e a existência de recursos públicos na Bancoop, no Senado em 2010
O tesoureiro do PT João Vaccari Neto(Sérgio Dutti/Estadão Conteúdo)
As mais recentes investigações da Operação Lava Jato, que levaram o tesoureiro do PT João Vaccari Neto à prisão na manhã desta quarta-feira, apontam que a mulher do petista, Giselda Rousie de Lima, e a filha do casal Nayara de Lima Vaccari movimentaram por suas contas bancárias dinheiro sem justificativa factível - o que indica que as duas podem ter enriquecido ilicitamente a partir de desdobramentos do escândalo do petrolão. Os indícios de participação da família de Vaccari em atos criminosos foram apresentados pelo Ministério Público ao juiz Sergio Moro, que coordena as investigações sobre a Lava Jato em primeira instância.
Com autorização da Justiça, foram quebrados os sigilos bancário e fiscal de Vaccari, da mulher dele, da filha e da cunhada, Marice Correa de Lima, já citada em outras etapas da investigação como beneficiária do esquema de propina instalado na Petrobras. A partir do acesso aos dados das contas bancárias e das declarações de Imposto de Renda da família do tesoureiro petista, os investigadores concluíram que Nayara de Lima Vaccari teve "significativo acréscimo patrimonial" entre 2009 a 2014, passando de 240.000 reais para mais de 1,6 milhão de reais no período. Na mesma época, Nayara era apenas uma residente em medicina e não havia declarado ao Fisco nenhum rendimento tributável em seu trabalho.
Todos os valores movimentados nas contas bancárias da filha de Vaccari vieram do pai, da mãe e da tia por meio de doações e empréstimos. Na avaliação do Ministério Público, porém, os sinais de enriquecimento ilícito ganham força porque os depósitos foram fracionados para dificultar rastreamento e - mais importante - 32,7% do dinheiro não tem origem identificada.
Segundo o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima a mulher e a filha de Vaccari são consideradas investigadas por lavagem de dinheiro. Ele classificou as operações como "muito suspeitas, típicas de lavagem de dinheiro."
A mulher de Vaccari entrou no radar das investigações da Lava Jato depois que uma empresa de Carlos Alberto Pereira da Costa, laranja do notório doleiro Alberto Youssef, fez um depósito de 400.000 reais em sua conta em novembro de 2008. Parte dos valores foi utilizada por Giselda para a compra de um apartamento em São Paulo. Na triangulação do esquema, a mulher de Vaccari recebeu em 2008 o dinheiro da CRA Comércio de Produtos Agropecuários, utilizou parte para a aquisição do imóvel e, em dezembro de 2009, transferiu de volta os 400.000 reais para a conta da CRA.
A operação financeira foi considerada suspeita pelos investigadores porque a CRA é uma empresa com capital social de apenas 10.000 reais e controlada por Carlos Alberto Pereira da Costa, braço de Youssef na empresa de fachada GFD Investimentos, uma espécie de central de lavagem de dinheiro utilizada cotidianamente no escândalo do petrolão.
As provas de que o tesoureiro João Vaccari Neto abasteceu os cofres petistas com dinheiro do propinoduto da Petrobras ganharam contornos mais claros após a delação premiada do ex-gerente da estatal Pedro Barusco, que afirmou que o petista embolsou até 200 milhões de dólares em dinheiro desviado do esquema criminoso. As citações sobre as articulações criminosas do secretário de Finanças do PT também foram feitas por outros delatores, como o doleiro Alberto Youssef, que apontou o partido como beneficiário direto do dinheiro sujo do petrolão: disse, por exemplo, que a sigla recebeu propina em uma obra da empresa Toshiba, a licitação da casa de força do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Segundo ele, foram entregues 400.000 reais à cunhada do tesoureiro petista, Marice. "O valor do PT foi negociado com João Vaccari", disse Youssef em depoimento. Outra parcela de 400.000 reais chegou a Vaccari pelas mãos de Rafael Ângulo Lopez, que trabalhava para o doleiro.
A exemplo de Vaccari, Marice Correa de Lima teve a prisão temporária decretada nesta quarta-feira por ordem do juiz federal Sergio Moro. Ela, no entanto, não foi encontrada em seu apartamento em São Paulo e é considerada foragida. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público mostraram "inconsistências fiscais" nas declarações de Imposto de Renda de Marice e indicativos de que parte de seu patrimônio pode ter sido construído a partir do pagamento de propina envolvendo a construtora OAS. A empreiteira é uma das empresas do Clube do Bilhão, cartel de companhias que fraudaram contratos da Petrobras e distribuía propina a agentes públicos e parlamentares.
"Marice é suspeita de ser uma operadora do esquema de corrupção com o Vaccari", disse o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima.
A partir da quebra de sigilo bancário e fiscal de Marice, os investigadores descobriram que a cunhada da Vaccari recebeu pagamentos da OAS no valor de 432.000 reais pela venda de um apartamento no Guarujá (SP) cerca de dois anos após ela mesma ter adquirido o imóvel por 200.000 reais. Para os investigadores, "a possível fraude é reforçada pela verificação de que a OAS vendeu em 16/12/2013 o mesmo apartamento por R$ 337.000, valor significativamente abaixo dos R$ 432.000". No final da transação, os valores recebidos da OAS serviram de lastro para justificar o suposto empréstimo à filha de Vaccari, Nayara.
Em um indício de possível fraude, Marice também declarou ter recebido em 2011, 240.000 reais, justificando os valores como indenizações por rescisão de contrato de trabalho em um programa de demissão voluntária. Entre 2009 e 2012, porém, a cunhada do tesoureiro do PT se manteve no mesmo emprego e não sacou valores do FGTS, o que, para o Ministério Público, é prova de que os 240.000 reais não foram justificados corretamente.

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