sábado 14 2013

Sete maneiras de se exercitar sem ir a academia

Atividade física

Escolher uma atividade prazerosa deve ser o primeiro passo para sair do sedentarismo — e não voltar mais

Correr pelas ruas da vizinhança é uma das formas mais econômicas de se exercitar  (Thinkstock)
Com a chegada do verão, aumenta o número de frequentadores das academias, ávidos para tornear o corpo que vão exibir durante a estação. Mas esse ambiente não é agradável para muitas pessoas que querem se exercitar. "Quem procura a academia mais para os benefícios à saúde do que à estética, geralmente se frustra, porque encontra um lugar cheio de jovens com corpos esculturais", diz Bruno Modesto, educador físico da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP). 
Exercitar-se fora da academia traz tantos benefícios quanto malhar dentro dela, com a vantagem da liberdade de escolha de horário e local. "O mais importante é a pessoa descobrir alguma atividade de que goste. Só assim ela conseguirá repeti-la o suficiente para os resultados aparecerem", explica a educadora física Mara Patricia Chacon, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 
O primeiro passo, portanto, é o atleta identificar o seu perfil. Enquanto para alguns a hora de se exercitar é um momento de relaxamento e reflexão, outros encaram a ginástica como uma atividade social, e consideram indispensável a companhia durante os exercícios. "Os que preferem ficar sozinhos podem optar por caminhada ou corrida no parque, enquanto pensam na vida. Já os que gostam de ter gente ao redor podem se sentir mais estimulados praticando esportes em grupo", afirma Mara.
Exercitar-se fora de uma academia requer alguns cuidados, como passar por uma avaliação médica a fim de prevenir eventuais lesões e prejuízos à saúde. É recomendável também conversar com um educador físico para saber quais são as modalidades indicadas em cada caso. 
A última etapa é estabelecer a rotina de exercícios. Para não criar um cronograma fora da realidade, que exija muitos desvios da agenda e acabe em frustração, fatores como tempo livre disponível e lugar para a prática de atividade devem ser considerados — não adianta, por exemplo, planejar duas horas de caminhada diárias em um parque longe de casa e do trabalho. "Para dar certo, precisa ter disciplina", afirma Mara. Conheça algumas maneiras de se exercitar sem ir à academia.

Caminhe

Entre os vários benefícios da caminhada, estão a queima de calorias, que ajuda a emagrecer, e a melhora do sistema cardiovascular. O hábito de caminhar pode ser incorporado facilmente na rotina: basta estacionar o carro um pouco mais longe do trabalho do que o habitual ou levar o cachorro para passear, por exemplo. "Outra boa ideia é ir ao mercado andando. Na ida, você está sem peso nenhum. Na volta, conta com a carga das compras para forçar um pouco mais o corpo", sugere a educadora física Mara Patricia Chacon, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Pule corda

O exercício ajuda a emagrecer e melhora a coordenação, pois exige movimentos simultâneos de diversas partes do corpo. Mas o benefício só se manifesta a partir do momento em que a pessoa consegue pular por, no mínimo, 1 ou 2 minutos sem parar. "Pode ser difícil no começo, porque envolve um padrão motor diferente do que usamos no cotidiano", explica Bruno Modesto, educador físico da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP). "Vale a pena persistir: no decorrer do tempo, a atividade fica mais fácil." 

Troque o elevador pela escada

Para evitar lesões, o ideal é começar com poucos lances e aumentar gradativamente o número de andares, conforme o corpo se acostumar ao exercício. Pode-se subir dois andares na primeira semana, por exemplo, e acrescentar mais um a cada sete dias. Valorize também o sentido inverso: descer degraus promove o gasto calórico e trabalha os membros inferiores do corpo, além de exigir mais coordenação e concentração do que a subida. 

Transforme sua casa em uma academia

Uma esteira ou uma bicicleta ergométrica transformam a casa em seu próprio ginásio. Se o objetivo é começar a fazer musculação, a sugestão é comprar um colchonete e halteres e caneleiras de 1 a 5 quilos. "Para músculos pequenos, como o tríceps, é melhor iniciar os exercícios com 1 ou 2 quilos. Para os grandes, como as costas, comece com 4 quilos", sugere Bruno Modesto. A carga deve ser aumentada quando a última repetição de cada série ficar fácil. "Para ganhar resistência muscular, é recomendável fazer duas ou três séries com quinze repetições cada uma."

Aproveite o ar livre

São inúmeras as opções de exercícios que podem ser praticados em ambientes externos. Em parques, é possível pedalar, correr, patinar, andar de skate ou fazer alongamento, entre outras atividades. Para os amantes da natureza, existe a opção dos esportes radicais, como o montanhismo. 

Experimente esportes coletivos

A prática de esportes coletivos oferece uma experiência bem diferente do ambiente da academia. Procurar um clube para saber quais esportes são oferecidos ou montar um time de amigos para jogar futebol, vôlei ou basquete na quadra do condomínio pode fazer bem à saúde física e mental, pois desenvolve capacidades como a habilidade de trabalhar em grupo e a competitividade. 

Jogue videogame

Foi-se o tempo em que videogame era sinônimo de preguiça e sedentarismo. Atualmente, alguns aparelhos contam com sensores de movimento que exigem que o jogador saia do sofá e se mexa para cumprir as tarefas do jogo. O equipamento, porém, deve ser usado com parcimônia. "O jogo faz com que você se movimente e gaste calorias, mas não é um exercício físico completo, e, na maioria das vezes, não será praticado com regularidade. Por isso, deve ser encarado como um complemento à atividade física", afirma Bruno Modesto.

*Fonte: Mara Patricia Chacon, educadora física professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Bruno Modesto, educador físico da Universidade de São Paulo

Polícia desarticula rede de clínicas de aborto no Rio

Rio de Janeiro

Operação mobiliza 50 policiais e resulta em sete prisões. Grupo era integrado por médicos, seguranças e agenciadores, que movimentavam cerca de 500.000 reais por mês

Polícia apresenta acusados de integrar quadrilha que praticava abortos Foto: Bruno Gonzalez / Agência O Globo
Polícia apresenta acusados de integrar quadrilha que praticava abortos 

Material de aborto apreendido (Polícia Civil - RJ)
 
A Polícia Civil do Rio desarticulou, na manhã desta sexta-feira, o que classifica como uma "rede de abortos" que operava na região metropolitana. A operação foi executada por policiais da 19ª DP (Tijuca). Em um ano de investigação, os agentes descobriram que o grupo movimentava cerca de 500.000 reais por mês.
Cerca de 50 PMs participaram da ação para cumprir seis mandados de prisão e sete de busca e apreensão na capital e em outros municípios. Maria José Barcellos Cândido, Nilda de Souza Pontes, Guilherme Estrella Aranha, José Luiz Gonçalves, Ivo Tannuri Filho e Myrian Hahamovici foram presos. Também foi apreendido material cirúrgico, e um valor ainda não calculado em dólares e euros.
A quadrilha era formada por médicos, agenciadores e seguranças. Semanalmente eram realizados aproximadamente 50 abortos para os quais eram cobrados valores de até 8.000 reais. Mulheres de outros Estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Maranhão vinham para o Rio fazer abortos.

Como a Inglaterra acabou com a barbárie das torcidas

Em VEJA desta semana

Cenas como as da semana passada em Joinville eram rotina no país há trinta anos. Mas, pondo os vândalos na cadeia e construindo estádios modernos, as autoridades jogaram os brigões para escanteio

Alexandre Salvador e Pieter Zalis
SELVAGERIA IMPUNE - Da horda de arruaceiros, alguns já identificados, apenas três estão presos: um deles é Leone Mendes da Silva, o Curimim (acima, com um pedaço de madeira nas mãos), torcedor do Vasco
SELVAGERIA IMPUNE - Da horda de arruaceiros, alguns já identificados, apenas três estão presos: um deles é Leone Mendes da Silva, o Curimim (acima, com um pedaço de madeira nas mãos), torcedor do Vasco      (Fotos Joka Madruga/Futura Press: Paulo Sergio/Lance Press e Heuler Andrey/AFP)
O futebol é o esporte nacional. Nós o demos ao mundo. Mas sua imagem dentro do nosso país foi muito manchada.” Essa definição, triste e precisa, sintetiza o estado atual do futebol brasileiro. Não há dúvida: de costas para o gramado, 2013 foi um ano perdido. Em fevereiro, um sinalizador disparado pela torcida do Corinthians matou um garoto de 14 anos em Oruro, na Bolívia. Doze brasileiros foram presos, mas por falta de provas (e pela conveniente confissão de um torcedor menor de idade) todos foram liberados. Para encerrar a temporada, no domingo 8, torcedores do Atlético-PR e do Vasco promoveram uma batalha no estádio de Joinville, em Santa Catarina, na última rodada do Campeonato Brasileiro. Ninguém morreu, embora a brutalidade das duas torcidas fosse suficiente para reverberar as estatísticas da violência no futebol — foram trinta mortes apenas neste ano. Lembra-se da definição que abre esta reportagem? Explica o futebol brasileiro, mas foi usada originalmente para descrever a situação da Inglaterra nos anos 1980, que era ainda pior do que a que se vê por aqui a seis meses do início da Copa do Mundo.
Há trinta anos, a violência dos torcedores ingleses mais inconsequentes, conhecidos como hooligans, provocou a exclusão das equipes do país das competições europeias por cinco anos. A razão foi a morte de 39 torcedores da Juventus, da Itália, em confronto com aficionados do Liverpool, em um jogo da Copa dos Campeões da Europa, disputado no Estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica, em 1985. Os hooligans causavam terror nas ruas e nos campos. Ocupavam as áreas mais populares dos estádios, os chamados terraces, e de lá promoviam o caos, com sessões de pancadaria e invasões de gramado. A então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, tratou de lidar com o problema à sua maneira: forte repressão policial e isolamento dos hooligans. Para conter os arruaceiros, foram instaladas grades pontiagudas, eletrificadas e com arame farpado no topo. Engaiolados, os torcedores se apinhavam como se estivessem enjaulados. A situação foi se deteriorando até 1989, quando ocorreu a maior tragédia. Na semifinal da Copa da Inglaterra, uma massa de torcedores do Liverpool que tentava chegar ao estádio de Hillsborough, um dos mais modernos do país à época, foi forçando a entrada pelos portões. A superlotação, aliada à falta de sinalização, esmagou os torcedores contra a grade que separava o campo das arquibancadas. Noventa e seis pessoas morreram esmagadas.
As autoridades britânicas decidiram reagir. O magistrado Peter Murray Taylor foi encarregado de preparar um relatório sobre a tragédia. É dele a frase inicial deste texto, que associou a violência a uma marca indelével no país que inventou o futebol. Em seu relatório final, de janeiro de 1990, Taylor propôs uma transformação radical no futebol inglês. “O comportamento e a segurança da multidão estão diretamente relacionados à qualidade das acomodações e instalações”, concluiu. Desde Hillsborough, trinta estádios foram construídos e centenas foram reformados (nesse aspecto, o legado das belas arenas erguidas para a Copa de 2014 pode ser muito bom). Os terraces, habitat favorito dos hooligans, foram preenchidos com cadeiras. Os estádios dos times de primeira e segunda divisões passaram a ter assentos para todos os espectadores.
Aliada à reforma dos estádios, foi criada uma política de prevenção da violência. Em vez de tentar conter os baderneiros depois do início dos confrontos, a polícia passou a identificá-los previamente. Todos os times ingleses tiveram de instalar em seus estádios sistemas de monitoramento por câmeras. Com esse aparato, a polícia faz uma varredura virtual à procura de torcedores brigões. Assim que um hooligan é localizado, é retirado do estádio. O embate entre policiais e torcida foi substituído pelo trabalho discreto de inteligência. Há um oficial escalado para estudar o comportamento dos torcedores de cada clube profissional inglês. Ele informa à polícia a identidade daqueles potencialmente mais perigosos.
AP/Sipapress
Depois da tragédia de Hillsborough (acima), em 1989, a Inglaterra transformou os estádios e a estratégia de policiamento. Recentemente, a Turquia adotou uma política extrema: apenas mulheres e crianças na plateia
Depois da tragédia de Hillsborough (acima), em 1989, a Inglaterra transformou os estádios e a estratégia de policiamento. Recentemente, a Turquia adotou uma política extrema: apenas mulheres e crianças na plateia
Tão ou mais importante do que a mudança nas normas é a efetiva aplicação da lei. Na temporada 2012-2013, houve 2 456 prisões de torcedores. A maioria dessas detenções resultou em Ordens de Banimento do Futebol (FBO, na sigla em inglês). O torcedor que for pego brigando recebe uma FBO e é obrigado a ficar de três a dez anos afastado dos estádios. Para garantir o cumprimento da pena, ele tem de ficar em uma delegacia enquanto seu time joga. Quando a seleção inglesa atua fora do país, o vândalo é obrigado a entregar seu passaporte cinco dias antes do jogo. Quem desrespeita a regra é preso e processado. Simples assim. Basta cumprir a lei.
Países que seguiram o exemplo inglês, como Alemanha e Espanha, também conseguiram controlar seus hooligans. “O exemplo inglês foi decisivo para todo o futebol europeu”, disse a VEJA o alemão Heinz Palme, diretor do Centro Internacional para a Segurança no Esporte. “A Inglaterra reforçou a tese de que, quando a casa está limpa e organizada, os visitantes tendem a mantê-la assim.” Outro país que sofre com brigas nas arquibancadas, a Turquia, inovou. Em 2011, proibiu a entrada de homens adultos como punição a times cuja torcida se envolvesse em brigas. Apenas mulheres e crianças puderam frequentar as arquibancadas. Mas a medida foi inócua. Os homens voltaram e as brigas prosseguiram.
No Brasil, duas questões explicam a violência persistente, cujo ápice se deu na última rodada do Campeonato Brasileiro: as penas brandas previstas no Estatuto do Torcedor e a impunidade. Com isso, crimes graves acabam sem a prisão dos culpados. “A diferença é que no Brasil impera a impunidade. Na Europa, os torcedores também extrapolam os limites, mas são presos”, diz Mauricio Murad, professor de sociologia dos esportes da Universidade Salgado de Oliveira. Um exemplo dessa impunidade foi o banimento, em 1997, das torcidas Mancha Verde (do Palmeiras) e Independente (do São Paulo), que se envolveram em brigas que deixaram mortos. No mesmo ano, os mesmos vândalos voltaram aos mesmos estádios com os mesmos símbolos e as mesmas bandeiras — apenas alteraram o nome e a razão social das torcidas. “Além da impunidade, nos países europeus não existe essa relação promíscua entre clubes e vândalos de torcidas organizadas”, acrescenta Murad. Um exemplo dessa promiscuidade é verificado no Vasco. A direção do clube bancou 75% dos gastos da viagem da torcida Força Jovem a Joinville. Murad faz desde 1999 um levantamento de mortes em brigas de torcidas. E constata que a situação só piora: “Até 2008, a média era de 4,8 mortes por ano. Nos últimos cinco anos, subiu para dezesseis”.
Na quinta-feira passada, uma reunião no Ministério do Esporte foi pródiga em discursos e inócua em medidas concretas. Uma possibilidade em discussão é tirar pontos dos clubes cujos torcedores se envolverem em brigas. Hoje a punição ao clube se limita a fazer com que a partida se realize a uma distância de mais de 100 quilômetros de sua sede — o jogo em Joinville já era uma punição ao Atlético por uma briga anterior dos mesmos torcedores. Na sexta 13, foi definida a punição aos clubes: o Vasco perdeu oito mandos de campo e o Atlético-PR, doze. “O clube teme mais perder 3 pontos do que 3 milhões de reais. A cobrança por 3 pontos será muito mais dura pela torcida em cima dos dirigentes. O dinheiro ele pode pedir emprestado”, disse o ministro Aldo Rebelo. A violência nos estádios é parte da violência da sociedade. Para que ambas sejam enfrentadas, são necessários os mesmos instrumentos: leis duras e seu cumprimento efetivo. Como fizeram os ingleses.
Com reportagem de LESLIE LEITÃO e ALEXANDRE ARAGÃO

Como funciona a rede de corrupção de Adir Assad, rei dos laranjas e dos caixas de campanha

Em VEJA desta semana

Empresário-fantasma faturou 1 bilhão de reais com um serviço valioso: corrupção e financiamento clandestino de candidatos. Entre seus clientes, estão as maiores empreiteiras do país, bancos, consórcios, consultorias, concessionárias e muitos amigos do poder...

Alana Rizzo, Daniel Pereira e Rodrigo Rangel
Do rol de clientes de Adir Assad constam mais de 130 empresas que pagaram 1 bilhão de reais por serviços que quase nunca foram prestados
Do rol de clientes de Adir Assad constam mais de 130 empresas que pagaram 1 bilhão de reais por serviços que quase nunca foram prestados (Sergio Lima/Folhapress)
O empresário paulista Adir Assad é uma pessoa conhecida no ramo do entretenimento. Durante décadas, ele trabalhou na captação de patrocínios para shows e espetáculos. Por suas mãos vieram ao Brasil a banda U2 e as cantoras Amy Winehouse e Beyoncé. Nas festas e jantares estava sempre em companhia de gente famosa. Assad se acostumou aos holofotes, mas, apesar da badalação, levava uma vida típica de classe média. Essa história começou a mudar quando o empresário — que aprendeu com o pai, um mascate de origem libanesa, que o segredo do sucesso é vender bem — trocou o ramo dos eventos pelo de engenharia. Mais especificamente, aquela engenharia perversa que garante o repasse de dinheiro, sob a forma de propina e caixa dois eleitoral, a servidores públicos e políticos corruptos. A mudança de área de atuação teve efeitos imediatos. O faturamento das empresas de Assad cresceu 574 vezes em quatro anos, ele enriqueceu e, de quebra, trocou o noticiário de celebridades pelo policial, sob a suspeita de coordenar um esquema de distribuição clandestina de recursos estimado em 1 bilhão de reais.
Formado em engenharia civil, Assad contribuiu para o fim melancólico da CPI do Cachoeira. Criada pelo PT para atacar instituições que investigaram e denunciaram o mensalão, a comissão passou a aterrorizar os políticos, inclusive os petistas, depois de VEJA revelar que a empreiteira Delta, até então a principal fornecedora da União, usava uma extensa rede de empresas-fantasma para pagar propina a servidores públicos e financiar ilegalmente campanhas eleitorais. Assad era peça vital dessa engrenagem. Suas empresas de engenharia e terraplenagem recebiam da Delta grandes quantias, que depois eram sacadas na boca do caixa e repassadas aos beneficiários finais. Coube ao próprio dono da Delta, Fernando Cavendish, relatar esse esquema a parlamentares. Na conversa, Cavendish disse que não apenas a Delta mas companhias de diversos setores usavam o laranjal de Assad para remunerar funcionários públicos e políticos. O recado era claro. Todos, empresários e autoridades, perderiam se o esquema fosse investigado a fundo. Todos deixaram o esquema de lado. Em agosto do ano passado, VEJA mostrou que as firmas de Assad haviam recebido mais de 200 milhões de reais da Delta e de outras empreiteiras. Agora, descobre-se que o valor é muito maior.
Colaboraram Hugo Marques e Adriano Ceolin




Máfia do ISS: 400 imóveis da 'lista da propina' serão notificados

São Paulo

Imóveis que contribuíram com o esquema, pagando propina, deverão apresentar documentos à prefeitura. Tributos desviados deverão ser pagos

Acusados do esquema de desvio do imposto sobre serviços da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD), são soltos na madrugada do sábado - (09/11/2013)
Acusados do esquema de desvio do imposto sobre serviços da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD), são soltos na madrugada do sábado - (09/11/2013) - Marcos Bizzotto/Futura Press

A prefeitura de São Paulo vai notificar os responsáveis por 400 empreendimentos da "lista da propina" redigida pelo fiscal Luis Alexandre Cardoso de Magalhães. As empresas terão de apresentar documentos que comprovem o pagamento do valor correto do imposto sobre serviços (ISS). O documento foi repassado pelo Ministério Público Estadual (MPE) à administração municipal. Pequenas e grandes construtoras constam da contabilidade que o fiscal fazia de quem supostamente pagava propina à máfia. No total, empresas de diferentes setores, como construtoras, igrejas, bancos e até hospitais teriam pagado 29 milhões de reais em suborno, de acordo com a planilha apreendida.
O objetivo da prefeitura é recuperar o valor desviado. Em todos os casos, apenas uma pequena parcela do que deveria ser recolhido em ISS, de fato, era paga. Do valor calculado como correto, a quadrilha dava um desconto de 50%. O restante ia para o bolso dos fiscais e, em média, apenas 10% do ISS era efetivamente repassado aos cofres municipais.
Na lista de Magalhães, um empreendimento da Brookfield na Rua Taquari, por exemplo, deveria recolher 311.000 reais. De acordo com a contabilidade dele, o valor pago aos cofres municipais em imposto foi de 5.500 reais, apenas 1,7% do que deveria constar na guia. Nesse caso, a quadrilha ficou com 150.000 reais em propina.
Até agora, a administração municipal já notificou 64 empreendimentos. Segundo a prefeitura, treze já haviam sido indicados pelo MPE. Apenas duas empresas apresentaram a documentação exigida pela equipe da Secretaria Municipal de Finanças incumbida de conseguir o dinheiro do tributo de volta. Cada empresa tem dez dias corridos, a partir da data de recebimento do ofício, para apresentar a documentação requerida. 
(Com Estadão Conteúdo)

Cartier, o joalheiro dos reis e das rainhas

Em VEJA desta semana

Uma exposição no Grand Palais apresenta a trajetória do joalheiro. É um espetáculo de história, arte, mundanidade - e, claro, muito, muito brilho

Mario Sabino, de Paris
VERDES ANOS - Em 1929, ano do crash da Bolsa de Nova York, Marjorie Merriweather Post, então a mulher mais rica dos EUA, foi retratada com o broche de esmeraldas criado pela maison parisiense
VERDES ANOS - Em 1929, ano do crash da Bolsa de Nova York, Marjorie Merriweather Post, então a mulher mais rica dos EUA, foi retratada com o broche de esmeraldas criado pela maison parisiense (Fotos divulgação Cartier)
No Brasil, roubam-se joias - de pessoas, bancos e museus. Na França, ainda se pode usá-las e expô-las, sem o risco de ter a garganta cortada ou levar um tiro na cabeça. Não é um início glorioso para uma reportagem sobre a extraordinária exposição em cartaz no Salão de Honra do Grand Palais, em Paris, dedicada à história da joalheria Cartier. Mas, para um brasileiro, é inevitável pensar em seu próprio país quando ele se vê diante de um tesouro como o que está sendo exibido até 16 de fevereiro próximo. Pois é, malandragem da Papuda e similares, o papo aqui é outro - sabe como é, gente é para brilhar e para ver brilho, não para morrer de fome, bala ou esquistossomose via bandidos que afanam o Erário e, por tabela, a saúde e a educação.
Divulgação Cartier
A MARCA DA PANTERA - Os designers da Cartier sempre deram asas à fantasia. E patas, como as da pantera. Símbolo da mulher livre e solta, ela está no broche de diamantes e safira
A MARCA DA PANTERA - Os designers da Cartier sempre deram asas à fantasia. E patas, como as da pantera. Símbolo da mulher livre e solta, ela está no broche de diamantes e safira
​O nome da mostra é Cartier, o Estilo e a História. Mas o título ideal seria “Cartier, Joalheiro dos Reis - e das Rainhas”. Fundada em 1847, por Louis-François Cartier, a maison floresceu mesmo sob o comando do seu filho Louis Cartier. A partir do último quarto do século XIX, não houve cabeça coroada na Europa que não usasse uma joia Cartier especialmente criada para ela. Aliás, essa história de “joalheiro dos reis” é um achado de um monarca - o rei Eduardo VII, da Inglaterra, que encomendou 27 tiaras para a sua coroação, em 1901. Para ele, Cartier era “o joalheiro dos reis e o rei dos joalheiros”. Ou seja, agregava muito, mas muito valor ao camarote, se é que você entende... Cartier se tornou o fornecedor oficial da família real inglesa e de outras casas reais. Na exposição, há um broche em forma de flor, da coleção de Elizabeth II, com um magnífico diamante rosa. Outra preciosidade é o diadema Halo, de 1936, confeccionado em platina e - pasme - 888 diamantes. O Halo foi usado por Catherine Mid­dleton, duquesa de ­Cambridge, quando a magrinha se casou com o príncipe William, em 2011.
Ela, a ovelha negra, a americana divorciada, que fez o rei Eduardo VIII, da Inglaterra, abdicar por amor, também era cliente assídua. Pode-se dizer que Wallis Simpson, duquesa de Windsor, saiu da pobreza - e a pobreza saiu de dentro dela. Não é fácil, não, ao contrário do que possa parecer. E tornou-se rica com certa dose de fantasia, como dá para verificar pelo broche em forma de flamingo encomendado por ela em 1940 - platina, diamantes, esmeraldas, safiras e rubis. A fantasia, aliás, é uma das marcas da Cartier. Em alguns casos, os símbolos por ela lançados se tornaram quase que arquétipos, como a pantera que representa a mulher livre e sedutora.
Fotos Glow Images e divulgação Cartier
AS OVELHAS NEGRAS E O FLAMINGO - Wallis Simpson, a duquesa de Windsor, que fez o rei Eduardo VIII, da Inglaterra, abdicar por amor, era cliente assídua
AS OVELHAS NEGRAS E O FLAMINGO - Wallis Simpson, a duquesa de Windsor, que fez o rei Eduardo VIII, da Inglaterra, abdicar por amor, era cliente assídua
​Uma das graças da exposição é apresentar joias ao lado de fotos e quadros em que os seus proprietários originais as usam. Uma pintura de Giulio de Blaas, de 1929, retrata a americana Marjorie Merriweather Post com um broche magnífico de esmeraldas, que está logo ali, na vitrine à esquerda. No ano do crash na Bolsa de Nova York, a então mulher mais rica dos Estados Unidos não parecia preocupada com o abalo na economia mundial. Aliás, ­Louis Cartier teve o faro de instalar, no início do século XX, uma filial na América, onde estava o dinheiro novo e abundante. Atribui-se a ele a entrada triunfal de magnatas americanos, como Grace Vanderbilt, por exemplo, nos círculos da aristocracia francesa.
Fotos divulgação Cartier e Ben Stansall/AFP
FRANÇA E INGLATERRA, JUNTAS - A Cartier foi designada fornecedora oficial da família real inglesa. Em seu casamento com o príncipe William, Catherine usou o diadema Halo, com 888 diamantes
FRANÇA E INGLATERRA, JUNTAS - A Cartier foi designada fornecedora oficial da família real inglesa. Em seu casamento com o príncipe William, Catherine usou o diadema Halo, com 888 diamantes
Ele era um apaixonado pela corte de Luís XVI e ajudou a reabilitar a figura de Maria Antonieta, fazendo a cabeça de muitas mulheres, com o perdão do trocadilho voluntário, por meio de tiaras, colares, objetos de decoração e broches que - como é que se diz, mesmo? - revisitavam o estilo da rainha guilhotinada. Os seus artesãos se debruçavam sobre cartapácios empoeirados, para desenhar as peças que fariam a fama da maison nos primeiros decênios. Ao longo dos anos, as inovações tecnológicas foram sendo incorporadas com rapidez pela Cartier, para criar os primeiros relógios de pulso (idealizados pelo brasileiro Santos Dumont) e as peças pioneiras de aço.
Hulton archive/Getty Images
OLHE SÓ O MEU RELÓGIO - O ator Rodolfo Valentino usou o seu Tank no filme O Filho do Sheik, de 1926. Esquecimento ou apego, no Brasil arrancavam-lhe o braço...
OLHE SÓ O MEU RELÓGIO - O ator Rodolfo Valentino usou o seu Tank no filme O Filho do Sheik, de 1926. Esquecimento ou apego, no Brasil arrancavam-lhe o braço...
​De reis e rainhas à burguesia da era industrial - com umgrand finale de celebridades do jet set e estrelas de Hollywood. Da lista de clientes da Cartier, faziam parte Liz Taylor, com aqueles diamantões que ela amava mais do que os maridos, a radiosa Grace de Mônaco e a atriz mexicana María Félix, com os seus braceletes em forma de cobra e o jeito de madurona-propaganda de cigarrilhas. Arte, design, tecnologia, poder, mundanidade - é possível aprender um bocado de história por intermédio da trajetória da Cartier. Não, no Salão de Honra do Grand Palais, em cuja estrutura metálica déco são projetadas continuamente imagens de diamantes, não há um espacinho para a exploração desumana dos trabalhadores nas minas da África do Sul, origem da maioria das pedras da Cartier. Mas por que bancarmos os chatos, não é?
Por último, uma curiosidade: na mostra, há uma foto do ator Rodolfo Valentino, numa cena do filme O Filho do Sheik, de 1926, vestido de príncipe árabe - e usando um relógio Tank, da Cartier. Ele se esqueceu de tirar ou se recusou a fazê-lo, não se sabe ao certo. Já pensou se fosse no Brasil? Arrancavam-lhe o braço para roubar o relógio.

Chico, Café... E Eu Seria Xícara ou A Xícara Seria Eu... Rs