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domingo, 11 de outubro de 2015

A ascensão dos Picciani


Como o pecuarista Jorge Picciani, patriarca de um clã político do Rio de Janeiro, conseguiu aproximar-se do Planalto, emplacar dois ministérios para o PMDB e alçar o sobrenome da família ao cenário eleitoral nacional

SEMPRE UNIDOS – Jorge, o patriarca, com Leonardo (no meio) e Rafael: ninguém dá um passo sem o consentimento do pai
SEMPRE UNIDOS – Jorge, o patriarca, com Leonardo (no meio) e Rafael: ninguém dá um passo sem o consentimento do pai(VEJA.com/VEJA)
Quando o tabuleiro do poder estremece, peças tombam, embaralham-se e se sobrepõem umas às outras. Nesses momentos, mes­mo peões, desde que estrategicamente posicionados, podem ganhar relevância. Os Picciani sabem disso melhor que ninguém. O notório clã da política do Rio de Janeiro hoje tem como seu representante mais visível o deputado Leonardo Picciani, o atual líder do PMDB na Câmara. Mas o grande articulador da ascensão familiar é seu pai, o deputado estadual e pecuarista Jorge Sayed Picciani. Presidente do PMDB fluminense, ele é considerado há duas décadas um dos mais sagazes caciques políticos do estado. Agora, quer que também o resto do país conheça seus predicados.
Picciani pai fez carreira construindo alianças improváveis e arregimentando fundos para campanhas milionárias, tanto as suas como as de colegas que lhe são eternamente gratos. Foi decisivo na eleição de um sem-fim de vereadores e deputados, além de ter dado sua fundamental contribuição aos governadores Sérgio Cabral Filho e Luiz Fernando Pezão. Nos últimos meses, mudou de patamar. Hábil nas costuras de bastidores, ganhou importância no cenário nacional ao se revelar um dos fiadores do mandato de Dilma Rousseff no Congresso.
O pragmatismo é a marca de Picciani. Herdou a característica, além de Leonardo, de 35 anos, o caçula Rafael, que, aos 29 anos, já é deputado estadual em segundo mandato, atualmente licenciado para tocar a poderosa Secretaria Municipal de Transportes. Um exemplo do estilo de atuação do patriarca se deu em 2014, quando ele amarrou o apoio de uma ala do PMDB à candidatura do tucano Aécio Neves, fato que resultou numa improvável aliança conhecida como Aezão (Aécio + Pezão, então candidato). Seu partido fincava assim os pés em duas canoas, já que, oficialmente, continuou fechado com a candidata Dilma. Vitoriosa, ela passou os oito primeiros meses de mandato mantendo distância dos Picciani - então unha e carne com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, inimigo jurado do Planalto.
A situação mudou em 13 de agosto, em um café da manhã que juntou Jorge e Leonardo Picciani com Dilma. O encontro foi organizado por Pezão e pelo prefeito Eduardo Paes. Na ocasião, já de olho na barca governista, Picciani pai insistiu na importância de construir uma "coalizão de fato" na base de apoio à presidente e fez a análise do momento com uma metáfora bem a seu modo. "É como tirar o burro do atoleiro. É difícil, tem lama, mas é preciso avançar", comparou, arrancando risadas da interlocutora. Dias depois, Leonardo Picciani desligou-se da ala Cunha e bandeou-se para o lado do PMDB pró-governo, com a árdua tarefa de garantir quórum para o governo nas votações decisivas - no que até agora fracassou redondamente. Da sua parte, porém, o clã já está no lucro: um mês depois do café com Dilma, emplacou os ministérios da Ciência e Tecnologia e da Saúde.

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