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domingo, 12 de julho de 2015

O PMDB e o bonde da história


Partido que aperfeiçoou o adesismo debate se desembarca do governo. Mas não pode se eximir de sua parcela de responsabilidade pela crise

No Palácio do Planalto, o vice-presidente do Brasil, Michel Temer, fala com a presidente Dilma Rousseff após cerimônia de lançamento do Pacto Nacional de Violações de Direitos Humanos na Internet - 07/04/2015
No Palácio do Planalto, o vice-presidente do Brasil, Michel Temer, fala com a presidente Dilma Rousseff após cerimônia de lançamento do Pacto Nacional de Violações de Direitos Humanos na Internet - 07/04/2015(Ueslei Marcelino/Reuters)
Nas últimas três décadas, o PMDB exerceu com incomparável habilidade a arte de se manter no governo - e sempre arranjar uma justificativa aparentemente republicana para isso. A tática do adesismo irrestrito costuma funcionar bem: rende votos, influência e cargos privilegiados no primeiro e segundo escalão. Até que se esgote a popularidade do líder do momento e seja necessário pular do barco.
O PMDB está nessa situação. Os níveis baixíssimos de popularidade de Dilma Rousseff e a decadência do PT são sinais muito fortes para serem ignorados por um partido que almeja assumir o Palácio do Planalto em 2018. Ao mesmo tempo em que aumentam as críticas à presidente da República e ao seu partido, nomes de destaque do PMDB têm se aproximado de figuras da oposição. Mas ainda não há clareza a respeito do rumo a tomar. Rompimento imediato? Apoio aberto ao impeachment? Preservação do governo para lucrar com a imagem de fiador da estabilidade?
Em meio às incertezas, os peemedebistas se preparam para lançar no próximo congresso da legenda, previsto para a primeira quinzena de outubro, uma proposta de programa partidário com traga quinze caminhos para a política e a economia. O principal responsável pela elaboração do documento é o senador Romero Jucá (PMDB-RR). A depender das suas últimas declarações sobre as políticas econômicas de Dilma, é esperado que apresente propostas divergentes das adotadas pelo governo petista. Na última semana, o parlamentar disse que "chegou a hora da verdade dos números" e que nos cálculos não devem haver "maquiagens" ou "pedaladas".
Dentre os peemedebistas de destaque, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o que menos esconde a disposição de rompimento com o PT - embora não com o governo: "O PMDB, a cada dia que passa, está mais distante do PT e nós esperamos que fique a cada hora mais distante", disse ele na última quinta-feira. E prosseguiu: "Temos a responsabilidade da governabilidade de um governo que em que o PMDB faz parte na chapa, mas isso não quer dizer que temos que mergulhar nas teses equivocadas do PT". Desde que assumiu o comando da Câmara, Cunha tem pautado temas que desagradam o governo. Até agora, venceu mais do que perdeu.
O ex-deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) é um dos personagens que ajudam a explicar a relação do PMDB com o PT. Antigo adversário dos petistas, ele se aproximou do governo ainda na gestão de Lula. No primeiro mandato de Dilma, se tornou vice-presidente da Caixa Econômica Federal. Depois, rompeu novamente com o PT. "Na medida em que a coisa vai se deteriorando, a nossa ideia de afastamento vai ganhando adeptos e se tornando mais real. Vai culminar em outubro no congresso do PMDB", avalia.
Já na convenção de 2014, a sigla mostrou-se dividida. O apoio à reeleição de Dilma Rousseff foi aprovado com apenas 54% do total de credenciados para votar. Se a votação ocorresse hoje, o resultado certamente seria amplamente desfavorável ao governo.
A tese do impeachment ainda é minoritária. Para muitos peemedebistas, interessa manter a presidente Dilma Rousseff acuada e impopular. Por dois motivos. O primeiro, porque com uma presidente enfraquecida no poder o partido continua a controlar a agenda pública, como tem feito por meio de Eduardo Cunha e Renan Calheiros. O segundo, porque assim será mais fácil derrotar o PT em uma eventual candidatura avulsa à Presidência em 2018.
Mas a estratégia traz riscos. Se chegar na próxima eleição presidencial ao lado de Dilma, mesmo que apenas simbolicamente na figura de Michel Temer, o PMDB terá muita dificuldade em se apresentar como o porta-voz da mudança.Como negar que o PMDB também é parte dos motivos para a crise? A instabilidade econômica é fruto de políticas irresponsáveis de Dilma Rousseff no seu primeiro mandato e de Luiz Inácio Lula da Silva. Tanto um quanto outro contaram com o apoio providencial do PMDB, que nunca questionou a sério a política econômica petista. Presidente da Fundação Ulysses Guimarães e figura próxima a Temer, o ex-ministro Moreira Franco tenta eximir o partido: "O partido não participou e nem participa da formulação das estratégias econômicas", diz.
No caso do petrolão, outra causa direta da impopularidade do governo, não há dúvida de que a estrutura foi montada por governos petistas, para atender prioritariamente o PT. Mas também é inegável que o PMDB desfrutou do esquema. Eduardo Cunha e Renan Calheiros estão na lista de investigados da operação Lava Jato. É outro tema em que o partido terá de se esforçar muito para passar a imagem de que é diferente do PT.
O PMDB pode, por outro lado, abarcar a tese do impeachment. Nesse caso, o herdeiro da Presidência seria Michel Temer. Mas a história mostra que o partido só faria isso quando o cenário estivesse desenhado contra o governo. Não é do perfil da sigla tomar a dianteira em um processo sem volta como esse.
Enquanto avalia qual rumo tomar em 2018, o PMDB já tem clareza que, nas eleições municipais de 2016, o afastamento do PT é o melhor caminho para obter um bom resultado nas urnas. Se colocado em prática, poderá ser o primeiro passo para o divórcio que o PT tanto teme.

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