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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

PF investiga Cerveró por prejuízo de US$ 700 mi na África

Política

Caso passou a ser investigado após depoimento prestado sob sigilo por um informante. Ex-diretor teria feito negócio nocivo à estatal para desviar recursos

Nestor Cerveró na chegada ao Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba (PR). A Polícia Federal informou que o ex-diretor da Petrobras foi preso preventivamente por ter feito movimentações financeiras suspeitas após ser denunciado pelo Ministério Público Federal
Nestor Cerveró na chegada ao Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba (PR). A Polícia Federal informou que o ex-diretor da Petrobras foi preso preventivamente por ter feito movimentações financeiras suspeitas após ser denunciado pelo Ministério Público Federal (Geraldo Bubniak/AGB/Folhapress)
O ex-diretor de Internacional da Petrobras Nestor Cerveró é investigado pela Polícia Federal por um prejuízo de 700 milhões de dólares em um negócio de exploração de petróleo em Angola, na África. O caso passou a ser investigado após depoimento prestado sob sigilo por um funcionário de carreira da estatal, no Rio, que procurou os policiais um mês após ser deflagrada a Operação Lava Jato, em março de 2014.
O informante citou o nome de Cerveró – preso na Operação Lava Jato – no negócio, que contrariou pareceres internos, e teria ocasionado prejuízo proposital como forma de desviar recursos públicos. Funcionário de carreira com 30 anos de serviços prestados à Petrobras, o informante procurou os delegados para denunciar indícios de crimes e "má gestão proposital" na estatal. "Um dos projetos que teve como objetivo o prejuízo internacional da Petrobras foi o bloco de exploração em Angola", afirmou o informante em depoimento de quatro horas, realizado em 28 de abril de 2014.
Conta ele que quando foi aberto leilão internacional para compra dos direitos de exploração de blocos petrolíferos em Angola, a estatal analisou o negócio. "Diversos pareceres de geólogos da Petrobras foram redigidos analisando o potencial de exploração de cada um deles. Estes pareceres apontavam indícios de que a Petrobras não deveria sequer praticar do leilão, pois não havia indícios de lucros ou rentabilidade na exploração de tais áreas."
Com base nesses laudos, a estatal não entrou no leilão. "Alguns anos depois, a Petrobras decidiu comprar 50% dos direitos de exploração deste poços arrematados no leilão pelo mesmo valor que a empresa inicial arrematou a totalidade".
A empresa vencedora teria pago 500 milhões de dólares pelo negócio na época do leilão. O custo de 50% do direito aos blocos, no entanto, custou à Petrobras "exatamente a mesma quantia paga anos antes por 100% dos direitos" – 500 milhões de dólares. "Existem indícios de que o dinheiro repassado à ganhadora do leilão foi uma forma de desviá-lo da Petrobras e sugere que se investigue se houve retorno deste capital ao Brasil ou a contas controladas pelo envolvidos, no exterior", registra a PF, em documento anexado em novembro aos autos da Lava Jato.
Perfurações – Ao todo, o relatório de Informação Policial 18/2014 registra acusações do funcionário de carreira em seis supostas fraudes para desvios de recursos. Prestes a se aposentar, o informante decidiu contar o que sabia, sem ter seu nome revelado. Delegados da Lava Jato mantém contato direto com o funcionário da estatal. No negócio em Angola, que teria envolvido a Diretoria de Internacional sob o comando de Cerveró, ele relata que a irregularidade não foi só na compra.
O informante declarou que a Petrobras, depois da aquisição de 50% dos direitos de exploração, decidiu então "perfurar três poços (em Angola) com o objetivo de prospecção da capacidade produtiva do bloco recém-adquirido". "Cada um dos poços tem um custo de perfuração de aproximadamente 80 milhões a 120 milhões de dólares", revelou o funcionário.
Segundo o documento, os três poços foram perfurados e "mostraram-se secos". "Confirmando os pareceres técnicos dos geólogos da empresa que analisaram o mapeamento do subsolo do terreno e apontaram tecnicamente que era inviável explorar tais áreas, pois não havia petróleo disponível naquela região."
Os resultados teriam sido usados "nas decisões futuras da empresa em continuar explorando tais áreas, e assim, todo investimento foi descartado". "Desta forma, o prejuízo total deste projeto foi de cerca de 700 milhões de dólares, sendo 500 milhões para adquirir 50% dos direitos e outros 200 milhões em perfuração de poço que já se sabia serem secos", acentua o documento. O informante apontou ainda como responsável pelo negócio o ex-gerente Luis Carlos Moreira da Silva. Segundo ele, Nestor Cerveró criou o cargo de gerente executivo internacional de desenvolvimento de negócios "em tempo recorde". O nome do ex-gerente já foi citado também no caso Pasadena. Em julho, ele foi ouvido sobre o caso na CPI da Petrobras.
"Durante a gestão de Moreira, à frente do cargo criado por Cerveró, alguns negócios teriam sido desenvolvidos contrariando diversos pareceres técnicos." A Petrobras foi procurada para falar sobre o caso, mas ainda não se pronunciou. Luis Carlos Moreira da Silva não foi localizado para comentar o caso. Em julho do ano passado, quando foi ouvido na CPI da Petrobras sobre o caso Pasadena, ele considerou o negócio legal. A defesa de Nestor Cerveró nega o envolvimento dele em qualquer irregularidade.
(Com Estadão Conteúdo)

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