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sábado, 24 de janeiro de 2015

Levy abre o jogo: modelo de crescimento do Brasil mudou

Fórum Econômico Mundial

No painel final do Fórum Econômico Mundial, ministro da Fazenda diz que país deve crescer impulsionado pelo investimento – e não mais pelo consumo

Ana Clara Costa, de Davos
"Nosso crescimento é muito baseado no consumo, mas estamos mudando a demanda em direção aos investimentos", disse Levy
"Nosso crescimento é muito baseado no consumo, mas estamos mudando a demanda em direção aos investimentos", disse Levy (Ana Clara Costa/VEJA.com)
Uma mudança no modelo de crescimento é o que prevê o ministro Joaquim Levy para o Brasil neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. O ministro da Fazenda participou do painel de encerramento do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e afirmou que o país deverá crescer puxado pelos investimentos, e não mais pelo consumo. "Nosso crescimento é muito baseado no consumo, mas estamos mudando a demanda em direção aos investimentos. E, para elevar os investimentos, é preciso confiança e menos incertezas. Então estamos tomando algumas medidas para reforçar a confiança", afirmou. O painel de encerramento também contou com a presença de Larry Fink, presidente do fundo BlackRock, Mark Carney, presidente do Banco Central da Inglaterra, Benoît Coeuré, conselheiro do Banco Central Europeu (BCE), Haruhiko Kuroda, presidente do BC do Japão, e Min Zhu, diretor adjunto do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Levy afirmou que para dar velocidade à retomada dos investimentos, será preciso usar "ferramentas muito tradicionais", como a política fiscal, que prevê o cumprimento da meta de superávit primário, ou seja, a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida pública. "Vamos fazer um superávit de 1,2% do PIB este ano, que é um grande aumento. No próximo ano, será um pouco maior", disse. O ministro falou ainda sobre o realinhamento de preços administrados, como o da energia, e na importância dos reajustes para dar confiança ao investidor. O ministro repetiu a palavra confiança constantemente ao longo de sua fala e disse ainda que, se as medidas forem tomadas rapidamente, a economia responderá rápido também. "O Brasil é uma economia dinâmica. Talvez não tanto como os Estados Unidos, mas ainda assim é muito ágil", disse.

Por ser o último dia do evento, a plateia não estava cheia, mas o discurso do ministro atraiu a atenção de autoridades. Olli Rehn, ex-comissário da Comissão Europeia e atual vice-presidente do Parlamento Europeu afirmou que as palavras de Levy mostraram disposição do Brasil em retomar o caminho da estabilidade. "A economia brasileira enfrentou um período difícil nos últimos anos. O fato de o ministro focar em mudanças e reformas estruturais, além de estimular o investimento, sinaliza disposição que todos os emergentes precisam ter para passar por tempos difíceis", disse o comissário.
O ministro transmitiu a mensagem clara de que os ajustes estão sendo desenhados para agradar ao mercado. Apesar de ter citado, ao final de sua fala, esforços para melhorar a educação, além da criação de emprego como consequência da retomada dos investimentos, Levy deixou claro que o período será de mudanças profundas chanceladas, como ele mesmo afirmou, pela presidente Dilma Rousseff.

O discurso encerra uma cruzada de quatro dias, em que o ministro percorreu todas as salas de encontros bilaterais do Fórum Econômico com apenas um objetivo em mente: fazer o mercado internacional acreditar que o Brasil do protecionismo e do descontrole fiscal não existe mais. A estratégia previu ainda conversas com a imprensa internacional, como o jornal Financial Times, a Bloomberg e a Dow Jones. A eficácia de tal empreitada ainda não pode ser medida com clareza, mas o ministro investiu horas tentando.

A agenda pró-mercado está alinhada com o que os grandes empresários que frequentam o Fórum de Davos pensam. Mas está bem longe do que o PT e a própria presidente  Dilma previam alguns meses atrás, às vésperas das eleições. Afinal, Levy é ministro do mesmo governo que afirmou, em campanha, que um Banco Central independente subiria juros e tiraria comida da mesa dos brasileiros. A agenda dos adversários foi incorporada pelo ministro com propriedade e transmitida ao mundo todo. Para os eleitores, resta o ranço do engano.

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