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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Dirceu faturou R$ 886.500 da Camargo Corrêa por consultoria

Lava Jato

No mesmo período em que contratou o mensaleiro, empreiteira fechou R$ 4,7 bilhões em contratos por serviços na refinaria de Abreu e Lima, da Petrobras

Daniel Haidar, do Rio de Janeiro
Contrato de consultoria assinado entre Dirceu e Camargo Correa
Contrato de consultoria assinado entre Dirceu e Camargo Correa (Reprodução/VEJA)
Uma empresa do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT), condenado no julgamento do mensalão por corrupção, fechou contrato de 900.000 reais com a construtora Camargo Corrêa. Entre maio de 2010 e fevereiro de 2011, o petista recebeu 886.500 reais líquidos da empreiteira, investigada na Operação Lava Jato por suspeita de participar de um cartel dedicado a fraudar licitações da Petrobras e de pagar propina a executivos da estatal e políticos.
Desde a quebra do sigilo fiscal da empreiteira os investigadores sabiam que os pagamentos foram feitos. O contrato foi encontrado por policiais federais na sede da construtora em São Paulo durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão no dia 14 de novembro, data em que foi deflagrada a sétima fase da Lava Jato. De acordo com o documento, Dirceu deveria fazer "análise de aspectos sociológicos e políticos" e "prestar assessoria na integração dos países da América do Sul". Também precisaria "divulgar o nome da contratante na comunidade internacional".
Embora tenha sido assinado no dia 22 de abril de 2010, o contrato estipulava que os serviços começariam a ser prestados em fevereiro de 2010. O primeiro desembolso da construtora para a JD Assessoria e Consultoria, a firma de Dirceu, foi feito no fim de maio de 2010, no valor de 221.625 reais. Cada liberação posterior somou 73.875 reais. Os investigadores têm uma hipótese para o contrato ter alinhavado pagamentos desde fevereiro de 2010. Naquele mês, tiveram início dois contratos de prestação de serviços da Camargo Corrêa para a Petrobras, pelo valor total de 4,7 bilhões de reais. O objetivo era a implantação das unidades de coqueamento retardado da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco.
As obras da Camargo Corrêa em Abreu e Lima foram o primeiro duto de corrupção descoberto na Operação Lava Jato. De acordo com o Ministério Público, os serviços foram superfaturados em 613 milhões de reais e pelo menos 32 milhões de reais destes gastos excessivos foram desviados para uma das empresas de fachada do doleiro Alberto Youssef, a MO consultoria. Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa tiveram a condenação requisitada pelo Ministério Público Federal por operações de lavagem de dinheiro desviado da refinaria.
Além do doleiro, os investigadores constataram que empreiteiras fecharam contratos de consultoria com diferentes operadores para disfarçar o pagamento de propina. O lobista Júlio Camargo, ligado ao grupo Toyo Setal, também assumiu em depoimento que recorria a esse expediente para receber dinheiro de participantes do cartel e repassá-lo a executivos da estatal. O lobista faturou 73 milhões de reais entre 2010 e 2012 só com a Camargo Corrêa e utilizou parte desse dinheiro para pagar suborno, como revelou o site de VEJA.
A polícia ainda investiga outros operadores, mas já considera que Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras e indicado ao cargo por Dirceu, era o principal intermediador do PT no esquema. Ele ficou preso por quase três semanas por suspeita de ter recebido mais de 40 milhões de dólares em propina, de acordo com depoimentos do lobista Júlio Camargo e do empresário Augusto Mendonça Neto, que aderiram à delação premiada e passaram a colaborar com as investigações em troca de punições mais brandas da Justiça.
No período em que o contrato com a Camargo Corrêa foi assinado, Dirceu estava fora do governo, já era réu no processo do mensalão, mas ainda exercia influência na Petrobras. Atualmente cumpre pena de 7 anos e 11 meses de prisão domiciliar em Brasília.

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