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domingo, 9 de novembro de 2014

Eduardo Cunha: sem conversa com o PT. Pior para Dilma

Congresso

Antiga pedra no sapato da presidente, deputado segue firme na briga pela presidência da Câmara. Ao revelar irritação com petistas, prenuncia 'tensão'

Marcela Mattos, de Brasília
Eduardo Cunha: se o PT não quer, não há diálogo
Eduardo Cunha: se o PT não quer, não há diálogo (Lúcio Bernardo Jr/Agência Senado/VEJA)
"Não há um espaço aberto que não haja um petista reivindicando” Eduardo Cunha
Passadas as eleições presidenciais, uma nova disputa já domina os corredores da Câmara dos Deputados: a que definirá o novo presidente da Casa. E a briga aqui não se dá entre governo e oposição, mas entre os maiores partidos da base – PT e PMDB. Pivô da disputa, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é uma antiga pedra no sapato da presidente Dilma Rousseff. A ideia de vê-lo no comando da Câmara provoca arrepios nos petistas, que já lançaram um contra-ataque a sua campanha. E afirmam: “jamais” concordarão com a candidatura de um membro da base que “age como oposição”. Diante da postura do PT, Cunha afirma: “Quando um não quer, dois não conversam. Se eles têm uma postura radical, tudo bem. A democracia inventou uma maneira fácil de resolver isso, que é o voto”. Ao que parece, o propalado “diálogo” da presidente Dilma passará longe da disputa na Câmara – o que deve significar mais dores de cabeça para a petista.
Pouco depois de Cunha anunciar que procuraria o PT para conversar, o líder da sigla na Câmara, deputado Vicentinho (SP) afirmou nesta semana que não há espaço para conversas. E continuou: “Nós jamais vamos concordar com qualquer candidatura que signifique uma postura de oposição. Se é de um partido da base, como age sendo oposição?”, afirmou, pouco depois do PT definir que lançará uma candidatura adversária à do líder do PMDB. A decisão irritou Cunha.
Em conversa com o site de VEJA, Cunha indicou também certa irritação ao ser tratado como “oposição” pelos petistas. “Essa rotulação é equivocada ou, no mínimo, não é de boa fé. Eu não estou postulando uma candidatura como oposição, mas não sou um candidato submisso ao governo. O PT, nas vezes em que ocupou a presidência da Câmara, teve uma atitude muito mais receptiva ao Planalto do que, por exemplo, o Henrique Alves (PMDB-RN), atual presidente. Não quero levar a disputa da presidência da Câmara à continuidade da disputa eleitoral. Mas quero defender a autonomia do Parlamento”, continuou.
Nos bastidores, a campanha petista tenta propagar a tese de que a quebra do acordo firmado com o PMDB em 2007, pelo qual os partidos se revezariam no comando da Câmara, pode levar ao rompimento de outros pactos, como a distribuição das comissões que compõem a Casa, que também se dá em relação ao tamanho das bancadas. E desafia Cunha: “Os açodados comem frio. Com o PT unificado em época de composição ministerial, seria muita incompetência perder a presidência da Câmara”, disse um dos postulantes ao cargo. O PT ainda não definiu quem será o candidato do partido.   
Já Cunha carrega a bandeira de que os deputados não querem apoiar uma dobradinha petista no Palácio do Planalto e na Câmara, que representa a segunda linha sucessória do presidente da República, atrás somente do vice-presidente. “A Casa não quer nenhum processo hegemônico. Não há um espaço aberto que não haja um petista reivindicando”, afirmou. E diz não temer ataques nos moldes feitos durante a corrida para a Presidência da República: “Qualquer maneira que não seja correta na disputa certamente vai acabar produzindo algum tipo de dificuldade de convivência posterior. Então, cada um escolhe um caminho”.
Nesta semana, PT e PMDB lançaram estratégias similares para intensificar a campanha: vão conversar com representantes dos partidos da Câmara em busca de votos. O peemedebista já tem praticamente definido o apoio do chamado “blocão”, composto por PR, PSC, PTB e Solidariedade, além do PMDB, e vai negociar individualmente com as bancadas. No mesmo molde, os petistas criaram uma comissão composta por ex-presidentes e lideranças influentes para dialogar com todos os partidos. 
Turbulência – Cunha começou a pavimentar a candidatura já em fevereiro, quando passou a se reunir semanalmente com lideranças partidárias, consolidando o “blocão”. À época, teve nas mãos quase metade dos deputados da Casa, que agiam em sintonia às suas demandas, como as mudanças em torno do Marco Civil da Internet – aprovado somente depois que o governo concordou em acatá-las. Estudioso das matérias de seu interesse e profundo conhecedor da legislação da Câmara dos Deputados, o parlamentar fluminense consegue brincar com o andamento das sessões recorrendo a estratégias regimentais. Graças a ele, por exemplo, a votação da regulação portuária se arrastou por mais de 30 horas em dois dias e foi alterada às pressas pelo governo para viabilizar a aprovação, antes que perdesse a validade.
Também é de praxe Cunha causar dificuldades ao governo para impor suas vontades. Caso emblemático se deu em 2007: relator da emenda na Comissão de Constituição e Justiça, o deputado somente apresentou parecer pela prorrogação da CPMF – um apelo do então presidente Lula – após ter a presidência de Furnas em suas mãos. Ele indicou o ex-prefeito do Rio Luiz Fernando Conde para o cargo.
Agora, o deputado já antecipa o posicionamento contrário a matérias caras ao governo petista, como a regulação econômica dos meios de comunicação e o plebiscito para a reforma política. Os dois temas compõem resolução divulgada nesta semana pela cúpula do partido. “O PMDB é absolutamente contrário à regulação da mídia e ao plebiscito, como foi contrário aos conselhos populares. Então nós temos pelo menos três divergências claras, três contrastes fortes com o PT, o que talvez provoque tensão no debate”, diz.

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