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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mulheres exibem na pele os relatos da violência sofrida na hora do parto em hospitais brasileiros

Isto Aconteceu comigo. Hoje, depois de 19 anos, ainda lembro da enfermeira dizer: levanta daí, " não se faça de coitadinha". Ao sair da cama onde fui colocada logo após o parto, caiu no chão uma bolha de sangue que dava para encher duas mãos. Ela me faz agachar e limpar/ pegar o bolha no chão, mesmo eu estando totalmente debilitada!! Foram muitos outros acontecidos que me custa muita dor ao lembrar. Ainda me faz chorar!!

O assunto é sério, o projeto é impactante e as imagens são sensíveis, tocantes e profundas. Um momento que deveria ser repleto de felicidade, plenitude, respeito e renascimento junto ao filho, é permeado por marcas, não só no corpo, mas com feridas desrespeitosas que traumatizam mulheres pela vida toda.
Pode não ter acontecido com você nem com alguém próximo, mas a triste realidade é que a violência obstétrica é um fato no Brasil. Uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo mostra que 1 em cada 4 mulheres brasileiras sofre algum tipo de violência no atendimento ao parto.
Falta respeito desde o início, quando nem um direito garantido em lei, como a presença de um acompanhante, é respeitado. Falta liberdade para escolher onde e como dar à luz, na privação de água e alimentação, na falta de um carinho no momento de dor.
Muitas mulheres sofrem caladas essas e outras violências e, com o objetivo de materializar a violência obstétrica e provocar a reflexão sobre a condição de nascimento no país, a fotógrafa Carla Raiter, junto com a produtora cultural Caroline Ferreira, criou o projeto 1:4: Retratos da Violência Obstétrica.
O projeto fotográfico rompe o silêncio das mulheres que têm suas histórias retratadas em partes de seus corpos – através de uma tatuagem temporária -, em uma linguagem que as trata de forma serializada, anônima e sem considerar a individualidade, assim como fazem os protocolos médicos nas maternidades públicas e privadas brasileiras”.
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Carla Raiter diz que o projeto surgiu de forma despretensiosa: “Eu já trabalhava com fotografia de partos humanizados, já levantava a bandeira da humanização. Um dia, a Caroline me mandou um e-mail – que por pouco não se perdeu e nunca foi lido – me perguntando se eu nunca tinha pensado em fazer algum trabalho sobre violência obstétrica. Realmente caiu minha ficha de olhar para o outro lado, justamente para o oposto: essas histórias horríveis de partos traumáticos, de abuso, de violência verbal e física, de procedimentos desnecessários que tiram a autonomia da mulher no momento que deveria ser o mais empoderador de sua maternidade. Quando li o e-mail, foi uma epifania, passou um filme na minha cabeça com as imagens que eu queria fazer e que hoje produzimos”, lembra a fotógrafa.
Depois de lançado o projeto, Carla e Caroline contam que não estavam preparadas para a avalanche de e-mails com relatos de mulheres que queriam ser ouvidas, fotografadas, ou, simplesmente, superar o que aconteceu em seus partos. “Muitas histórias tristes, de dar nó na garganta, mesmo, de nos fazerem chorar ao ler. E então a gente entendeu que aquilo era um caminho sem volta, e que o projeto tinha um tamanho muito maior do que podíamos ter imaginado”, afirma Carla.
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Sobre o futuro do projeto, Carla diz não elas não têm verba nenhuma. Pelo contrário, arcam com vários gastos, como por exemplo o alto custo do papel importado para fazer as tatuagens temporárias. “Nossa intenção é expandir o ‘Projeto 1:4’, fotografar no Brasil todo, fazer uma exposição, talvez transformá-lo em livro porque a verdade é que temos muito mais que as fotos para mostrar”, planeja a fotógrafa.
Todas as fotos © Carla Raiter

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