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sábado, 25 de outubro de 2014

A arrancada de Aécio

Eleições 2014

Depois de passar boa parte da campanha na terceira colocação, candidato tucano chega à eleição com boas chances de passar para o segundo turno

Laryssa Borges, de Belo Horizonte
O candidato a presidente Aécio Neves (PSDB), durante o último debate do segundo turno promovido pela Rede Globo no Projac, no Rio de Janeiro
Às 12h30 do dia 13 de agosto, o senador Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, pousou em Natal (RN) para uma rodada de viagens pelo Nordeste, na época considerado o plano de voo ideal para subir nas pesquisas. Informações desencontradas sobre o paradeiro do adversário Eduardo Campos chegavam à cúpula da campanha do PSDB. Minutos depois, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, confirmou a notícia: Campos havia morrido em um acidente aéreo na cidade de Santos (SP). Aéco trancou-se em um quarto. “Podia ter sido eu”, disse o tucano aos assessores mais próximos. Afirmou que não tinha preparado a própria família para tragédias como a que abateu o ex-governador de Pernambuco. E telefonou para a filha Gabriela e para a mulher, Letícia. O filho Bernardo, prematuro, havia recebido alta na mesma semana e provocado uma rápida interrupção na maratona de viagens do tucano. A morte de Eduardo Campos mudaria completamente a campanha presidencial.
Nas últimas semanas de campanha, Aécio voltou a recorrer ao Nordeste. Entre uma cidade e outra da região metropolitana de Belo Horizonte, telefonou para correligionários e pediu que espalhassem em estados nordestinos que ele havia pedido novamente a bênção de Padre Cícero para vencer as eleições. Em seguida, já municiado com as recentes pesquisas que apontavam seu crescimento, disse ao site de VEJA que o curso daquela campanha presidencial tinha saído do controle pelo “imponderável” e que ele não havia errado em sua estratégia eleitoral. Comemorou o crescimento em colégios eleitorais estratégicos, como Minas Gerais e São Paulo e confidenciou: as pesquisas internas do PSDB apontavam empate técnico na véspera do primeiro turno. O ânimo dos primeiros dias de campanha havia voltado.
Políticos que acompanharam de perto a construção da candidatura do senador Aécio Neves à Presidência da República contam que o mineiro havia feito os primeiros gestos concretos em fevereiro do ano passado: afagou o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira com a liderança do PSDB na Casa, e assegurou uma das vice-presidências do partido para o ex-governador Alberto Goldman. Às vésperas de ser confirmado como presidente nacional do PSDB, em maio do ano passado, terminava de construir as principais pontes com o grupo ligado ao ex-governador José Serra. Nas últimas duas eleições presidenciais, os próprios tucanos reconheceram que disputas internas desmobilizaram a sigla e ajudaram a minar as chances de derrotar o PT.
Bem avaliado como governador de Minas Gerais por dois mandatos e com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Aécio ganhou o aval do partido para ser o nome tucano a concorrer ao cargo mais alto da República. Mas, se a candidatura de Aécio foi costurada livre das recorrentes disputas internas em eleições passadas, um conjunto de fatores externos colocou em risco a passagem do PSDB para o segundo turno: a trágica morte de Eduardo Campos (PSB) em agosto levou a ex-senadora Marina Silva (PSB) ao páreo em um momento de forte comoção no país. Mais: o candidato tucano ao governo de Minas Gerais, Pimenta da Veiga, enfrenta uma campanha complicadíssima no segundo maior colégio eleitoral brasileiro, terra natal de Aécio.
No início do ano, quando ainda arrematava as linhas finais que utilizaria na campanha presidencial, Aécio tinha metas claras para abrir vantagem de pelo menos 3 milhões de votos em Minas Gerais, seu reduto político, e ser o protagonista da oposição ao PT. As intenções de votos em solo mineiro, entretanto, demoraram a aparecer. Depois de uma infrutífera imersão ao Nordeste, onde não era – e continua não sendo – conhecido pelo eleitorado, Aécio decidiu apostar as fichas no seu estado. A cada pesquisa em setembro, o tucano encampava uma subida lenta, porém contínua. Com isso, chegou a 26% na véspera da eleição, ultrapassando Marina pela primeira vez. E os votos de Minas Gerais devem levá-lo ao segundo turno.
Aos primeiros indícios de que havia voltado a ser competitivo, com chances de ultrapassar Marina Silva e disputar o segundo turno com a petista Dilma Rousseff, Aécio se dedicou a uma espécie de imersão mineira. Visitou as principais cidades do estado e lugares onde tradicionalmente não costuma ir, como a favela Pedreira Prado Lopes, em Belo Horizonte. Enquanto caminhava de favela em favela a dois dias das eleições, recebeu o novo tracking (pesquisas internas): havia ultrapassado Marina Silva e estava na segunda colocação, embora ainda na margem de erro. No último dia de campanha, tentou os últimos votos novamente em comunidades mais carentes e, ao avistar simpatizantes petistas durante o trajeto de uma de suas carreatas, se recusou a mudar de rota. Seguiu adiante.
Ainda que nos últimos dias o clima na campanha do tucano tenha sido de euforia com a possibilidade concreta de chegar ao segundo turno – se o quadro não fosse revertido, ele seria o primeiro tucano a não disputar o turno em 20 anos –, os quatro meses de disputa eleitoral foram de altos e baixos, conforme descrição dos próprios correligionários. Publicamente, Aécio sempre disse que chegaria ao segundo turno, mas teve de administrar contratempos como o desânimo de aliados – alguns evitaram aparecer ao lado do candidato para não comprometer suas candidaturas nos estados –, queda na arrecadação de recursos após cair para a terceira colocação e a notícia de que construiu um aeroporto, quando era governador, na terras de familiares – ele afirma que a área é pública.
Nos últimos dias de campanha, já com indicações de levantamentos internos de que chegaria empatado com Marina Silva às vésperas das urnas, retirou o peso das críticas a Marina Silva. A estratégia, apoiada por caciques como Fernando Henrique Cardoso, é interpretada como um sinal claro de abertura de uma possível aliança no segundo turno.

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