quarta-feira 12 2014

Einstein, Freud, a guerra, a culpa e o terapeuta

Einstein com Cord Meyer, Jr., presidente da United World Federalists
Einstein com Cord Meyer, Jr., presidente da United World Federalists
Esta foto toca-me realmente: Einstein e o seu terapeuta. Tem qualquer coisa a ver com a tristeza nos seus olhos.
Um utilizador do sítio Imgur
A foto foi tirada por Alfred Eisenstaedt para a Life Magazine em 1948, na própria casa de Albert Einstein em Princeton. O convidado do físico é o ex-agente da CIA Cord Meyer Jr., um homem a quem a Segunda Guerra Mundial tornara um acérrimo defensor de um governo mundial para preservar a paz.
E aqui está o falso terapeuta em conversa com o grande físico, na qualidade de presidente da organização que ajudara a financiar, a United World Federalists.
Chegou a altura de contar a história toda como deve ser, não é?


Federalistas, unidos, jamais serão vencidos?
United World Federalists surgiu, em parte, como resposta ao estrondoso fracasso da Liga das Nações, fundada entre os escombros da Primeira Guerra Mundial pelas potências vencedoras e incapaz de fazer cumprir o principal objetivo a que se propunha através do Tratado de Versalhes: preservar a paz.
Esta era uma das faces do tratado. A outra humilhou a Alemanha.
O Tratado de Versalhes foi também o documento que responsabilizou os alemães pela guerra, forçando-os a aceitar a perda de partes do território para França, Dinamarca e Polónia, entre outras nações, a independência da Áustria e o pagamento de enorme indemnizações pelos prejuízos causados durante a guerra.
E foram estas duras condições impostas pelos países vencedores que sufocaram economicamente uma nação já derrotada, revoltando o povo, abrindo caminho à ascensão de um justiceiro como Hitler, ao poder nazi e a uma nova guerra à escala planetária.
A rendição francesa
A rendição francesa
A 21 de junho de 1940, senhores de Polónia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica e França, os nazis apresentaram aos franceses os termos do armistício na mesma carruagem onde os alemães tinham assinado a sua rendição no final da Primeira Guerra.
Adolfo Hitler, com tanto de louco como de prima-dona operática, entrou na carruagem sem dizer palavra, supervisionando as negociações com rigidez de granito, descendo depois da carruagem quando o representante francês se rendeu em definitivo, para ser filmado pela propaganda nazi com um pé nos degraus e outro na eternidade, o peito cheio de oxigénio divino.
60 milhões de mortos depois, Hitler suicidara-se com um tiro na corneta, os nazis tinham sido derrotados, a Alemanha dividida em duas, duas grandes potências vencedoras erguidas sobre a Europa, a Europa entalada entre Estados Unidos e União Soviética, os novos senhores de um mundo que voltava a pensar como haveria de preservar a paz.
A Liga das Nações dissolveu-se a 20 de abril de 1946, passando a responsabilidade à recém-formada Organização das Nações Unidas, com sede em Nova Iorque. A Europa, envelhecida, mantinha-se o campo de batalha de um novo tipo de guerra – a guerra não declarada.
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A guerra podia ser ilegal, Professor Einstein
A organização de Cord Meyer Jr., que era filho de um diplomata, tinha propósitos bem definidos: a paz seria alcançada através do desarmamento universal imposto por lei; todos os recursos usados no fabrico de armas seriam usados em benefício das necessidades de todos os seres humanos; a organização comprometia-se a apoiar e promover a causa da liberdade e todas as instituições que a defendessem; por fim, garantia o direito de todos os povos se desenvolverem segundo os seus próprios costumes e tradições.
E era o presidente desta ambiciosa, efémera e quimérica organização que se sentava junto do grande físico, enquanto Eisenstaedt, um ícone do fotojornalismo, clicava no botão do obturador.
Segundo a Life, Einstein e Cord Meyer Jr. especulavam sobre qual seria a atitude da União Soviética perante esta ideia de um governo mundial.
É possível que os russos não apreciassem muito a iniciativa, sobretudo porque dois requisitos fundamentais para um cidadão americano se tornar membro da United World Federalists era não ter orientações comunistas ou fascistas. Bastava que uma hipotética congénere soviética impusesse as mesmas restrições ideológicas a capitalistas para que 99,9 por cento do mundo ficasse de fora do acordo mundial de paz.
Eisenstaedt parece ter captado tristeza nos olhos de Einstein, é verdade. Talvez fosse resignação ou cansaço do grande físico, por ter concluído que os pressupostos da organização de Cord Meyer fomentavam a divisão, colocando ela própria um obstáculo intransponível no caminho de paz que pretendia trilhar.
Se é mesmo tristeza, não é provocada pelos problemas pessoais que levam as pessoas ao gabinete dos psicólogos, mas por sentir sobre os ombros o peso de um mundo carcomido pela guerra. Talvez do próprio mundo.
Franklin Roosevelt
Franklin Roosevelt
Uma carta, duas bombas, milhares de mortos
2 de Agosto de 1939. O presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, recebe uma carta de Albert Einstein. Grande parte da missiva foi escrita pelo físico húngaro Leo Szilard, mas era ele quem dava a cara pelo que lá estava escrito.
Roosevelt não teria considerado prioritário ler uma carta enviada por um físico politicamente anónimo como Szilard, mas Einstein, judeu, alemão, cuja foto aparecera numa revista nazi como parte de uma lista de inimigos «por enforcar», estava refugiado nos Estados Unidos desde 1933, tornara-se cidadão americano dois anos depois e era recebido em todo o lado como se fosse uma celebridade de Hollywood.
E o que Einstein tem a dizer, percebe Roosevelt, é demasiado importante: os alemães podem estar prestes a construir uma nova bomba, temível e arrasadora.
Alguns trabalhos recentes de E. Fermi e L. Szilard (…) levaram-me a crer que o elemento urânio pode ser transformado numa nova e importante fonte de energia num futuro próximo. Certos aspetos da situação que se criou exigem atenção e, se necessário, rápida ação por parte da Administração. Creio, por isso, ser meu dever trazer à sua atenção para os seguintes factos e recomendações:
No decorrer dos últimos quatro meses, foi provado – através do trabalho de Joliot na França, bem como de Fermi e Szilard na América – ser possível a criação de uma reação nuclear em cadeia numa grande massa de urânio, através da qual vastas quantidades de energia e grandes quantidades de novos elementos semelhantes ao rádio são gerados. (…)
Esse novo fenómeno poderá levar também à construção de bombas, sendo concebível que bombas extremamente poderosas de um novo tipo possam ser construídas. Uma única bomba deste tipo, carregada por um barco e explodida num porto, pode muito bem destruir todo o porto, juntamente com parte do território circundante. Contudo, tal bomba pode muito bem revelar-se demasiado pesada para o transporte por via aérea.
(…) Perante a situação, é desejável ter mais contacto permanente entre a Administração e o grupo de físicos que trabalha em reações em cadeia nos Estados Unidos. Uma forma possível de alcançar este objetivo poderia ser a de o senhor confiar tal tarefa a alguém de sua confiança que poderia, talvez, atuar numa condição extra-oficial. Esta tarefa pode compreender:
a) manter os Departamentos Governamentais informados sobre o desenvolvimento e apresentar recomendações para a ação do Governo, dando especial atenção ao problema de garantir fornecimento de minério de urânio para os Estados Unidos;
b) acelerar o trabalho experimental, feito atualmente dentro dos limites dos orçamentos dos laboratórios das universidades, fornecendo fundos, caso sejam necessários, através do contacto com pessoas privadas dispostas a contribuir para esta causa, procurando mesmo a cooperação de laboratórios industriais que possuem o equipamento necessário.
Entendo que a Alemanha cessou a venda de urânio das minas da Checoslováquia. Talvez se compreenda por que razão o fez, se tiver em conta que o filho do sub-Secretário de Estado Alemão, von Weizsäcker, está ligado ao Instituto Kaiser-Wilhelm, em Berlim, onde alguns dos trabalhos americanos sobre o urânio estão agora a ser repetidos.
Durante toda a vida Einstein carregou o peso desta culpa: o fabrico da bomba atómica e os milhares de mortos que originou em duas cidades japonesas. Mas a culpa de Einstein, por comparação com a do físico Otto Hahn, era tão leve como a carta que enviara.
Quando o homem que efetivamente descobriu o processo de cisão que esteve na base do fabrico da bomba soube que tinham morrido cem mil pessoas em Hiroxima, sentiu-se tão desesperado que teve de ser vigiado pelos colegas, receosos de que tentasse o suicídio. Na verdade, de uma forma ou de outra, muitos dos físicos envolvidos no Projeto Manhattan acabariam por experimentar – e expiar – essa sensação de culpa. Sobre este assunto – a bomba atómica e a culpa dos cientistas – podem ler um excelente artigo do físico Carlos Fiolhais no blogue De Rerum Natura.
Ainda assim, ciente da importância que o seu nome tivera para convencer Roosevelt, Einstein nunca se poupou: «Fui eu que carreguei no botão», chegou a dizer.
Soak, 2004, do japonês Hideaki Kawashima para a exposição «Little Boy»
Soak, 2004, do japonês Hideaki Kawashima para a exposição «Little Boy»
O terapeuta na vida de Einstein
Apesar dos óbvios falhanços da Liga das Nações em impedir que nações se tentassem aniquilar umas às outras, algumas iniciativas interessantes foram organizadas – e uma delas haveria de ligar, para a posteridade, as vidas de dois gigantes: o médico neurologista Sigmund Freud, pai da psicanálise, e o próprio Einstein.
Em 1931, dois anos antes de os nazis chegarem ao poder, Einstein recebeu em Berlim um convite para participar numa iniciativa do Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, em nome do Comité Permanente para a Literatura e as Artes da Liga das Nações: trocas de correspondência entre intelectuais de renome sobre assuntos que pudessem servir os interesses comuns das nações.
Einstein sugeriu o nome de Freud e o médico, contactado pelo Instituto, concordou.
Em setembro de 1932, Einstein escreveu uma carta em que formulou a Freud o seguinte problema: «Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?»
A carta de Einstein chegou no início de agosto desse ano e Freud demorou um mês a responder. A correspondência acabaria por ser publicada em Paris em 1933, mas a sua circulação foi proibida na Alemanha pelos nazis recém-chegados ao poder. Por esta altura, já Einstein fugira do país e se refugiara nos Estados Unidos.
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Para Freud, a discussão com Einstein foi enfadonha e estéril.
Freud já conhecia Einstein – encontraram-se em princípios de 1927, em Berlim, na casa do filho mais novo do médico – e o teórico da psicanálise comentou o encontro nos seguintes termos:
Ele entende tanto de psicologia como eu de física, de modo que tivemos uma conversa muito agradável.
Em 1936, voltaram a corresponder-se e as mensagens foram muito mais simpáticas. Einstein louvou-o por ter verificado que a teoria da repressão de Freud era a única interpretação para «certas coisas que tinha ouvido» e mostrou-se satisfeito por «uma grande e bela conceção ter provado estar em harmonia com as coisas da realidade».
Freud respondeu-lhe em frases cheias de sorrisos, mostrando-se «muito satisfeito pela alteração – ou início da alteração, pelo menos – do seu julgamento sobre as minhas doutrinas».
Quatro anos antes desta troca de salamaleques, na carta em que Einstein pergunta a Freud como pode a Humanidade livrar-se da guerra, o físico diagnosticou tão bem as raízes do problema que retirou ao psicólogo qualquer hipótese de dizer muito mais. Como o próprio afirmou, na sua resposta,
você disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora se tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir o seu rasto e contentar-me-ei em confirmar tudo o que já disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjeturas.
Mas Freud insistiu na ideia de uma autoridade central – tal como Einstein, de resto – e na clara perceção das falhas da Liga das Nações, conclusões que o presidente da United World Federalists já devia conhecer quando se reuniu para conversar com o físico para a reportagem da Life:
Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos à mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto.
As guerras apenas serão evitadas se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses.
Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem a outra seria inútil.
A Liga das Nações está destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspetivas nesse sentido.
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Freud, contudo, sugeriu algumas pistas preciosas:
De nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens.
Segundo se conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em tranquilidade, povos que não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e agradar-me-ia saber mais a respeito de coisas tão afortunadas.
Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspetos, entre todos os membros da comunidade.
Isto, na minha opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo o caso, como observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra.
A nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros.
Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos.
Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem razões para se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado.
O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana baseia-se nelas, em grande escala.
A guerra já não é mais uma oportunidade de atingir os velhos ideais de heroísmo, e a de que, devido ao aperfeiçoamento dos instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos.
Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o facto de a guerra ainda não ter sido unanimemente repudiada.
É a carta de Einstein – e a longa resposta de Freud – que vos deixo para imprimir e ler nos tempos livres, se o desejarem. Vale a pena. Mais de 80 anos depois, o diagnóstico de Einstein e as questões levantadas por Freud permanecem atuais. É um problema para centenas, milhares de anos, a resolver por longínquos descendentes que nunca poderão ser como nós.

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