sexta-feira 13 2012

Com empurrão do governo, Delta Construção faturou uma Marfrig em dez anos

Licitações

Empresa de Fernando Cavendish arrecadou nada menos que 4 bilhões de reais em uma década apenas em contratos com o Planalto. Governos estaduais também são grandes clientes

Ana Clara Costa e Cecília Ritto
O empresário Fernando Cavendish Fernando Cavendish: o empresário virou o 'príncipe do PAC' (Julio Bittencourt/Folhapress)
Fernando Cavendish, presidente do conselho de administração da Delta Construção, é amigo do rei. Formado em engenharia civil pelas Faculdades Integradas Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro, o empresário conseguiu um feito raro: em dez anos, fez o faturamento de sua empresa saltar de 67 milhões de reais para 3 bilhões de reais. Conforme levantamento da ONG Contas Abertas, apenas em obras contratadas pelo governo federal, a Delta arrecadou nesse período nada menos que 4 bilhões de reais. A cifra é equivalente ao atual valor de mercado da Marfrig, uma das maiores produtoras de carne do país.
Na segunda metade da década, o empresário – que já exibia a peculiar habilidade de manter bons relacionamentos com gestores públicos, sobretudo no Rio – transformou-se no “príncipe do PAC” ao arrebatar a grande maioria dos contratos de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento lançado pelo governo em 2007. Ao final de 2011, a Delta era a principal fornecedora do programa, com contratos avaliados em mais de 2 bilhões de reais.
O Rio de Janeiro, apesar de não ser o estado onde Cavendish nasceu, rendeu-lhe boa parte de sua riqueza e sucesso empresarial. Segundo levantamento da ONG Contas Abertas, o governo fluminense repassou 450 milhões de reais à Delta entre 2002 e 2011 – de longe a construtora que mais ganhou licitações no estado no período. Houve também outros tantos contratos sem licitação, da ordem de 53 milhões de reais.
Aditivos – Os ganhos da empresa no Rio foram inflados por aditivos aos contratos. Do início do primeiro mandato de Sérgio Cabral (PMDB/RJ) até 2010, quase 100 milhões de reais entraram nos cofres da Delta por meio dessas alterações contratuais. Entre os empreendimentos que levam a assinatura da construtora estão o Estádio Olímpico João Havelange, o Parque Aquático Maria Lenk, e a reforma, em curso, do emblemático Estádio do Maracanã. A Delta também foi responsável pela construção da nova pista do Aeroporto Internacional de Cabo Frio, em 2006, e por obras de reurbanização no Complexo do Alemão, em 2008.
Foto aérea do Maracanã: obras serão abertas à visitação
Foto aérea do Maracanã: reforma é principal obra da Delta no Rio
Grandes amigos – A estreita ligação entre a Delta e o Palácio Guanabara – mais especificamente, entre o empresário Fernando Cavendish e o governador Sérgio Cabral – foi escancarada em 2011, quando um acidente de helicóptero no Sul da Bahia matou sete pessoas, entre elas a mulher de Cavendish, seu enteado de 3 anos de idade e a namorada do filho de Cabral. Na mesma viagem, porém não no mesmo helicóptero, estavam o governador e seu filho Marco Antônio. Em outra ocasião, meses antes, as famílias Cavendish e Cabral haviam passado uma semana em um navio na costa de Nassau, nas Bahamas. A cortesia do transporte em jato executivo para as duas famílias foi de outro amigo: Eike Batista.
Parte desse sucesso de Cavendish na alta cúpula da política fluminense e em Brasília deve-se ao estreito relacionamento com o lobista número um do Planalto, o ex-ministro da Casa Civil e chefe da quadrilha, José Dirceu. Segundo reportagem de VEJA publicada em maio de 2011, a JD Assessoria e Consultoria, de Dirceu, prestou serviços de "relacionamento" aos principais executivos da empresa, apresentando-os a figuras proeminentes da República. Ao contratar o consultor, Cavendish tinha a intenção de ganhar mercado no Mercosul. Por incompetência do político ou falta de interesse dos hermanos, o plano não avançou. No final, o erro transformou-se em acerto. Graças ao empurrão de Dirceu, o empreiteiro expandiu seus domínios para além da Guanabara e chegou ao Planalto Central. Dali, a Delta não saiu mais.
Pasta dos Transportes – Na seara do PAC, o principal cliente da Delta é o Ministério dos Transportes. Em 2011, dos 884,5 milhões de reais recebidos pela construtora, 796,8 milhões de reais foram pagos pela pasta. No exercício anterior, a relação não foi diferente. Do total de 769,1 milhões de reais embolsados, cerca de 674,4 milhões de reais vieram dos Transportes. O Ministério foi dilacerado em 2011 depois que VEJA mostrou o esquema de corrupção que se alastrava pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), justamente o órgão que mais se relacionava com a Delta.
Obras de infraestrutura em transporte, aliás, estão no DNA da companhia. Fundada em 1961 pelo pai de Cavendish, Inaldo Soares, a Delta construiu, ao longo de três décadas, estradas e rodovias para órgãos públicos, sobretudo no Nordeste, de onde a família é originária – mais precisamente de Pernambuco. Só quando Cavendish assumiu o lugar do patriarca, em meados de 1990, a empresa passou a flertar com outras áreas – ainda que timidamente. Soares faleceu no final de 2003.
Reinado no DF – Outro terreno onde a Delta prosperou é o Distrito Federal. Além de prestar serviços milionários de limpeza pública em Brasília, a construtora também teria negociado facilidades em contratos diretamente com a cúpula do governo distrital em troca de favores em campanhas eleitorais. Em conversas gravadas pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, aliados do contraventor Carlinhos Cachoeira – acusado de comandar uma rede de jogos ilegais no país – afirmaram que a diretoria da Delta fazia doações milionárias ao PT e ao PMDB. Posteriormente, cobrava favores em troca, como a nomeação de amigos em cargos específicos para garantir que a empresa se mantivesse favorecida nos contratos locais.
Segundo a ONG Contas Abertas, as doações eleitorais alcançam o valor de 2,3 milhões de reais à direção nacional do PT e PMDB, referentes às últimas eleições de 2010. Os repasses foram de 1,15 milhão de reais a cada partido.
Cavendish, o sobrinho – Recentemente, Cavendish criou uma holding, a DTP Participações e Investimentos, com valor de mais de 300 milhões de reais, segundo a Junta Comercial do Rio de Janeiro, com objetivo de consolidar ali a gestão de todas as suas empresas (Delta Construção, Delta Energia, Delta Incorporação e Delta Montagem Industrial).
Segundo o contrato social da companhia, disponível na Junta, a DTP detém 99% do capital da Delta Construção, a maior empresa do grupo. Consta no documento que a diretora e principal representante da holding que congrega toda a fortuna do empresário é Ligia Maria Soares Silva. Curiosamente, a “executiva” é tia de Cavendish, irmã de seu pai, professora de ensino médio em uma escola na cidade de Salgueiro, no sertão de Pernambuco.
http://veja.abril.com.br/noticia/economia/com-empurrao-do-governo-delta-faturou-uma-marfrig-em-dez-anos 

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