quinta-feira 17 2012

Humanos são naturalmente pacíficos, afirma Frans de Waal

Comportamento

Primatologista defende que primatas nunca precisaram recorrer à razão para manter a violência sob controle. "O passado violento é apenas uma suposição"

Marco Túlio Pires
O comportamento pacífico pode ser observado em primatas humanos e não humanos como motor das relações sociais, afirma o primatólogo holandês Frans de Waals O comportamento pacífico pode ser observado em primatas humanos e não humanos como motor das relações sociais, afirma o primatólogo holandês Frans de Waals (Fuse/Thinkstock)
A guerra não está no feitio natural do ser humano, como defendia o filósofo inglês Thomas Hobbes no século XVII, um dos pais da política moderna e, mais recentemente, o psicólogo canadense Steven Pinker. O normal da nossa espécie é justamente o contrário: nós seríamos naturalmente pacíficos.
"Se realmente houvesse uma base genética para nossa participação em combates mortais, deveríamos praticá-los de bom grado", escreve Frans de Waal, holandês especialista em comportamento animal, psicologia e primatologia, em um artigo que será publicado nesta sexta-feira na revista Science.

Waal ataca uma das suposições de Pinker no livro The Better Angels of Our Nature – Why Violence Has Declined (Editora Viking, 802 páginas, sem edição brasileira). Para o canadense, os antepassados viviam em guerra e a violência foi diminuindo lentamente com o amadurecimento do conhecimento humano, principalmente após o século XVI, com a 'Era da Razão'.
Waal contesta essa visão.  "A ideia de que vivemos um passado violento é apenas uma suposição", disse em entrevista a VEJA. O comportamento pacífico sempre esteve presente como motor das relações sociais de antigamente em primatas humanos e não humanos. "Os primatas nunca recorreram ao iluminismo para manter a violência sob controle."

Biblioteca

The Better Angels of Our Nature - Why Violence Has Declined
Pinker demonstra com estatísticas que a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico. Nessa visão, o terrorismo islâmico, os massacres em escolas e locais públicos e a criminalidade urbana empalidecem diante da brutalidade sem limites das eras anteriores. Pinker diz que o anjo civilizatório, enfim, aprisionou a maldade inata do homem.

Autor: PINKER, STEVEN
Editora: VIKING
O primatólogo apresenta sua defesa com base em dois argumentos. O primeiro diz respeito à falta de provas científicas para afirmar que os antepassados do homem viviam em um estado de guerra, além de diversos estudos que defendem justamente o contrário.
"Os caçadores-coletores comercializavam, realizavam casamentos com grupos distintos e permitiam a passagem de estranhos em seus territórios", escreve Waal. "Eram frequentemente pacíficos e algumas vezes violentos". Embora existam evidências de que assassinatos isolados ocorriam há centenas de milhares de anos, não há sinais de guerra antes da Revolução Agrícola, há 12.000 anos.

Arqueólogos nunca encontraram, por exemplo, cemitérios com um grande número de armas atravessando esqueletos antes da Revolução Agrícola. "Isso não quer dizer que a guerra não existia nessa época, mas significa que a suposição costumeira de que nossos ancestrais travaram longas guerras e passavam por períodos breves de paz carece de respaldo arqueológico", escreve de Waal.

Empatia — O segundo argumento de Waal diz respeito à comparação que frequentemente se faz entre o comportamento de chimpanzés e bonobos para justificar a naturalidade da violência humana. O primatólogo defende que, embora os chimpanzés tenham comportamento por vezes agressivo, os bonobos são marcados por uma convivência relativamente pacífica e altamente empática.
"Agressão fatal entre bonobos nunca foi observada e algumas vezes grupos diferentes se misturam em atividades sexuais ou lúdicas", argumenta. "Esses primatas podem ser os mais próximos do ancestral comum entre chimpanzés e humanos do que qualquer chimpanzé vivo."
Avanços científicos nos últimos 10 anos começaram a questionar a visão de que a vida animal, e consequentemente a natureza humana, é baseada na competição desenfreada que leva ao estado de guerra. Depois da descoberta de que chimpanzés se beijam e abraçam frequentemente depois de uma briga dentro do grupo, inúmeros estudos documentaram a "reconciliação" em primatas não humanos e outros animais.
"A reconciliação é um mecanismo social comum que seria supérfluo se a vida social fosse regida inteiramente pela dominação e competição", diz o pesquisador.
A paz também traz benefícios para o indivíduo. "Pessoas relatam uma sensação de recompensa após fazerem algo bom e mostram ativação de regiões relacionadas à recompensa no cérebro quando isso acontece", escreve o especialista. "Não sabemos se isso ocorre com outros primatas e é importante que seja investigado".
Waal finaliza a análise dizendo que o estudo da empatia pode ser a única saída para lidar com a guerra. "Sabemos que ela pode ser ativada por seres de outras espécies", referindo-se, por exemplo, a quando humanos salvam uma baleia encalhada. Não fosse a empatia por todas as formas de vida, soldados não pensariam duas vezes antes de matar nem voltariam do campo de batalha com problemas psicológicos. "Trata-se de um grande desafio para um mundo que deseja integrar uma multitude de grupos étnicos e nações."


Frans de Waal
 

"Os seres humanos possuem mecanismos naturais de manutenção da paz"

Frans de Waal
especialista em comportamento animal, psicologia e primatologia, e diretor do Centro de Pesquisa Primata da Emory University, de Atl

O senhor concorda com Steven Pinker sobre o passado violento dos nossos antepassados? É difícil julgar o livro do Pinker, mas certamente a ideia de que vivemos em um passado violento é apenas uma suposição, como discuto no meu artigo da Science. Não existem evidências concretas para apoiar tal argumentação. A ideia de que sempre fomos violentos é especulação. Pode ser verdade, mas não há provas.

O conhecimento não teria ajudado a nos tornarmos um povo mais pacífico, como sugere Pinker? Entendo que os seres humanos, assim como outras espécies, possuem mecanismos naturais de manutenção da paz. Os bonobos, por exemplo, nunca precisaram do iluminismo para manter a violência sob controle.

Os bonobos são mais pacíficos e os chimpanzés mais agressivos. Ambas são características observadas nos seres humanos. Por que favorecer os bonobos e dizer que os humanos são mais parecidos com eles? Os bonobos e os chimpanzés são os parentes mais próximos do homem. Nosso último ancestral comum viveu cerca de seis milhões de anos atrás e existem estudos que indicam sua proximidade com os bonobos. A violência na nossa linhagem pode ter começado durante a Revolução Agrícola. Isso explica por que não somos muito bons com a violência e desenvolvemos transtorno do stress pós traumático em situações de guerra.

Até agora, não se observou bonobos em comportamento de guerra. Contudo, há muitos registros de agressão letal entre seres humanos e entre chimpanzés. Essa não seria uma indicação de que, pelo menos no comportamento agressivo, humanos e chimpanzés são parecidos? Sim, é uma análise válida. Contudo os chimpanzés podem ser uma variação violenta. Com isso quero dizer que nosso ancestral comum e os bonobos podem representar o “tipo original” e os chimpanzés desenvolveram a violência depois de terem se separado dos bonobos cerca de dois milhões de anos atrás. Além disso, os humanos desenvolveram a violência, ou pelo menos a guerra, só depois da Revolução Agrícola. Não sabemos, mas se isso for verdade, a comparação não é válida.
http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/humanos-sao-naturalmente-pacificos-afirma-frans-de-waal

Desafinado - Gal Costa

terça-feira 15 2012

Roberto Carlos - Cavalgada Especial 2005

"JBS precisa ser trazida para a CPI", diz Miro Teixeira sobre venda da Delta

Deputado federal diz que o repasse R$ 1 bi do governo favorecerá Cachoeira

Jornal do BrasilMaria Luisa de Melo
Parlamentar há 41 anos e com duas CPIs no currículo - a do Collor e a dos Anões - , o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) tenta impedir que a empresa JBS, controlada pela holding J&F, receba R$ 1 bilhão do governo federal, que são devidos à Delta Construções, referente ao pagamento dos contratos já firmados para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento.
Depois de não conseguir impedir a compra da Delta pela JBS, mesmo recorrendo ao Ministério Público Federal, Miro pretende peticionar junto a Justiça Federal do Rio de Janeiro, Goiás e Brasília pedindo que a empresa do ramo de frigoríficos não abocanhe a cifra. Outra saída encontrada pelo parlamentar é pedir que a presidente da República audite a prestação das obras. Caso constatadas irregularidades, o valor não seria repassado à empresa. "Se este bilhão foi dado à JBS, será repassado à Delta e cairá nas mãos do Cavendish e, consequentemente, do Cachoeira. O esquema não vai parar se este dinheiro for pago", explica ele, que acredita ser possível retomar o dinheiro repassado às empresas fantasmas do Cachoeira, através da Delta. “Retomar o dinheiro será inédito”.
JB: Desde o início dos trabalhos da CPI, tem sido forte o ataque ao procurador geral da República Roberto Gurgel. O sr. concorda com as críticas de que ele teria sido omisso em 2009, quando tomou conhecimento de informações da Operação Vegas?
Miro Teixeira: Em 2009, o Gurgel só recebeu informações sobre quem tem foro especial. Apenas quatro parlamentares, num rol de 80 suspeitos. Não haviam provas contra estes quatro parlamentares já sabidamente envolvidos com o Cachoeira. O saldo de provas robustas era nada, zero. Se ele levasse à frente o inquérito contra quem tem foro privilegiado, o STF poderia ter arquivado aquelas investigações. Não haviam provas. O que se tinha era uma relação pouco ética do Demóstenes com o Cachoeira, descoberta por meio de duas ou três gravações. A partir do momento em que realizou-se uma nova operação da PF e novas investigações foram sendo feitas, foi possível descobrir que o número de envolvidos nesta quadrilha era muito maior que quatro. O que o Gurgel fez em 2009 foi fundamental para o desenvolvimento das investigações e a obtenção de provas. Isto fica claro para qualquer um que ler o inquérito.
JB: O sr. acha que os parlamentares que criticam o Gurgel, como o Collor, não leram o inquérito atentamente ou estão tentando desviar o foco da CPI?
Miro Teixeira: Certamente o Collor está tentando desviar o foco. Há quem tente estabelecer uma pauta contra o Ministério Público e a imprensa todo o tempo. O foco na CPI deve ser o combate à corrupção, tem gente que se desvia deste objetivo central.
JB: De posse de mais de 60 mil horas de conversas e 80 suspeitos de pertencer à máfia do Cachoeira descobertos, incluindo parlamentares do Congresso Nacional e governadores, qual o principal desafio da CPI neste momento? 
Miro Teixeira: Estamos trabalhando para impedir que a JBS receba R$ 1 bilhão referente às obras do PAC, que seriam pagos à Delta. Ninguém sabe ainda por que a Delta repassava dinheiro para empresas-fantasmas do Cachoeira. Precisamos descobrir isto o quanto antes. O segundo delegado da Polícia Federal a ser ouvido pela CPI, logo no início dos trabalhos, frisou aos parlamentares que integram a comissão que a Delta estava no coração da quadrilha. No cerne desta brutal  lavagem de dinheiro organizada dentro da máquina pública.
JB: Como impedir que a JBS receba este valor? 
Miro Teixeira: Ainda esta semana vou requerer à Justiça Federal do Rio, Goiás e Brasília que impeça a JBS de receber este bilhão. Também pedirei à Dilma Rousseff que audite a prestação de obras do PAC. Assim, constatada qualquer irregularidade na execução das obras a Delta e a JBS não veriam a cor do dinheiro. Não será nada difícil encontrar problemas no trabalho feito pela Delta. Aliás, a CPI precisa trazer a JBS para dentro da discussão sobre a máfia do Cachoeira.
 JB: Por que incluir a JBS na CPMI? Por que ela tem um histórico de doações a alguns partidos tradicionais? As doações, segundo informações do TSE, estão em conformidade com a lei.
Miro Teixeira: Por que uma empresa pode querer ser uma espécie de sócia da Delta neste momento? Existe um acordo de que em cinco anos se faria uma auditoria onde quase 30% do que for obtido pela empresa seria repassado ao Cavendish. As coisas estão estranhas nesta venda e a JBS precisa ser convocada para estar na CPI. É preciso ouvir a JBS, sim, já que ela quer comprar uma empresa investigada de repasse para empresas-fantasmas.
http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/05/15/jbs-precisa-ser-trazida-para-a-cpi-diz-miro-teixeira-sobre-venda-da-delta/