domingo 15 2013

Planos de saúde terão de ofertar 37 novos tratamentos para o câncer

Saúde suplementar

Ministério da Saúde anunciou 87 novos procedimentos, incluindo exames e medicamentos, os quais as operadoras de saúde serão obrigadas a oferecer a partir de 2014

Marcela Mattos, de Brasília
Câncer: A partir de janeiro, usuários de planos de saúde poderão contar com mais 37 medicamentos contra a doença
Câncer: A partir de janeiro, usuários de planos de saúde poderão contar com mais 37 medicamentos contra a doença(Thinkstock)
O Ministério da Saúde anunciou nesta segunda-feira uma ampliação obrigatória dos serviços ofertados pelos planos de saúde. A partir de janeiro, os beneficiários vão ter direito a 87 novos procedimentos, entre exames e remédios. Desse total, 37 são medicações orais específicas para o tratamento domiciliar de câncer. As operadoras que não cumprirem a determinação estarão sujeitas a punições. 
Poderão ser tratados em casa pacientes com tumores de grande incidência na população, como estômago, fígado, intestino, rim, testículo, mama, útero e ovário. De acordo com a pasta, a terapia domiciliar promove maior conforto ao paciente e reduz os casos de internação em clínicas e hospitais. “Com o avanço do tratamento do câncer, cada vez mais temos medicamentos orais que podem ser administrados fora do ambiente hospitalar. Essa é uma mudança importante no paradigma que passa a ser obrigatória para os planos de saúde”, explicou o ministro Alexandre Padilha.
O ministro ressaltou que esses tratamentos ultimamente são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Esse paciente pode optar por receber pela operadora e deixar de receber pelo SUS. Mas, no momento em que quiser obter o medicamento pela operadora, a oferta do SUS será suspensa a ele. E, se o paciente quiser o tratamento pela rede pública, vamos cobrar da operadora o ressarcimento”, explicou Padilha. Entre 2011 e 2013, as operadoras pagaram ao SUS quase 239 milhões de reais em reembolso.  
Os outros novos procedimentos contemplam a cobertura obrigatória com fisioterapeutas e ainda aumentam de seis para doze a quantidade de sessões com especialistas nas áreas de fonoaudiologia, psicologia, nutrição e terapia ocupacional. Para situações que exigem um acompanhamento maior, como no caso de autismo ou retardo mental, os pacientes podem ter direito a até 48 sessões com fonoaudiólogos. 
Também foram incluídos 28 novos tipos de cirurgia por vídeo, como para a retirada de cálculos na vesícula biliar e do útero e colo. O procedimento por meio de vídeos é considerado menos invasivos e podem reduzir os riscos ao paciente e o tempo de internação. Também será obrigatório, a partir do próximo ano, o tratamento de dores nas costas utilizando radiofrequência. 

Veja também:
Com a ampliação de exames e medicamentos ofertados, a expectativa do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é beneficiar 61 milhões de consumidores de planos de saúde e odontológicos. 
Custos — A ampliação dos serviços pode acarretar um aumento no valor cobrado pelos planos de saúde. No entanto, a diferença não poderá chegar ao bolso do consumidor no próximo ano. “ANS somente vai calcular o impacto nos preços em 2015, quando o procedimento de aferição será feito a partir da observação da frequência de utilização e do impacto ao longo de 2014”, explicou André Longo, diretor-presidente da ANS. “Historicamente, é um impacto insignificante em relação a outros índices, como inflação e reajuste de honorários”, explicou o ministro Alexandre Padilha. 
A agência e o Ministério da Saúde acreditam ainda que a possibilidade de adquirir os medicamentos em larga escala e de substituir as terapias venosas podem levar, inclusive, à diminuição dos custos, já que a expectativa é diminuir a quantidade de internações.
Punições — As operadoras que não ofertarem os novos procedimentos estão sujeitas a punições que vão de multas à suspensão dos planos. Atualmente, 246 planos de 26 operadoras estão com a comercialização de seus produtos suspensa por terem descumprido os prazos de atendimento ou negado algum tipo de cobertura. Desde 2011, quando a ANS passou a monitorar a atuação das concessionárias, 618 planos, de 73 delas, tiveram a comercialização temporariamente suspensa.

STJ: plano de saúde pode definir doença que terá cobertura, mas não tratamento

Saúde suplementar

Ministros aceitaram recurso contra operadora que vetou técnica robótica para extrair um câncer de próstata de um paciente

Cirurgia
Relatora do recurso disse que técnica experimental não pode ser confundida com modernidade de técnica cirúrgica(Thinkstock)
Ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram que os planos de saúde podem estabelecer quais doenças terão cobertura, mas não o tipo de tratamento que será usado. Os ministros da 4ª Turma do STJ chegaram a essa conclusão durante o julgamento de um recurso contra a Itauseg Saúde S/A, que não autorizou um procedimento com técnica robótica para extrair um câncer de próstata de um paciente.
Conforme informações divulgadas pelo STJ, o caso ocorreu em São Paulo e envolveu uma cirurgia de prostatectomia radical laparoscópica. De acordo com o tribunal, a cirurgia chegou a ser autorizada pelo plano de saúde. Após a sua realização, no entanto, a cobertura foi negada sob o argumento de que a operação foi realizada com o auxílio da técnica robótica. Segundo o médico responsável, esse tipo de procedimento era indispensável para evitar a ocorrência de metástase.
A ação começou na 1ª Instância de São Paulo, com decisão favorável ao paciente. Posteriormente, o Tribunal de Justiça (TJ) paulista aceitou o argumento da Itauseg de que o uso da técnica robótica seria experimental e, portanto, estaria excluída da cobertura do plano.
Relatora do recurso no STJ, a ministra Isabel Gallotti afirmou que não é possível confundir tratamento experimental com modernidade de técnica cirúrgica. "Tratamento experimental é aquele em que não há comprovação médico-científica de sua eficácia, e não o procedimento que, a despeito de efetivado com a utilização de equipamentos modernos, é reconhecido pela ciência e escolhido pelo médico como o método mais adequado à preservação da integridade física e ao completo restabelecimento do paciente", disse.
Isabel Gallotti ainda afirmou que a jurisprudência do tribunal é consolidada no sentido de que, uma vez que o contrato previa a cobertura para a doença, o plano de saúde não poderia recusar a utilização da técnica mais moderna disponível.
(Com Estadão Conteúdo)

Café com leite


Resposta pronta
Caso Siemens no caminho
Hoje, o vice mais provável para a chapa de Aécio Neves é  o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira  – se ultrapassar a tormenta do caso Siemens, claro.
Por Lauro Jardim
http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/eleicoes-2014/saiba-quem-e-o-possivel-vice-de-aecio-neves/

Criança blindada


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Antes das 7h e depois das 22h pode
O deputado Marcelo Matos (PDT-RJ) quer levar a indústria de produtos infantis à loucura: apresentou um projeto de lei proibindo a veiculação na TV (aberta e por assinatura) de propagandas direcionadas às crianças entre 7h e 22h. O projeto de lei não especifica o que Matos entende por “público infantil” nem explica como identificará se determinado produto é exclusivamente consumido por crianças.
Por Lauro Jardim
http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/congresso/o-projeto-que-restringe-a-publicidade-dirigida-as-criancas-na-tv/

Diário inédito narra a viagem de dom Pedro II ao exílio

História

BRASIL

Textos escritos por uma integrante da corte do imperador descreve o clima de melancolia e saudade que marcou o círculo íntimo da família imperial brasileira no exílio

Cecília Ritto
PERTO DO FIM - Em 1889, a família posa em Petrópolis (Teresa Cristina, sentada, e, de pé, Isabel, dom Pedro, o neto Pedro Augusto, e o conde d’Eu): no diário, o sofrimento ao partir
PERTO DO FIM - Em 1889, a família posa em Petrópolis (Teresa Cristina, sentada, e, de pé, Isabel, dom Pedro, o neto Pedro Augusto, e o conde d’Eu): no diário, o sofrimento ao partir      (Museu Imperial)
Passados 124 anos da chuvosa madrugada em que a família imperial brasileira embarcou em um navio rumo ao exílio, o melancólico fim da monarquia ganha um relato tingido de tristeza na voz de uma protagonista da história — Maria Amanda Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto. Seu diário, esquecido nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro, narra com riqueza de detalhes a jornada para a Europa do grupo que tinha à frente o já ex-imperador Pedro II — material que, recuperado recentemente, constará em um livro comemorativo da instituição. Outros diários conhecidos versaram sobre a viagem, inclusive um do próprio dom Pedro. Mas das impressões de Maria Amanda, dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina (chamada de Amandinha no círculo imperial), resulta uma visão particularmente tocante. O primeiro caderno, de 120 páginas, se encerra com o momento carregado de dor em que dom Pedro chora a morte de Teresa Cristina, três semanas após o desembarque em Portugal. “Esse tipo de diário é raríssimo, já que poucas mulheres registravam suas memórias no Brasil imperial, e tem o mérito de documentar um importante capítulo da história sob o calor da emoção”, avalia a historiadora Mary Del Priore.
O barão e a baronesa de Loreto acompanharam o imperador no exílio por vontade própria, em demonstração de fidelidade. Juntaram-se à comitiva de duas dezenas de integrantes que, dois dias depois de proclamada a República, se dirigiu ao cais em tom de marcha fúnebre, embalada pelo silêncio do Rio de Janeiro que dormia. Foram de lancha até o cruzador Parnaíba e, nele, até a enseada do Abraão, na altura de Angra dos Reis, quando se transferiram para o vaporAlagoas. “O mar estava um pouco agitado e, temendo enjoo, que me é inevitável, fui entrinchei­rar-me no beliche, onde me deitei com vivas saudades e lembranças de origens diversas”, anotou a baronesa na primeira de vinte noites ao mar. Em escrita simples e clara, ela destaca a nostalgia e a resignação dos passageiros, sobretudo de dom Pedro. Quase todas as menções a ele são acompanhadas da palavra “saudade”. Não se discutia política a bordo, só literatura. Ali, dom Pedro manteve o hábito das rodas de leitura noturnas, às quais ele próprio batizou de “conversações saudosas”.
UMA DURA VIAGEM - O navio Alagoas, que conduziu à Europa a família imperial e seus súditos mais fiéis, entre eles a baronesa de Loreto: a bordo, rodas de leitura e uma profunda nostalgia dos bons tempos no Rio de Janeiro
A vida relativamente simples que a família imperial levava no Rio de Janeiro se reproduzia a bordo. Não havia festas, banquetes ou roupa de gala; no dia do aniversário do imperador, 2 de dezembro, abriu-se uma garrafa de champanhe, de que todos compartilharam. Ele ergueu-se com a taça em riste e disse: “Brindo à prosperidade do Brasil”. A imperatriz não participou; sentia-se mal. “As outras senhoras estavam mais ou menos enjoadas e nem se mexiam nas suas cadeiras”, ressalta a baronesa. Dom Pedro fazia pouco-caso da maioria dos rituais, mas, mesmo assim, segundo o diário, os almoços e jantares eram servidos sobre uma mesa devidamente aparelhada, e a princesa Isabel vivia escoltada por duas criadas. A falta de dinheiro não impedia que o imperador, como era seu costume no Brasil, fizesse generosas doações. Amandinha relata que, numa escala na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, ele fez questão de dar dinheiro a um padre, para que distribuísse aos pobres.
A baronesa de Loreto também se estende sobre um dos maiores motivos de preocupação a bordo do Alagoas: o comportamento do neto mais velho do imperador, Pedro Augusto. Preparado desde criança para assumir o trono, Pedro Augusto — que tinha tendências paranoicas e viria a ser encerrado em um manicômio — sofreu surtos psicóticos, os quais os demais passageiros atribuíam à aflição que lhe causava a movimentação do navio encarregado de fazer a segurança do Alagoas. “Todas essas manobras só têm servido para assustar o príncipe dom Pedro Augusto, que, desde ontem, sofre de superexcitação nervosa, se acha possuído de pânico e pensa que estamos todos perdidos e não chegaremos a Lisboa. O seu estado é lastimável”, registra o diário. Também a imperatriz Teresa Cristina viajava adoentada. Ela logo morreria vitimada por um infarto. A baronesa lança parte da culpa na República: “Desde que saiu do Brasil, ela mostrava-se impressionada pelos horrorosos acontecimentos tão sabidos. Eles, sem dúvida, concorreram para a sua morte”.
A OUTRA - Na casa da condessa de Barral (de chapéu), amante de dom Pedro (de barba branca), um ano após a morte da imperatriz: o diário da baronesa de Loreto (abraçada à princesa Isabel) relata a dor do imperador
A cena mais pungente descrita no diário é justamente a morte da imperatriz em um hotel simples da cidade do Porto, para onde havia se retirado. Dom Pedro tivera amantes; com uma delas, a condessa de Barral, manteve um romance de 26 anos que continuava vivo naquele momento. Mas, no quase meio século em que esteve casado com Teresa Cristina, apegara-se a ela e tratava-a com ternura. “Antes de soldar-se a urna, o imperador quis despedir-se da imperatriz e mandou chamar a todos nós para fazermos também nossas despedidas”, escreveu a baronesa. “Não se pode descrever a dor dos príncipes e a nossa. Beijamos-lhe a mão e choramos copiosamente sobre o seu corpo sem vida.” O próprio dom Pedro, normalmente contido em suas reações, não esconde a tristeza. “Ele abraçou a sua muito amada esposa soluçando e foi logo retirado dali pelo Mota Maia (médico da família). A princesa beijou sua santa mãe repetidas vezes; o mesmo fizeram os príncipes, e nós beijamos a mão de nossa imperatriz, que fora sempre tão boa e carinhosa.” O choro de dom Pedro era também por ele, que acabou morrendo dois anos depois, aos 66 anos, de pneumonia, no modesto hotel de Paris onde viveu o fim de seus dias. A baronesa de Loreto voltou com o marido ao Rio de Janeiro, onde morreu em 1931, aos 82 anos, sem jamais publicar seu relato da viagem que mudou tantas vidas e que agora, enfim, vem à tona.

Corpo de Nelson Mandela é sepultado em sua aldeia natal

Memória

Depois de uma longa despedida, terminaram as cerimônias fúnebres na África

O sepultamento de Nelson Mandela em Qunu, África do Sul
O sepultamento de Nelson Mandela em Qunu, África do Sul - Reprodução de TV/AFP

O corpo de Nelson Mandela foi sepultado neste domingo perto da casa da família, em Qunu, na província de Eastern Cape, na África do Sul. O enterro contou com a presença de membros da família e autoridades sul-africanas, e encerrou uma longa despedida ao homem que conseguiu derrotar o apartheid. Mandela foi homenageado num funeral de Estado e em dez dias de luto, marcados por fortes emoções entre os admiradores do ex-presidente, que morreu em 5 de dezembro, aos 95 anos.
Familiares e amigos lembraram a vida de Mandela durante seu funeral em Qunu, onde o ex-presidente passou a infância. "Ele foi à escola com os pés descalços e alcançou o posto mais alto no país", disse sua neta Nandi Mandela, ao lado de 95 velas, cada uma delas simbolizando um ano da vida de Nelson Mandela. "Está dentro de cada um de nós a chance de alcançar o que ele desejou durante toda a sua vida. Sua trajetória é uma história de resistência."
Mandela foi enterrado em um terreno cercado por plantas, muito próximo da residência da família na aldeia. O atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma, falou pela última vez sobre o líder como pilar de uma nação que ainda está em progresso. "Aprendemos com você a construir uma nova sociedade, uma nova África do Sul, erguida das cinzas do colonialismo do apartheid. Precisamos superar a mágoa. Nesse sentido, você nos ofereceu esperança ao invés de desesperança", disse Zuma. "Com o fim de sua jornada hoje, a nossa deve continuar."
Eram esperados cerca de 4.500 convidados para acompanhar o enterro de Mandela, incluindo vários chefes de Estado da África, o príncipe Charles e a apresentadora americana Oprah Winfrey. O som de músicos da região e o canto espontâneo de alguns convidados marcou a chegada à cerimônia, nas colinas de Qunu. Enquanto isso, alguns membros da comunidade se reuniam para acompanhar a cerimônia em telões montados ao redor do vilarejo.
"Quero apenas saudá-lo com uma despedida", disse Shirley Kobo, uma moradora de 32 anos. A mobilização dos habitantes da vila, porém, acabou sendo pequena. Muitos cidadãos de Qunu ficaram ofendidos por terem sido barrados da chance de dizer adeus a um nativo. Muitos reclamaram que o funeral tinha sido transformado numa espécie de comício do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido de Mandela. "O povo não quer apoiar o CNA", disse Shirley. "Os líderes atuais estão acabando com o partido."
(Com agência Reuters e Estadão Conteúdo)

Construtoras da lista da propina bancaram campanhas

Máfia dos Auditores

Empresas usaram o CNPJ de sociedades montadas para erguer seus empreendimentos na cidade de São Paulo para injetar recursos em candidatos de diversos partidos nas eleições de 2010 e 2012

Felipe Frazão
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), durante coletiva sobre os escândalos de corrupção e a prisão dos auditores na operação que desvendou esquema de corrupção milionário na Prefeitura - 04/11/2013
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), durante coletiva sobre os escândalos de corrupção e a prisão dos auditores na operação que desvendou esquema de corrupção milionário na Prefeitura - 04/11/2013 - Adriano Lima/Brazil Photo Press/Folhapress
“Podemos interpretar isso como sociedades ‘laranjas’, que entraram para fazer doações das empresas que as constituem e dos sócios, para encobrir o nome do real doador”, Sandra Cureau
Empresas constituídas por construtoras que integram a "lista da propina" da máfia do Imposto Sobre Serviços (ISS) na cidade de São Paulo destinaram pelo menos 1,6 milhão de reais para campanhas nas duas últimas eleições. Levantamento do site de VEJA mostra que oito Sociedades de Propósito Específico (SPEs) apontadas pelos auditores fiscais da prefeitura de São Paulo como pagadoras de propina doaram para dezenove candidatos de diferentes partidos – PSDB, DEM, PT, PDT, PPS e PR. Todas as doações foram declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2010 e 2012.
Uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) é um mecanismo no meio imobiliário utilizado por empresas com a finalidade de erguer um único empreendimento – cada empresa possui determinada cota nessa sociedade, que corresponderá ao tamanho de sua parte quando a construção estiver concluída. Em geral, essa figura jurídica tem prazo determinado para encerrar a atividade: ou seja, quando o empreendimento é entregue aos compradores.
As SPEs abasteceram campanhas ao Legislativo e ao Executivo nas três esferas de governo: federal, estadual e municipal. A maior parte das doações foi direcionada a candidatos a deputado federal e estadual em São Paulo. Mas até os comitês das campanhas presidenciais da então candidata Dilma Rousseff (PT) e do seu adversário José Serra (PSDB) também receberam – respectivamente, 83.333 reais e 150.000 reais cada.
“Podemos interpretar isso como sociedades ‘laranjas’, que entraram para fazer doações das empresas que as constituem e dos sócios, para encobrir o nome do real doador", disse a subprocuradora-geral da República Sandra Cureau, ex-vice-procuradora-geral eleitoral. “Elas também podem estar funcionando para que o real doador não estoure o limite legal de doações. Isso também torna eventual punição mais difícil, porque as sociedades são encerradas, aí são os sócios que têm de ser responsabilizados.”
Não é novidade que empreiteiras apareçam como um dos principais financiadores de campanhas eleitorais. Mas o uso de uma SPE, constituída para atuar em um empreendimento determinado, chamou a atenção do Ministério Público (MP) Estadual. A suspeita é que as construtoras usaram o mecanismo para ocultar o real doador/interessado na eleição de determinado político. Os promotores também avaliam quebrar os sigilos bancários das empresas citadas na "lista da propina" – foram 410 empreendimentos.
As oito SPEs identificadas pela reportagem são controladas por quatro construtoras: PDG/Goldfarb, Lucio Engenharia, Trisul e Brookfield. No caso da PDG/Goldfarb, as sociedades Gold Beige, Gold Marília, Gold Marrocos e Gold Mônaco distribuíram 1.030.333,34 de reais para nove candidatos, em 2010, e para o Diretório Nacional do PSDB, em 2012. É a maior parcela do total de 1.688.333,34 reais pagos pelas SPEs.
De acordo com as investigações do MP, a Gold Marília, por exemplo, pagou 12.358,77 reais de ISS à prefeitura de São Paulo em novembro de 2010. Porém, a empresa devia 704.717,54 reais de imposto. A suposta propina paga à quadrilha de fiscais para obter o desconto, conforme a planilha obtida pelos promotores, foi de 247.000 reais.
Na última segunda-feira, o TSE negou um recurso da Gold Mônaco, que foi multada em 500.000 reais pela Justiça Eleitoral paulista, por ter doado em 2010 acima do limite legal fixado. “Não há como afastar a condenação da sociedade empresarial recorrente ao pagamento de multa no presente caso, pois, conforme consignado no acórdão regional, ela realizou doação na importância de 376.000 reais, e seu faturamento bruto declarado à Receita Federal no ano anterior à doação foi de 2.291.713,09 reais, tendo sido ultrapassado o limite [de 2% do faturamento]”, escreveu o ministro relator do TSE, Henrique Neves da Silva.
A Gold Mônaco alegou que o tribunal deveria considerar o faturamento global de todo o grupo empresarial do qual faz parte (superior a 700 milhões de reais, em 2009), mas o TSE não acatou a tese. Os defensores da SPE chegaram a argumentar que o teto estipulado para contribuições de campanha "viola o direito à igualdade na luta por representação política". Outras SPEs da PDG/Goldfarb, como a Gold Marrocos e a Gold Marília, também foram autuadas por abuso de poder econômico.
Um dos parlamentares apoiados pela PDG/Goldfarb foi o deputado estadual Antônio de Sousa Ramalho (PSDB), líder sindical que atua politicamente no setor da construção civil. Ele recebeu 48.000 reais, sendo 30.000 reais da Gold Marília e mais 18.000 reais da Topázio Brasil – que pertence à Lúcio Engenharia. “Houve solicitações pelos meus assessores de doações para campanha e, nesse caso, foram atendidas. Tudo feito dentro das formalidades legais”, disse Ramalho.
Empresas – A Lúcio Engenharia, dona da Topázio Brasil, disse que a doação a Ramalho foi “perfeitamente legal e contabilizada”. A empresa afirmou também que sua SPE, citada na "lista da propina", “cumpre com as obrigações fiscais e legais”. A assessoria de imprensa da PDG/Goldfarb não respondeu aos questionamentos do site de VEJA.
A Brookfied, que admitiu em depoimento ao Ministério Público de São Paulo ter pagado pelo menos 4 milhões de reais em propina aos auditores fiscais da prefeitura, doou 630.000 reais a políticos por meios de duas SPEs: a Rubi e a Aquamarine. As doações foram destinadas a políticos de São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. Procurada, a Brookfiled não respondeu.
O ex-senador Adelmir Santana, que disputou a eleição de 2010 para deputado pelo DEM do Distrito Federal, disse que desconhecia a Rubi e que acertou a colaboração com a Brookfiled: "Nunca vi essa empresa. Na verdade, quando eu saí candidato, eu busquei alguns contatos e uma das empresas que doaram foi a Brookfield. E ela o fez através dessa Rubi – que eu não sei de onde é porque nunca tive nenhum contato com ela".
A Trisul, controladora da SPE Sugaya, disse que “em relação às eleições de 2010, a situação encontra-se resolvida e encerrada junto ao Tribunal Regional Eleitoral [TRE]”. A Sugaya também foi questionada por doação acima do limite pelo Ministério Público Eleitoral e punida pelo TRE-SP. A Trisul assegurou que as doações "não tem qualquer relação" com o fato de a empresa estar envolvida com os auditores fiscais investigados.

Os deputados Paulo Teixeira (PT-SP) e Theodorico Ferraço (DEM-ES), presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, e o secretário do Governo de São Paulo Ricardo Salles, que concorreu a uma cadeira de deputado estadual pelo DEM-SP, afirmaram apenas que as doações foram legais e estão registradas na Justiça Eleitoral.
(Com reportagem de Gabriel Castro)

Valores doados pelas empresas a campanhas políticas

SPEVALOR*CANDIDATO/COMITÊPARTIDO
Aquamarine50 milLuiz Eduardo CheremPSDB
Aquamarine50 milCarlos Alberto RichaPSDB
Gold Beige150 milDireção Nacional do PSDBPSDB
Gold Marília30 milAntonio de Sousa RamalhoPSDB
Gold Marília11 milIraja Silvestre FilhoDEM
Gold Marília83,3 mil  Comitê Dilma Rouseff PT
Gold Marrocos320 milGuilherme CamposDEM (PSD**)
Gold Marrocos45 milRenato Fauvel AmaryPSDB (PMDB**)
Gold Marrocos15 milDavi ZaiaPPS
Gold Mônaco15 milRicardo de Aquino SallesDEM (PSDB**)
Gold Mônaco350 milJorge de Faria MalulyDEM
Gold Mônaco11 milLuiz Antônio de Medeiros NetoPDT
Rubi50 milGuilherme Antonio MalufPSDB
Rubi30 milRosângela de Oliveria ZeidanPT
Rubi100 milAdelmir Araújo SantanaDEM
Rubi50 milTheodorico de Assis FerraçoDEM
Rubi50 milVanderlan Vieira CardosoPR
Rubi100 milMarco Ferreira Perillo JúniorPSDB
Rubi150 milComitê José SerraPSDB
Sugaya10 milPaulo TeixeiraPT
Topázio Brasil18 milAntonio de Sousa RamalhoPSDB
*em reais / **atual partido